LOGIN:

iMasters | Por uma internet mais criativa e dinâmica

Feeds

Teoria/Design

Feed da seção Teoria/Design

Newsletter de Teoria/Design


Quarta-feira, 01/06/2005 - 13:41 - Por Redação iMasters
Seções relacionadas:

Entrevista exclusiva: Luli Radfahrer

Luli Radfahrer é PhD em Comunicação Digital, tendo dirigido a divisão de internet de algumas das maiores agências de publicidade, bem como dos maiores portais do país.

Professor-Doutor da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/USP), Diretor Associado do Museu de Arte Contemporrânea do Rio de Janeiro, Palestrante e Consultor independente, Luli também é autor dos livros “design/web/design" 1 e 2 e o seu lançamento “A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico”.

Lui também administra uma comunidade de difusão do conhecimento digital pelo país.

O iMasters conversou com Luli Radfahrer, um dos profissionais mais polêmicos da nova mídia no Brasil, que sobre a formação do Designer, usabilidade, o novo site da AOL, as tendências no Brasil, dentre outros grandes tópicos que você poderá acompanhar abaixo. Boa leitura!

iMasters - Olá Luli. Para iniciarmos este bate papo, o nome Luli Radfahrer pode ser considerado sinônimo de “veterano” quando se fala de design na Web. Está na web desde 1994, com a fundação da Hipermídia. Em 1996 você inaugurou a Kropki e no final de 1999 entrou na StarMedia. Formado em Ciência da computação e Propaganda, hoje é professor-doutor da ECA (Escola de Comunicação e Artes de SP). Conte-nos sobre o início de sua carreira, a chegada da internet no Brasil e seus projetos atuais?


Para começar, muito obrigado. Pela generosidade nos elogios, pela deferência e, acima de tudo, pela enorme paciência. Essa pergunta de vocês é tão extensa que não pode ser respondida em menos que umas 15 páginas, mas vamos a um resumo.

Em 1993, ninguém fazia a menor idéia do que era a internet e nem se dava para ganhar algum dinheiro com ela. Foi o fascínio pelas possibilidades de comunicação hipertextual de uma mídia realmente nova que me atraíram para a área. Pela primeira vez, surgia uma mídia completamente NOVA, que não era derivada de nenhuma outra, não tinha parâmetros, padrões nem nada parecido com o “certo” e o “errado”. Uma página pode ser maior que a revista inteira? O material poderia ser lido em 5 minutos ou dois meses? Integração, interligação, comunidade, informação – tudo isso era uma revolução em COMUNICAÇÃO, não em tecnologia. Por isso, quem entrou na onda com o mesmo interesse que eu é chamado de “novas mídias”, até porque não tem para onde voltar.

O resto é história de pontocoms e bolhas que vocês estão carecas de conhecer, as minhas não são mais divertidas ou criativas. Hoje meus projetos estão ligados à formação de comunidades e integração de conhecimento. O “digital” é maior que a internet, compreendê-lo é essencial. O resto é manual de operação de software.


iMasters - Você foi responsável pelo redesign e reestruturação da equipe de conteúdo da AOL Brasil. Um trabalho muito elogiado por todos e extremamente necessário naquele momento. Qual foi a importância deste redesign para o site? Como foi o estudo para o projeto?


Redesenhar a AOL foi, ao mesmo tempo, muito fácil e muito difícil. Mais ou menos como fazer o site da MTV em 1998: era necessário criar uma nova linguagem do ZERO, ao mesmo tempo completamente relevante e prática, respeitando todos os públicos e sem firulas-ego de designer. Tive a oportunidade de trabalhar com o sensacional Eco Moliterno e seus companheiros Caio Lazzuri, Alexandre “Caverna” e Marcelo Nishio, profissionais de competência, musculatura e talento inversamente proporcionais ao ego, o que tornou a tarefa rápida, fácil e competente. Onde isso é fácil? Ao contrário dos outros portais, a AOL não tinha NADA no ar, por isso não havia em seus usuários nenhum mau hábito a ser corrigido.

Me lembro que, a cada versão nova do Photoshop, eu morria de medo de sumirem alguns atalhos de teclas que, mesmo errados, eu seguia. Por usar Mac há quase 20 anos, não sei acentuar em “teclados em português” etc. A força do hábito é grande, o que leva o redesign completo de portais como a Amazon ou o Yahoo uma tarefa quase impossível.


iMasters - Você se declara fiel aos conceitos de usuablidade, tema largamente debatido neste meio. Os mestres da usabilidade costumam prejudicar o visual com o exagero de seus critérios? Com o grande crescimento da banda larga, os conceitos estão mudando?


Sim e não. Usabilidade é como um poste de luz: se você estiver sóbrio, serve de iluminação. Se bêbado, de apoio. Ela é como a ergonomia: sempre pode surgir uma cadeira melhor que as que você está habituado. Se a indústria de videogames não desafiasse constantemente os princípios da usabilidade, ainda estaríamos jogando Space Invaders. As pessoas evoluem e acreditar que exista algo como “princípio imutável de usabilidade” é engessar a comunicação, um lixo. O que não significa que valha o cyberparnasianismo – a arte pela arte deve estar restrita às galerias de arte, mesmo digitais.


iMasters - Certa vez, quando questionado sobre o porquê considrea seu emprego como um “trabalho dos sonhos”, você respondeu que “A Internet é um terreno virgem, onde tudo está para ser inventado”. Quais as etapas seguidas por você, para a criação de um projeto? Você, que já se declarou amante do trabalho em equipe, utiliza alguma técnica própria para buscar soluções originais?


Tenho: parar, olhar, escutar. Não os designers, mas os usuários. Levar os designers e pessoal da tecnologia a procurar soluções para coisas que não fazem sentido, não inventar respostas e depois sair à procura de perguntas. Design se faz com “lápis-photoshop-tecnologia”. A fase do lápis é aberta e vale para todos. Chegado a um senso comum, arregaçar as mangas. Todas as idéias são válidas, desde que façam sentido. Colocar a URL na latinha de Coca Light era óbvio. O CD-ROM do FIAT Marea colado nas revistas também. Essas coisas fazem sucesso porque a idéia é simples. Tão simples quanto colocar a América Online. Pena que foi tarde demais.


iMasters - Você é Professor-Doutor da ECA (Escola de Comunicação e Artes de SP). Pelo que você tem observado, acredita que as escolas tradicionais de Design no Brasil estão acompanhando o mercado digital? Já existem boas formações nessa área no Brasil?


Formação boa é formação duradoura. O que não precisa ser careta ou arcaica, mas sólida e com fundamento. Quem entra na ECA hoje, vai ter aula comigo em 2008, se formar lá pra 2010, ter algum poder de decisão em 2012, exercer todo o potencial criativo com poder de decisão lá pra 2015. Faz sentido esse cara aprender Flash na faculdade? Ou tecnologias de servidor? Em 2015 não vai ter nem mais web, pra que fazer um curso de webdesigner?


iMasters - Há algum novo projeto acadêmico, voltado para mídia digital, que poderia nos conta?


Nada relevante. A academia é lerda e corro com minha livre-docência, tentando mostrar que o digital não é uma tecnologia, mas uma linguagem, como o francês.


iMasters - Muitos profissionais de design, quando perguntados sobre a real necessidade de possuir, obrigatóriamente, um diploma de graduação para ser destaque em sua profissão, respondem que, na maioria das vezes, um portfolio bem elaborado pode lhe render mais que o currículo . Esse é um tema polêmico e antigo. A que fato você relaciona essa polêmica?


Isso é uma visão estreita demais. Pra botar lenha na fogueira: só o portfólio vale, mas como ter portfólio? Como estar sempre ativo e inovador? O que fazer para sentir a onda antes mesmo do mar tremer? Só há uma resposta: estudar fundamentos. Na faculdade é mais fácil ter acesso a isso mas, francamente, quem leva a faculdade a sério? Mesmo ela, 10 anos depois, já não vale nada. O designer precisa ser autodidata e gostar de estudar. Quem não conhece Egon Schiele ou El Lizzitsky não deveria fazer design.


iMasters - No 9º Encontro Nacional de WebDesign você abordou o tema “Internet e iTV, finalmente no século XXI”, além de fiel defensor de que o PC (personal computer) não tem utilidade alguma. Você acredita na superação das tecnologias mobile e interativas, perante as mídias tradicionais?


Não foi bem isso o que eu disse: o PC é perfeito para se trabalhar, e só. Para entretenimento fixo em casa, nada é melhor que a TV com Home theater. Para se pegar pedidos num restaurante, um garçom com Palm e wireless vai se dar bem. Pra noite, um celular com MP3 e câmara são show. Por isso devemos tomar cuidado com essa história de integração de mídias, o buraco é mais embaixo.


iMasters - Mudando um pouco de assunto, fale-nos um pouco de seu projeto profissional como escritor, depois uma grande sucesso com as duas edições de seu primeiro livro design/web/design e agora o mais recente trabalho “A Arte da Guerra, para quem Quem Mexou no Queijo do Pai Rico”, título sugestivo fazendo alusão a grandes best-sellers do mundo coorporativo.


Uma coisa não impede a outra. A série DWD é didática, busca a formação de profissionais mas já está ficando velha (é aquilo que falava sobre fundamentos: o livro tem 5 anos de idade e uns 75% dele ainda estão valendo, mesmo com todas as mudanças na internet desde 2001). Deve vir aí um novo livro ou série nesta linha, ligada à minha produção acadêmica e, em nova editora, espero que seja mais fácil de se encontrar. Quero ter 80 anos e ser conhecido por eles. Já a ADGPQMNQDPR é um projeto de comunicação. Como projetos de design, estuda-se o que não faz sentido em um ambiente e se propõe algo novo. DWD é currículo, AG é portfólio.


iMasters - Essa série de entrevistas tem como objetivo comemorar os 10 anos da internet comercial no Brasil. Quais momentos você destacaria nestes 10 anos? Como você acredita que será a Internet no Brasil em 2015?


Difícil responder essa. Mas acho que o que valeu foi o surgimento dos portais, do webdesign, do iG, da banda larga, empresas reconhecerem a necessidade da internet, e-mail para todos, webmail, IM (MSN), emoticons, celulares pré-pagos, e-commerce... a lista não tem fim.

O problema para a internet do Brasil em 2015 é a inclusão. Um mundo perfeito para mim teria vários quiosques públicos, gratuitos e multitarefa espalhados pelas cidades, operados por alguma tecnologia de rádio de telefones celulares com identificação por impressão digital e comando de voz. Um mundo em que não se guarde números de qualquer coisa e, acima de tudo, sem computadores em casa de quem não precisa.


iMasters - Realmente é muito gratificante para a redação do site iMasters recebê-lo neste bate-papo. O iMasters agradece o carinho. Concluindo, peço que deixe uma mensagem final a todos que estão lendo esta entrevista, que tem em você uma figura de um profissional “polêmico, acadêmico e genial” (Palavras de Michel Lent)?


O Michel me paga... se posso deixar uma mensagem, é esta: esqueçam a web, esqueçam computadores, pensem nas coisas que fazem sentido e em como integrá-las para que façam ainda mais sentido. Essa sempre foi a função do design, desde muito antes da web ou da Bauhaus.


_________________________________________________

Entrevista produzida por Felipe Pinto, da redação iMasters. E-mail: felipe@imasterspro.com.br

Todos os artigos de Redação iMasters