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Quinta-feira, 17/02/2005 - 13:00 - Por Redação iMasters
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Entrevista exclusiva: Michel Lent

Michel Lent Schwartzman é designer gráfico e mestre em Telecomunicações Interativas pela New York University. Um dos primeiros brasileiros a trabalhar com internet, começou sua carreira em 94 em Nova York na EURO/RSCG.

Está entre os criativos de internet mais premiados do mundo, vencedor em Cannes, One Show, FIAP, London e New York Festivals, entre outros. Foi diretor de criação da Medialab (atual Neoris/Mlab) e membro do board executivo da Globo.com. Em 2000 mudou para São Paulo onde assumiu o departamento de internet da DM9DDB, agência da qual foi diretor de criação até o final de 2001. Em 2002 abriu em São Paulo a 10'Minutos, sua agência de projetos interativos.

O iMasters conversou com Michel Lent, falou sobre mercado, cursos, o design no Brasil, a integração com a internet, dentre outros temas que você poderá acompanhar abaixo. Boa leitura!

01. iMasters - Olá Lent. Você é coordenador de design interativo da Miami Ad School e professor do MBA da ESPM, uma das instituições mais respeitadas, nesta área, no Brasil. Como você tem visto a nova formação dos profissionais de criação e comunicação no país, numa era onde a Internet se torna uma nova referência?


Acho que ainda estamos engatinhando quando o assunto é criação voltada para a publicidade interativa. Já temos ótimos cursos de design digital no país, mas verdadeiramente poucos voltados especificamente para a criação publicitária.

Curiosa situação, quando pensamos que o Brasil teve no ano passado 23 leões na categoria Cyber em Cannes, o mais importante prêmio da publicidade mundial.

A Miami Ad School, até onde sabemos, é a primeira escola no Brasil a oferecer um curso com este objetivo.


02. iMasters - Você poderia fazer uma análise crítica sobre essa “massificação” de cursos (faculdades) de “Webdesign” que se espalham por todo país e até que ponto isso se tornar prejudicial ao mercado? Você acredita que o conceito de design deve ser estudado separadamente ao de web?


“Webdesign” é um termo muito gasto de forma geral. Basta pesquisar no Google pra ver as milhares de respostas para o tema. Consequentemente, o aparecimento de cursos em todos os cantos do país e de todos os tipos e qualidades.

Não dá pra criticar este movimento. Ele é natural. O importante é que as pessoas que se interessam por esta área tenham consciência de que ela está ficando saturada e de que há outras formas de se trabalhar com internet sem ser através do Webdesign.

Considero o Design para a Web como uma das possíveis áreas de atuação do Designer. Portanto, acho importante uma formação mais geral e completa em Design que depois pode ser complementada por uma especialização em design de interfaces, que em última instância, engloba a Web.


03. iMasters - Como você analisa as principais diferenças entre a estrutua de uma produtora de internet, e a de uma agência de publicidade tradicional?


Acho que isso depende um pouco da forma como cada produtora trabalha. Mas, em essência, uma produtora de internet cria e produz, ao passo que uma agência de publicidade tradicional, geralmente cria e dirige a produção através de terceiros.


04. iMasters - Na edição de maio/2004 da revista Webdesign, quando perguntado “o que você faz quando dá branco?” afirmou que sua técnica para criação está ligada diretamente à “troca e ao bate-papo”. Essa estratégia condiz com uma nova tendência do mercado, de integração?


O bate-papo e a troca são ingredientes fundamentais para o processo criativo, na medida em que a troca de idéias auxilia na construção de um conceito mais rico. O que tem ocorrido é que esta troca de idéias está cada dia mais aberta à participação de outras partes. Antes era basicamente o diretor de arte e o redator. Agora incorporamos tecnologia e planejamento nesta conversa.


05. iMasters - Em um recente artigo de sua autoria - “Feliz Internet Nova” - publicado pelo site Webinsider, você afirma que “em 2004, completamos 10 anos de internet comercial. Tempo em que passamos de desconhecidos, para eufóricos delirantes, para deprimidos, para novamente iniciantes”. Sob sua análise, o que mudou na Web brasileira nesses 10 anos? Aquele processo de seleção natural realmente aconteceu ou as mesmas “caras” continuam à frente da Internet no Brasil?


De forma sintética: o mercado amadureceu. Deixou de ser um mar de oportunidades fáceis como na época da euforia e a seleção natural deixou alguns bons players antigos e está abrindo espaço para uma série de players novos.

No festival de Cannes do ano passado, os 23 leões foram distribuídos entre 11 empresas diferentes. O que mostra não só que o Brasil tem um extraordinário potencial, mas que este potencial está espalhado.

Assistiremos à uma nova fase de consolidação do mercado com novos grandes players, aquisições e surpresas.


06. iMasters - Na sua trajetória, poderia destacar um grande momento seguido de um projeto que a seu ver, tenha atingido a sua melhor perfomace?


Acho que há vários momentos válidos pra se destacar ao longo de 10 anos de projetos nesta área. Desde o lançamento do site do Ronaldinho em 1997 que gerou mídia espontânea no Jornal Nacional e derrubou todos os servidores nos Estados Unidos, até prêmios em festivais internacionais, projetos pioneiros de TV interativa, redesenhos de interface bem sucedidos.

O que apaixona neste mercado é o fato de que 10 anos de experiência representarem muito para o tempo de mercado e ao mesmo tempo termos a real sensação de que estamos apenas começando e que todos os dias vamos aprendendo novas coisas e superando novas metas.


07. iMasters - Jacob Nielsen, um dos “gurus” da internet, é muito criticado por diminuir a importância de uma boa comunicação visual em um website. Porém, também é uma referência para muitos outros profissionais. Você o conhece pessoalmente? Qual é a sua visão sobre as idéias de Nielsen?


Não conheço Nielsen pessoalmente.

Acho que o problema não é Nielsen. O problema são as pessoas que interpretam o que ele fala achando que deve ser uma regra geral aplicada em todos os casos. O que ele diz faz muito sentido para sites mais horizontais, onde pessoas de todos os tipos vão acessar. São boas regras universais, mas que não devem ser tomadas ao pé da letra em qualquer tipo de projeto.

Cada projeto tem um público e um objetivo específico que deve ser preservado.


08. iMasters - Com a criação do portal iBest, os principais portais de internet do país abandonaram o tradicional prêmio e grande parte do mercado julgou como sendo o fim do mesmo. Como membro da academia do iBest de Design, você acredita na influência do prêmio para o mercado nacional como anteriormente?


Acho que a importância do prêmio para o mercado permanece inalterada. Ele é e continua sendo o maior prêmio brasileiro de internet. E continua não tendo representatividade junto às agências e ao mercado publicitário. Acho que não se pode ser tudo. Ele é um prêmio popular e neste sentido é imbatível e deve sim ser respeitado.


09. iMasters - A 10'Minutos desenvolve desde 1997 um intenso trabalho de incentivo à manutenção da comunidade de profissionais de internet no Brasil. Empresas como Macromedia e Microsoft também têm investido bastante neste segmento. Você acredita que participar de uma comunidade de profissionais é algo insubstituível na boa formação e integração de um profissional de web?


Sim acredito. A 10’Minutos começou a investir na comunidade por pura necessidade. Precisávamos de interlocução e não encontrávamos isso no mercado, porque não existia uma comunidade formada.

Hoje, mantemos este esforço porque acreditamos que essa troca é essencial para nosso toque com a “realidade” do mercado. É preciso saber onde se está pisando para andar com firmeza.


10. iMasters - Quais são os profissionais que mais te influenciaram ou que você teve uma maior admiração ao longo de sua carreira?


Os pioneiros são, de certa forma, órfãos. Por termos praticamente inventado esta atividade, é difícil olhar para alguém do nosso mercado e ter distanciamento para admirar. Posso citar colegas e pessoas de outras áreas que me influenciam e a quem admiro.

PJ Pereira, é meu amigo pessoal, padrinho profissional e um dos profissionais de criação para internet mais brilhantes do mundo. Se não for o maior de todos. Luli Radfahrer, polêmico, acadêmico, genial. Fernanda Romano, pequena notável brilhante, uma das cabeças mais geniais que conheço. Tatiana Roza, coração da Globo.com, à frente de um dos projetos mais fantásticos de internet do pais, se não o mais. Vicente Tardin, editor do Webinsider.

E fora deste mercado mais próximo, sem dúvida, precisamos falar de Nizan Guanaes, Fábio Fernandes, presidente da F/Nazca e claro, Steve Jobs e Bill Gates.


11. iMasters - Analisando o mercado em crescente expansão, a falta de profissionais especializados e um número cada dia maior de empresas voltadas para internet determina uma equação simples: há mais emprego do que empregados. Na sua opinão até que ponto se torna saudável esse “troca-troca” de empregos?


Não concordo com essa afirmação. Acho que sobram profissionais de Webdesign (e por isso falta emprego para eles) e há mais oportunidade em outras áreas como mídia, planejamento, atendimento e gerência de projetos.

A questão é que hoje temos inúmeras escolas formando Webdesigners e basicamente nenhuma dando formação nestas outras áreas. Este é um dos aspectos que procuramos abordar no curso da Miami Ad School.

Sobre a troca-troca de empregos, já escrevi alguns artigos. Um deles se chama ‘Os Estragadinhos da Web’. Meu ponto é que é importante equilibrar suas oportunidades profissionais com seu amadurecimento profissional. Aproveitar oportunidades para melhor o salário é uma boa, mas é importante permanecer em um mesmo lugar por mais tempo para aprender a conhecer suas limitações e melhorar seu desempenho.

Quando mudamos de emprego, zeramos as relações, começamos de novo. Portanto, acabamos não tendo a oportunidade de encarar de frente nossos problemas e trabalhar o nosso crescimento profisisonal.


12. iMasters - Mudando um pouco de assunto, temos percebido, nos últimos anos, uma grande tendência de os grandes conteúdos da internet se tornarem pagos. Mais recentemente, a Globo.com lançou o Globo Media Center que deve marcar uma nova era, com um acervo gigantesco de conteúdo em vídeos, mas somente para os assinantes da Globo.com. Você acredita que este novo modelo é mais eficaz? Será que um planejamento melhor não sustentaria o conteúdo gratuito, gerando receita através de outros meios, como publicidade, valorização da marca, comercialização de produtos exclusivos, dentre outros?


O GMC é um produto exclusivo e acho que a Globo.com está justamente procurando buscar este equilíbrio de marca, publicidade e conteúdos pagos.

A verdade é que o mito da internet grátis precisa ser de uma vez por todas enterrado. ‘There is no free lunch”, já dizem os americanos. Alguém precisa pagar a conta.

Não acho que o problema seja ter que pagar para consumir um conteúdo. Acho que o problema é a forma como fazemos essa cobrança.

Se para ver um conteúdo você tem que sacar o cartão e preencher um cadastro, isso tem um custo maior do que o valor que você estaria realmente pagando. Se você precisasse apenas dizer ‘sim’ e no final do mês pudesse receber uma conta com tudo consolidado, pagando de uma vez, facilitaria tudo.

A prova disso está no sucesso dos downloads para celular. Por que alguém não se importa em pagar R$ 3,50 por um ringtone mas acha ruim pagar R$ 14,90 por um mês inteiro para ver o Big Brother na internet, 24 horas por dia? É simplesmente uma questão de se facilitar os pagamentos.

Há toda uma discussão sobre micropagamentos rolando por ai. Tenho certeza que isso será solucionado em breve.


13. iMasters - Seria, no mínimo, improvável tentarmos listar a importância do nome Michel Lent dentro do cenário da internet no Brasil, assim como sua influência e prêmios recebidos. Apesar de tudo, a humildade é uma de suas marcas e você está sempre à disposição de profissionais e estudades via e-mail, ou em comuniadades pela internet, eventos, dentre outros. Parabéns pelo trabalho e pedimos para você deixar uma mensagem final aos leitores que se espelham em você.


Em primeiro lugar, obrigado pela oportunidade desta entrevista e pela pertinência de suas perguntas. Fico lisonjeado com o convite e com suas palavras.

Se sou uma pessoa conhecida hoje em dia no mercado deve-se ao fato de estar aqui há bastante tempo e também de ter tido a “sorte” de ter estado no lugar certo na hora certa.De todas as formas, acho que a coerência é algo absolutamente essencial para a nossa vida.

Precisamos descobrir o que a gente gosta e procurar fazer com que isso esteja presente em todos os momentos do nosso dia-a-dia. Trabalhar com alguma coisa que a gente gosta é um privilégio, mas sobre tudo uma tarefa.Encontre dentro de você o que você realmente gosta de fazer e vá atrás do seu sonho. Se o seu dia-a-dia é divertido, o resto vem com facilidade.

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Entrevista produzida por Felipe Pinto, da redação iMasters. E-mail: felipe@imasterspro.com.br


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