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Terça-feira, 06/09/2005 - 14:01 - Por Redação iMasters
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Entrevista exclusiva: Luiz Carlos Azenha

Luiz Carlos Azenha tem mais de 30 anos de vida jornalística. Ingressou na Rede Globo onde se tornou correspondente internacional, passando por mais de 40 países, cobrindo fatos que marcaram o milênio.

Passou por quase todas as emissoras de TV, mas é de seu último posto em Nova York, como repórter especial na Globo Internacional, que lhe rendeu seu mais novo projeto: o Blog Vi o Mundo.

Azenha, está de volta ao Brasil pela Rede Globo de São Paulo, onde produz matérias para o Globo Reporter, Jornal Nacional e SPTV.


O iMasters conversou com Luiz Carlos Azenha, mostrando sua visão sobre a relação entre a Internet e o Jornalismo. Boa leitura!

iMasters - Luiz Carlos Azenha, você saiu de Bauru/SP, sua cidade natal, há mais de 20 anos para correr o mundo, e agora está de volta ao Brasil pela Rede Globo de São Paulo. Como você analisa a imprensa brasileira, de uma maneira geral, neste seu retorno ao país? Até que ponto você acha que a Internet mudou o jornalismo no país?


Nos grandes centros, onde há mercado para sustentar as publicações, há uma imprensa de fato independente e vigorosa. No interior houve consolidação, não há mais do que um grande jornal por cidade. A expansão das emissoras de tevê locais e as publicações na internet foram os fenômenos dos tempos recentes. Não acredito que a internet tenha mudado o jornalismo. Ela mudou para os formadores de opinião, acelerou o ciclo jornalístico. Hoje nenhuma redação prescinde de acesso a todos os sites de informação, que se pautam uns nos outros através das informações da internet. Existe um risco embutido nisso: os jornalistas deixaram de checar informações publicadas na internet. O jornal português “O Expresso” deu que o Delúbio Soares foi dez vezes a Portugal. Toda a imprensa brasileira deu isso, atribuindo isso ao jornal. E ai? O Delúbio foi mesmo? Que se saiba até agora, não.


iMasters - Mark Kramer, professor de Harvard, em visita a Lisboa disse que “os jornais estão mergulhando em uma crise sem precedentes”. Vendas em queda, leitores em fuga e é claro Internet, esta última trouxe o que o mesmo chama de “crise do próprio jornalismo”. Luiz, concorda com o fato de que o jornalista atual, presenciando o àpice desta “crise” possa ser algo mais do que a mera repetição dos fatos, lançado muitas vezes por agências noticiosas?


Vai ver que ele disse isso porque estava em Portugal e não teria dito o mesmo se viesse ao Brasil. Quando se fala em internet, tem muito achismo. Eu não conheço estatísticas sobre as taxas de leitura dos brasileiros, nem sobre as finanças de jornais e emissoras de tevê. Duvido da falência de jornais por causa da internet. Eu olho o padrão de consumo dos mais jovens. Eles talvez não leiam os jornais do mesmo jeito que os pais, mas usam a internet como se usa um menu de um restaurante. A garotada escolhe na internet o que quer ler e gosta de interagir com quem escreve. Tenho um amigo, César Seabra, que mantém um blog no jornal “O Globo” e recebe cerca de cem comentários diários. Esse mercado era inexistente.


iMasters - Com a velocidade de informação lançada pelas novas mídias as pessoas ouvem fatos e dispensam jornais que repetem os mesmos com 24 horas de atraso. Ao que parece, o jornalista que realmente quer vencer este impasse, deve abandonar sua forma "narrativa" de jornalismo e adota uma nova maneira de relatar os fatos. Em entrevista ao site iMasters, o jornalista Marcelo Tas, afirmou que “vale muito, nessa era (da informação), o talento de contador de história”. Os leitores querem mais do que fatos, querem histórias, no sentido mais nobre do termo?


Acabou a grande reportagem nos jornais brasileiros, não é mesmo? A norma é publicar textos curtos, enxutos, seguindo a lógica de que o leitor não tem tempo “a perder”. Acho que a reportagem aprofundada e bem escrita é A saída dos jornais para competir com a internet. O “New York Times” perdeu credibilidade nos Estados Unidos, mas está bem acima da média por causa da qualidade do texto e da profundidade das reportagens. O mesmo vale para os telejornais. Em breve as pessoas vão chegar em casa, à noite, sabendo tudo o que aconteceu de importante no dia. Precisam ser motivadas por reportagens bem produzidas para assistir a um telejornal. Também acredito que o didatismo é o caminho. Ainda hoje, escrevemos “a Revolução Russa” ou “a Queda da Bastilha” partindo do pressuposto de que o leitor, o ouvinte ou o telespectador sabem do que se trata. Esquecemos que, no Brasil, a mídia só pode crescer incorporando milhões de pessoas que não tiveram a mesma educação formal “da elite”.


iMasters - Luiz, tem conhecimento da existência algum “movimento” no meio jornalístico com um estudo mais a fundo sobre o impacto da internet no meio e as possibilidades que ela abre?


A decisão de todas as grandes empresas jornalísticas de investir na internet deriva do fato de que é possível criar uma nova fonte de renda com o mesmo material produzido para o jornal, a rádio ou a tevê.
O “New York Times” vende por cerca de um dólar reportagens antigas que constam de seu banco de dados. Vende as melhores fotos do jornal em posters. A Globo.com reproduz trechos de novelas, reportagens e programas que não implicam em custo adicional, só em faturamento. Parece uma lógica simples.


iMasters - Azenha, os blogs vem sendo ferramentas fundamentais nesta era da informação, muitos deles fazerm papel de testemunhas vivas dos fatos e relatam o acontecimento no momento imediato do seu acontecimento. Fato recente que bem caracterizou esta máxima, foram os atentados a Londres onde os blogs assumiram papel jornalistico decisivo, uma vez que, as redes de TV estavam confusas mediante há imprevisibilidade terrorista. Fale-nos um pouco sobre seu projeto virtua, o blog Vi Mundo, onde publica matérias, bastidores das notícias e reportagens sempre com um comentário pessoal?


Por falta de tempo, eu não pude ainda me dedicar a um blog de rápida atualização. Eu adoraria interagir diariamente com os internautas. No meu caso é um site mais tradicional, atualizado diariamente, em que conto histórias sobre reportagens que fiz ou que estou fazendo. Decidi lançá-lo quando notei o grande interesse das pessoas pelos bastidores, pelo que acontece atrás das câmeras, pela minha opinião pessoal sobre os fatos. E tem dado muito certo. Tão certo que a própria Globo.com se interessou em hospedar meu site, que era independente – ficou interessada no conteúdo.


iMasters - Depois de passar por mais de 40 países cobrindo guerras, fatos importantes que marcaram o milênio e na produção centenas de reportagens, você tem algum outro projeto futuro que envolve a integração das mídias, o uso da web ou alguma nova tecnologia?


Meu objetivo de longo prazo é viver exclusivamente de Jornalismo na internet. Infelizmente, o mercado brasileiro ainda não amadureceu para isso – é questão de tempo. Não tenho dinheiro para o investimento, mas me parece muito boa a idéia de vender conteúdo para as empresas de telefonia celular. Uma rede americana está testando novelas de 20 capítulos, cada uma de um minuto, vendidas exclusivamente para assinantes da telefonia celular. Animações de alta qualidade, como se fossem histórias em quadrinhos de terceira geração.



iMasters - Uma pergunta breve. Você acredita que o “furo jornalístico” ainda exista?


Com certeza, mas ficou mais difícil conseguir um. Há câmeras amadoras espalhadas por toda parte e gente que usa o celular para passar informação ao vivo para as rádios. Todo mundo virou um pouco jornalista, né? Eu acredito muito em pegar um assunto banal, batido mesmo, e dar a ele uma nova leitura, mais aprofundada, com novas perspectivas. Fiz há pouco um Globo Repórter sobre depressão – um assunto sobre o qual muito se fala – em que tive a sensação de ter conseguido um pouco disso. É o meu caminho.


iMasters - O seu projeto online (blog) segue uma nova linha do mercado jornalístico onde os profissionais fazem o chamado “corpo a corpo” com os leitores, uma vez que são instrumentos extremamentes interativos. Essa é uma sensação nova para o jornalista?


Quando você fala, no Jornalismo, para 30 milhões de brasileiros de uma só vez – como no Jornal Nacional – parece que sua reportagem foi colocada num buraco negro. No dia seguinte, é outra reportagem. Falta um retorno de qualidade. A internet permite isso. As pessoas podem ler, refletir, criticar – é uma experiência muito prazerosa. Há um risco nisso: o do jornalismo popstar, aquele em que o profissional sacrifica a qualidade por causa da vaidade.


iMasters - Por fim, como já é tradicional, queria te pedir para nos deixar uma bibliografia, bem como um autor que vem lhe rendendo a atenção, para os que se iniciam ou já estão no meio jornalístico e têm você como uma referência.


Eu sou de fase. Agora tenho lido muito sobre política internacional. Li “The Longest War”, de Dilip Hiro, sobre a guerra entre o Irã e o Iraque, que ajuda a esclarecer fatores que acabaram gerando toda aquela turbulência regional. Estou lendo “Stalin, a Corte do Czar Vermelho”, de Simon Montefiore, que dá uma nova visão sobre a vida do ditador soviético; e um livro sobre a fome catastrófica que matou 3 milhões de pessoas na Coréia do Norte – sem que o mundo praticamente soubesse disso. Eu gosto muito de coberturas internacionais e sempre digo aos jovens que pretendem se preparar para exercer a profissão: leiam tudo o que disser respeito à sua área de interesse. Desligue a TV e a internet e leia.


iMasters - É com enorme satisfação que a equipe iMasters recebe este grande nome do jornalismo nacional. O nosso muito obrigado, Luiz.

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Entrevista produzida por Felipe Pinto, da redação iMasters. E-mail: felipe@imasterspro.com.br

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