Mandic, a internet em pessoa
Um dos percusores da internet no Brasil, case de estudo em Harvard, vencedor de inúmeros prêmios, Mandic é um profissional audaz e polêmico, características que servem para concordar que a história do engenheiro, ex-funcionário da Siemens, se mistura com a da rede de computadores no Brasil.
Em 1990 decidiu apostar alto, em um projeto considerado por muitos uma mera brincadeira “hobista” de garotos e fez disso seu primeiro e próspero negócio, a Mandic BBS. Se tornou um dos gigantes da web brasileira: a MANDIC Internet S.A. Em 1998 vendeu seu provedor por um valor não revelado para o grupo argentino Impsat e tornou-se sócio-fundador do IG, durante dois anos, respondendo pela parte técnica e foi uma espécie de embaixador da empresa.
Enfim, em 2002, retomou a marca MANDIC e decidiu partir novamente para algo totalmente novo: dedica-se a vender um serviço VIP de e-mails. Uma façanha, já que o produto é distribuído de graça e em abundância na rede, porém uma fórmula de sucesso.
Provocador, audaz, polêmico, Mandic, dentre muitas histórias e sagas digitais, recebeu a redação iMasters para um bate-papo muito bem humorado e cheio de boas idéias.
Veja abaixo o bate-papo:
iMasters - Olá Mandic. O jornalista Eduardo Viera, em seu livro “Os bastidores da Internet no Brasil”, disse: “A paixão do senhor pela velocidade só não é maior que seu gosto particular por criar ditados e frases de efeito, uma vez que sua história como empreendedor digital o tornou um dos símbolos da web brasileira – sendo motivo de estudo na Harvad Bussines school”. O senhor, como encara sua relevância no cenário nacional? |
![]() |
A Mandic fez parte da história
da internet no Brasil. Ser case em Harvad, eu avalio
como aqueles grandes prêmios que você não
tem gestão nehuma para falar assim “Eu vou
me preparar na vida para ser case em Havard”, não
vai ser nunca. |
iMasters - Em que momento você notou que estava fazendo uma revolução no Brasil? |
![]() |
Em 1992 notei que o BBS era um bom negócio, porém fui o pioneiro e tinha um grande problema: o de convercer a todos de que aquilo (BBS) era sim um bom negócio. Não havia mídia forte. Outro dia estava falando com Wasghtion Olivetto e disse a ele: “Poxa, você é genial! Inventa cada coisa... e ele me respondeu: “Não! Quem inventa são vocês , eu só acho um idioma e um jeito de falar para turma o que vocês estão fazendo”. Ou seja, ele coloca um cara andando de bicicleta quando você quer vender, sei lá..., uma bola de ping-pong. Sempre faz umas analogias danadas. Em 92 eu disse “isso daqui vai virar alguma coisa”. Eu comecei a trabalhar o BBS de maneira hobista mesmo, isso foi um lado. O outro lado foi quando eu tinha perdido o computador e a linha telefônica em troca do BBS, em casa. Aí pensei que naquela hora tinha que achar uma saída, então nós começamos a cobrar, mas somemte para arcar com os custos da operação. E então um cara chegou pra mim e disse “Como você vai vencer numa terra onde tudo é de graça?” Todos os BBS eram de graça. E eu falei, vou começar a tratar o usuário como cliente. |
iMasters - Em poucos anos de vida, a internet viveu a euforia (bolha) e a depressão profunda. Quais as consequências desta passagem da história para o atual momento da web? |
![]() |
No início era muito complicado. Abria-se o jornal e tinhamos a notícia de que um grupo estrangeiro está chegando com um milhão de dólares e diz que será o maior e melhor do mercado. Imagina como nós nos sentiamos com isso? Nesse período (bolha) muitas empresas
caíram no deslumbramento e muitas se fortaleceram
e ‘quebraram’ – você vê que
a Starmedia não existe mais, O Site não existe
mais, e vários outros exemplos que não existem
mais. A principal conseqüência desta passagem
da história para o atual momento da web e que hoje
você sabe direitinho para onde tem que ir. Você
conhece sua concorrência. Antigamente era uma confusão
total. |
iMasters - Muitos caracterizam essa fase como um processo de seleção natural. Mas eu vejo que muitos daqueles que começaram e faliram, voltaram no comando de outras empresas e estão aí até hoje. Você acredita que realmente houve essa seleção ou “as caras são as mesmas”? |
![]() |
Quem sou eu para poder julgar
alguém. Mas temos exemplos de empresários
que vendem suas empresas depois recomeçam tudo novamente,
daí quebram, começam novamente e a coisa desenrola
mais ou menos assim. Todavia, isso é uma característica
da pessoa. Nós estamos vendo o lado pessoal da Internet. |
iMasters - O próprio iG não selecionou uma equipe com nomes que já estavam no mercado? |
![]() |
Realmente. Mas o iG, em particular,
se preocupou em pegar os melhores do mercado. |
iMasters - Já que estamos falando sobre o iG, você comentaria algum caso sobre Nizan Guanaes, como uma figura extremamente polêmica e sua visão de internet? |
![]() |
Eu acho que, quando eu entrei
no iG, nós erámos puramente técnicos
e nossa empresa deu certo graças a técnica.
O Nizan entrou com uma outra maneira de administrar e nós
nos assustamos, mas no bom sentido. Ele chegou e falou “Olha
o que está acontecendo por aqui!” E ele realmente
conseguia atrair os olhos da mídia para o iG. Achei
uma coisa totalmente nova, mas o iG precisaria disso. Hoje
eu digo que não precisa mais, tanto não precisa
que o Nizan não está mais lá, nem eu
estou mais lá. Ele fez todo mundo olhar para o iG
naquele momento. |
iMasters - Vocês acham que faltou alguma coisa no iG? Faria alguma coisa diferente? |
![]() |
O iG nasceu assim, pré-maturo
porém com tudo. Gosto de dizer que o “bom é
o inimigo do perfeito” e se você começar
a pensar em tudo, os projetos nunca serão lançados. |
iMasters - A sua emprentada digital o consagrou num dos principais ícones da Web Brasileira. Consequentemente, adjetivos ao senhor não faltaram: irreverente, talentoso, polêmico, provocador e visionário. O senhor encaixa em alguns deles? |
![]() |
Acho que polêmico eu sou, né, mas por que não pode ser assim? Na verdade esse negócio é um pouco do sonho. Tenho uma idéia, tenho que pensar em muitas formas para um mesmo projeto, pois uma na hora exata pode vir a dar certo. |
iMasters - Como surgiu o seu projeto atual, o Mandic Mail? Qual o seu grande diferencial, uma vez que há uma cultura do gratuito na internet e o seu produto e obtido de maneira abundante na rede? |
![]() |
Eu fiquei no iG por exatamente 2 anos e um dia. Era o tempo em que eu não poderia usar a marca Mandic, por contrato. A minha saída do iG se deu por dois motivos: primeiro o iG já não precisava mais de mim e segundo que eu sempre tive o sonho da minha marca e de refazer minha empresa. Eu sou daquele time dos que “jogam e depois analisam”. E então entrei nesse projeto. A partir comecei a arquitetar as idéias. Eu não faria um site para conteúdo pois não possuo talento para isso. Mecanismo de busca também não, pois acredito que isso já está bem estruturado. Surgiu então o e-mail. A partir daí o iG já virou uma “praga” pois era meu concorrente, oferecia meu serviço de maneira gratuita. A escolha do e-mail se deu pelo fato de que era um serviço que não consistia como sendo um produto principal, os provedores tinham ele como embutidos em seu preço final. Para grandes provedores como UOL e Terra, investimento em melhoria nesses serviços requer muitas despesas. Neste momento decidi então fazer uma
empresa cujo produto principal seria o e-mail, mas para
o produto principal ser o e-mail, não poderia ter
qualidades iguais, porque “qualidades iguais preços
iguais”. Buscamos então trabalhar com diferenciais. |
iMasters - Você poderia nos citar os principais diferenciais? |
![]() |
Por exemplo, agora nós estamos lançando um projeto inédito no mercado, chamado “Anjo da Guarda”. O Anjo da Guarda saiu de uma necessidade de um usuário, e eu depois, andando na esteira me indaguei: “Mas poxa vida, acho que eu tenho a solução.” O projeto seria o seguinte: imaginamos um cenário com funcionários, onde na troca de e-mails no dia-a-dia ele deleta um e-mail. Um funcionário deleta tudo que tem, apaga a lixeira e pede a conta. Como fica? Aconteceu exatamente este último caso com nosso cliente. Ele queria recuperar os e-mails perdidos
naquele dia. Pensando neste caso em especial, eu criei esse
sistema que vai ser chamar “Anjo da Guarda”,
em que toda mensagem que chega na tua caixa postal ela é
enviada uma cópia da mensagem a um outro servidor.
Toda mensagem que sai da sua caixa postal é enviada
uma cópia a um outro servidor também. Você
tem uma cópia de tudo que entrou e tudo que saiu.
Esse é o “Anjo da Guarda”. |
iMasters - Não existe problema com privacidade? É tudo criptografado? |
![]() |
Não vamos entrar nessa questão de privacidade. “Se tem problema, existe solução”. O importante é ressaltar o conceito do projeto, toda entrada de e-mails em uma pasta e toda a saída em outra pasta. Pastas estas que somente o operador do sistema terá acesso. No âmbito da pessoa física, é exatamente igual, com uma única diferença que é a que o administrador da conta é você. |
iMasters - Foi você quem criou o nome? Na esteira? |
![]() |
Sim. O conceito e o nome. Na esteira. É o melhor lugar. Você não sai do lugar e é uma viagem sem ida para ficarmos pensando. |
iMasters - O senhor possui um estilo arrojado e agressivo de fazer publicidade. Todavia, em seus discrusos, prega a sua “descrença” na publicidade virtual. Por que o senhor não gosta de publicidade na internet? Na mesma linha, como o senhor analisa a crescente do mercado de banda larga no país, para usuários domésticos e a aposta da indústria do entreterimento na transformação da internet em uma TV interativa? |
![]() |
O meu estilo foi sempre de provocar. A cada propaganda que lanço tenho que fazer algo que realmente “bata de frente” com os modelos atuais. Exemplo disto foi uma campanha que lançamos na MANDICMAIL aproveitando o escândalo de espionagem do caso KROLL, em que envolveu ministros e empresas internacionais. No dia seguinte eu coloquei um anúncio no “Correio Brasiliense” e o anúncio dizia assim: ‘‘Senhor Ministro, conheça nosso e-mail antes que os italianos conheçam os seus. MANDICMAIL o único com criptografia digital, só vai ler seus e-mails quem você quiser”. O jornal começou a circular e eu comecei a receber telefonemas, uns de parabéns e outros de louco. Coloquei no “Correio Brasiliense” para o próprio Ministro ler, né?! (Veja imagem do anúncio abaixo):
Em relação à mídia no meio digital, ela não é tão eficiente e nem tão cara, porque “eficiência e o preço vem juntos” quanto a TV ou o jornal. Gosto de dizer que se a mídia da web fosse tão forte, teria horário nobre e os políticos iriam comprar um horário para falar na Internet. Por fim, a crescente da banda larga é
uma realidade incontestável. A indústria do
entretenimento está entrando na sua casa sim, e acredito
que um dia assistiremos um cinema em casa via Interne. Não
no micro, mas no telão, porque cinema tem que ter
som forte que trema tudo né?! Eu não gosto
de assistir um filme no meu micro, acho um saco! O que eu
não digo é que o micro vai ser a solução
para tudo. Por exemplo eu não quero um terno que
toque música, embora eu goste de música. O
que eu acredito é que o micro vai migrar para dentro
das televisões. |
iMasters - O senhor disse que não acredita na eficência da publicidade online? |
![]() |
Não é bem isso. O que eu afirmo é que a “grande” publicidade ainda é a TV. |
iMasters - Temos percebido, nos últimos anos, uma grande tendência de os grandes conteúdos da internet se tornarem pagos. Mais recentemente, a Globo.com lançou o Globo Media Center que deve marcar uma nova era, com um acervo gigantesco de conteúdo em vídeos, mas somente para os assinantes da Globo.com. Você acredita que este novo modelo é mais eficaz? |
![]() |
Eu não sei se é a saída, porque eu não sou especialista em conteúdo. Você vê esse negócio de conteúdo grátis, foi o modelo dos jornais, porque você compra por uma “merreca” o jornal porque ele tem muito mais informação do que aqueles R$ 3 reais que você paga. O jornal vive dos anúncios. E transportaram isso para a internet. |
iMasters - Você sempre disse que é um amante de Biografias, e se baseia muito nelas. E a Biografia do Mandic, sai ou não sai? |
![]() |
Na verdade, não é uma questão totalmente minha. Tenho que achar alguém que tope fazer esse trabalho. Eu já fui preocurado ano passado, mas eles queriam escrever mais do lado de empreendorismo. O título seria mais ou menos assim “ Empreendorismo na prática”. Aliás, hoje eu conversei com um editor e marcamos para nos falarmos mês que vem porque ele já tocou nesse assunto, mas se sair não vai sair já, tão rápido assim, porque não é prioridade. Acho que eu tenho que queimar um pouco mais de asfalto para sair o livro completo. |
iMasters - Finalizando, você afirma também que o brasileiro tem um grande talento para a internet e a internet deu certo no Brasil. Mas em qual área você acha que está esse maior talento? Desenvolvimento, criação, gerência? |
![]() |
É talento para informática. Numa visão macro. Olha por exemplo a questão das urnas eletrônicas. Nem os EUA tem isso. E a automação bancária? Dizem que é por causa da inflação no Brasil, mas a Argentina também tinha inflação e não fez. Tirando o México, nós somos os maiores aqui. É nossa vocação para informática e automação. |
_____________________________________________________________________
Este bate papo ocorreu entre Aleksandar Mandic, Felipe Pinto (Redação iMasters) e Tiago Baeta (iMasters), no dia 03 de fevereiro/2005. Agradecemos a simpatia e a prontidão com que Mandic nos recebeu.