Desenvolvedores ainda perdem muito em produtividade devido a navegadores desatualizados, sem suporte às funcionalidades e tecnologias atuais para alcançar seus clientes, limitando soluções e criando dores de cabeça desnecessárias.
O Internet Explorer 6.0 (lançado em 2001) ainda participa de 34% do mercado de navegadores*. É um browser que não acompanha o estágio atual da Internet, possui falhas de segurança e limita todo o potencial de uma Internet melhor para todos nós.
Esta campanha é uma iniciativa para excluir navegadores desatualizados
do mapa da internet do Brasil. Basta inserir o código abaixo em todos
os seus sites e de seus clientes. Desta forma, para todo usuário que acessá-los
utilizando navegadores desatualizados, será exibida uma barra simples, sem
marcas, orientando o usuário a atualizar o seu navegador e falando da importância
desta atitude
(veja a barra em ação). Mais segurança para o usuário, mais liberdade aos desenvolvedores.
* Fonte: http://www.thecounter.com/stats/2009/January/browser.php
Ajude a tornar a Internet ainda melhor. Divulgue em seu website a faixa da campanha, avise os amigos.
Lembre-se que a barra só é exibida para navegadores antigos.
aleluia! ate que enfim uma iniciativa realmente válida!!!! será que pode incluir nessa iniciativa, a eliminação do IE?
é já era na hora de trocar pneu!
caraca, fiz o mesmo no meu site... gente se puderem, divulguem bastante também o uso de pelo menos 2 navegadores. por ex: mesmo que o Firefox seja maravilhoso e o opera também e depois de instalados e atualizados, em certas paginas o leyout ou plugin não exetuca corretamente... se tentar pelo IE 6 ou 7 já funciona. "Importante que tenham 2 navegadores atualizados" espero que não me entendam mal, não defendo o IE, mas é q ele é fundamental para o funcionamento de muita coisa na internet. to com pressa, t+ gente!
tudo ficou genial! bom ver alguém de peso levantando essa bandeira. acabei de incluir a barra em 14 sites, e será um procedimento padrão agora. Pena ainda ter que manter o ícone do IE....
rs... eliminar o IE seria uma boa tb, mas o pessoal que teve esta ideia está de parabéns. Bom ano!
Eliminando o IE6 já ta ótimo!!!!!
Muito boa a iniciativa eu apoio, mas a barra está em iframe e ao clicar no link a página para download aparece dentro da própria barra. Poderiam corrigir com target=\"_blank\"!
Muito boa a iniciativa. Mas esse script deixa o carregamento do site bem lento. Mas não deixa de ser uma boa idéia!
Convença as agências a fazerem isso para o bem dos programadores
Todos estes navegadores são muito bons. O único problema é que o IE6 não está atualizando para o 7! Até a Microsoft editou uma página exclusiva com instruções de como instalar; ou resolver este problema. Agora fica aquela dúvida no ar: \"Porque a Microsoft não lança um navegador melhor, assim como tantos outros existentes no mercado?\"
quando clico para fechar a barra esta dando um erro no javascript:window.parent.crossbrowser_hide(); valew
Como alguém consegue usar um navegador sem abas ou guias?
ATENÇÃO IMASTERS !!! No IE 6 (motivo da barra) ao clicar para fechar, está dando um erro -> javascript:window.parent.crossbrowser_hide();
ATENÇÃO IMASTERS !!! O erro acontece porque coolocaram um target=\"_blank\" no botão fechar.
Copiem o js e troquem por um target=\"_top\", e, para garantir, insiram um onclick=\"javascript:window.parent.crossbrowser_hide();\". Funciona, no meu funcionou. Vou colocar em todos os sistemas que administro, espero ter um grande impacto com isso. TAVA NA HORAAAAAAAAAAAAAAA!!! ;)
Aqui, só pra relatar, como sou um webmaster, necessito de vários browsers para testes, e, o unico internet explorer bom é o IE8, pode ter certeza. Atualmente uso: Firefox 3.0.6, Opera 10 Alpha, Safari 3.1, Chrome 1.0.1x e IE8.07, todos excelentes, e detalhe, Windows 7, uma vez que, meu pc não roda Unix, Linux ou Mac
Só atualizar mas com tanto fraude na Net ficamos ate receioso de atualizar.
porque não mudam de uma vez a tal campanha para USE FIREFOX? ja que a imagem do firefox é ligeiramente maior que a dos outros navegadores? a idéia é ótima, não fosse o patrocinio da mozzila corp e a ma fé eu iria aderir. Se a MS faz uma coisa dessas era uma chuva de freetards reclamando da ma fé de tio bill.
Por eu ser um desenvolvedor uso todos os navegadores e sempre atualizados... o unico que sempre me da dor de cabeça no desenvolvimento é o IE, mas parece que pelo jeito o IE8 vai ficar bom, apesar de ainda nao passar no teste do acid3. Firefox 3, Opera 10 Alpha, Safari 3, Chrome, IE8
Demorou!!!! Concorco 100% com a iniciativa.
O blog dedodeouro.net apóia a idéia
Preciso atualizar meu navegador,quando tento entrar no gmail ou orkut me bloqeia a pagina.
Realmente boa a atitude, porem a faixa deveria ser maior. Na minha opinião, deveria cobrir a metade da tela quando alguém acessar a página com essa trala.
Conheci a campanha pelo site da Universidade daqui da minha cidade. To participando já, coloquei no meu site. Blog EliteDosMestres.com.br está com o iMasters
Que tal internacionalizar a barra tambem? Eu abri o site em inglês, cliquei na barra e ela apareceu em português... Qual a licensa desse código? eu posso modificar?
òtima iniciativa. Já vou colocar em meu site e blog. Abraços. Deus abençõe a todos!
Excelente iniciativa. Já adotei nos meus sítios.
Parabéns pela iniciativa!
Peço oraçao aos irmaos , pois preciso , na area espiritual e sentimental. A Paz do Senhor
Aee todos juntos nesta campanha ^^
Muito legal mesmo
Otima iniciativa..! TO DENTRO!!!
\"alex oliveira de matos (12/02/2009 - 17:42) Peço oraçao aos irmaos , pois preciso , na area espiritual e sentimental. A Paz do Senhor\" Seria este site um site de desenvolvedores ou um site de relacionamentos pras pessoas postarem como estão se sentindo. aff.. ¬¬ FalaSério né
É interessante como alguém coloca sua marca na internet e promove conteúdo inadequado sobre um produto de uma outra empresa sem ter fundamento concreto. Parém de dizer bobeira ou promover qualquer tipo de conteudo sobre influencias que aparecem na web. Façam pesquisa, estudem o mercado, veja reais soluções e assim que tiver um embazamento, não faça burrice. Grande abraço
Se isso der certo, aumento minha produtividade em uns 60%, só de não ter que gastar tempo criando \"hacks\" pra essa porcaria..Abaixo ao IE6!!!!!!!!
Posso usar o script de vocês se houver duas modificações: a) Se a barra aparecer quando a página for aberta com o Internet Explorer (em qualquer versão); e b) Da relação dos navegadores para baixar, que seja eliminado o ícone do Internet Explorer. Fui!
O FIM ESTA PRÓXIMO!!
ahh que sonho se todos usassem navegadores atualizados.... parabéns Imasters por essa iniciativa!!!!
Muito boa essa campanha, vou atualizar todos, vlw Imasters.
essa barra em site feito em flash fica atrás, como q se resolve isso?
Acho interessante essa campanha. Mas será que não podemos ir além de atualizar browsers, investir também no desenvolvimento de sites segundo os Padrões Web (Web Standards - http://www.w3c.br/) e também desenvolver sites otimizados para qualquer navegador(http://www.anybrowser.org/campaign/anybrowser_br.html)?
Muito bom. Já instalei nos meus sites/blogs. Abração! ;)
Ótimo, muito boa a iniciativa. Só acho que o Internet Explorer poderia ser excluir da lista pois é péssimo para quem desenvolve site. É um lixo ter que fazer cachorrada(gambiarra) para poder fazer funcionar nessa porcaria de IE enquanto os demais navegadores funcionam corretamente. Navegador padrão: Google Chrome!
ja viram que nhaca fica a home do imasters no iPhone e iPod touch? acho q o defeito esta no css...
@guilhermelima apoia a atualização de browsers!!! e vc?
HAUAHA, BOUA !! MORTE AO IE6 !
Aderi a campanha ^^ Bela iniciativa!!!
Já coloquei o script nos 2 blogs o meu e o da Handcase
Parabéns pela iniciativa, estou cansado desse IE6. O IE7, não me desce muito não, mas tirando o IE6 de linha já é um ótimo passo :D Eu preferia fazer os sites não carregarem caso o usuário estivesse acessando com o IE6 e aparecer mensagem para atualizar, mas isso é uma questão muito delicada... já estou incrementendo em meus sites. []\'s
É isso aí!
Pega Na Banana
Meus sites, e de clientes ja estão usando o script. hehehe chega de ie6 =]
showw de iniciativa meus sites e de meus clientes ja estao usando... vlw chega de ie6
Como pode alguem ainda ser conivente com isso... - isso nao é campanha e sim oportunismo. - atualize seu navegador ou troque seu navegador? pq nao dizer as coisas como sao realmente? a logo do explorer é a ultima e a do firefox é a primeira e bem maior que as demais, sera que nao estou enxergando bem? - um designer nao deve se meter ou induzir o publico referente a escolha de seu navegador, isso é algo que ele deve decidir por si so e naturalmente... ficam dizendo que o \"explorer deve acabar\", pra que? pra ele ter menos trabalho? isso nao existe, um projeto deve ser desenvolvido para atender todo o publico, vc nao pode querer impor o navegador que vc quer. - linux, mozila e outras empresas enchem a boca para acusar a Ms de monopolio, sendo que elas mesmas tb querem monopolizar todo o mercado dando uma de bonzinhos e de que pregam a liberdade.
Quanto ao comnetário do paulo (10/03/2009 - 14:22): Paulo para você ter idéia a própria microsoft deseja que todos os seus clientes também mude do IE6 para o IE7. Se você fizer os updates da empresa vai perceber que há uma especificamente alterando o IE6 para IE7. Quando você continua a usar software sem as devidas atualizações é você que será prejudicado. Afinal é o seu software que se tornará inseguro e instável. Não dê bronca, se informe, se atualize.
Pessoal que criou o código, programadores, o link para baixar o IE7 está quebrado. Poderiam por favor corrigi-lo? http://www.microsoft.com/brasil/windows/downloads/ie/getitnow.mspx
Muito boa ideia eu vou colocar esse codigo nos meus sites. muito boa ideia mesmo.. Parabéns. Chega de I.E das antigas.
Estou divulgando.. Boa iniciativa!!!
Achei essa idéia muito boa, vou colocar essa barra no meu site e em meu blog, só gostaria de saber se não tem uma versão sem o link para o IE, eu detesto esse navegador e não gostaria de recomenda-lo a ninguém. Muito Obrigado!
Sou a favor do atualização dos browsers, pois realmente quando desenvolvemos um site lindo com css e vamos ver em navegadores antigos, acabamos nos frustrando, em minha máquina utiilizo, IE, 8, Firefox 3, Opera 9.5, Safari 4 e o Chrome. Acho obrigatório a utilização de navegadores atualizados, até porque fica tudo mais bonito e funcional. Abraço a todos Lucas Santos
Aqui no meu, quando cliquei pra alterar o idioma bugou e voltou pro português.. Sei lá. sei lá..
Olá galera muito legal a campanha do imasters aprovo inteiramente esta campanha maravilhosa, ainda são muitos os usuários que ainda usam browser\'s antigos, parabenizo a imasters por esta iniciativa
Adorei e aderi! Meu blog tava enfrentando dificuldades com o IE6. Obrigado!
Gostei muito da iniciativa, só não irei inserir em meu website pois ali diz que só é exibida para navegadores antigos, o que não é verdade. Utilizo FireFox 3.0.6 e ela é exibida em vários websites que visito.
ótima campanha, parabéns, eu concordo plenamente com ela.. Navegador Padrão: Google Chrome Email Padrão: Gmail Mensageiro Padrão: Google Talk OS Padrão: ? :D Google OWNZ
Acho uma excelente iniciativa. Já inseri o código em meu blog. abraços
Adorei a iniciativa e já aderi, espero que muitos sites coloquem esse código tbm... Parabéns!!!
Tem que atualizar mesmo !
não funciona em versões antigas do firefox
Sites que não funcionam no Firefox merecem ser removidos tal qual o Internet Explorer 6 e os programadores devem retornar aos estudos. Aliás o Bradesco Empresa está nesta situação... protestem também contra o Bradesco Empresa e peçam que os desenvolvedores voltem aos estudos.
Muito Bom...Ótima Iniciativa...Adorei... Já Estou Participando Da Campanha...
Podia passar pro IE 8 logo. Melhorou do 7 pro 8.
Assino em baixo essa iniciativa... e podem contar comigo para divulgar... pois para nós desenvolvedores é muito ruim ver nosso trabalho todo deformado por causa de um sistema desatualizado... recomendada essa iniciativa!
Estou nessa também pessoal. Inclusive vai me ajudar muitoporque meu site fica horrivel no IE6...uma vergonha. Mas a culpa não é da Microsoft, a culpa dos usuários que não tem conhecimento ou não fazem a atualização do navegador.
Estou nessa também pessoal. Inclusive vai me ajudar muitoporque meu site fica horrivel no IE6...uma vergonha. Mas a culpa não é da Microsoft, a culpa dos usuários que não tem conhecimento ou não fazem a atualização do navegador.
Acho que saiu é versão final do IE8!!! http://www.microsoft.com/downloads/details.aspx?familyid=341C2AD5-8C3D-4347-8C03-08CDECD8852B&displaylang=pt-br OU http://www.microsoft.com/brasil/windows/internet-explorer/default.aspx Acredito que esteja melhor que o 7, troca o link pra ele plis *_*...
Alguem poderia postar ai como posso por essa barra em um site PHP-NUKE 8.0? Valeu. MORTE AO IE! Firefox comanda!
Muito bom, já estou usando em todos os projetos, atualmente ja tem em 15 sites que desenvolvi. Porem o acesso ta ficando muito lento por conta, fica a critica construtiva ai.
Só hoje tomei conhecimento dessa iniciativa de vocÊs... Alguns meses atras criei uma comunidade no orkut! \"Aposentem o internet Explore 6!\" Acredito que o orkut é um dos melhores lugars para a divulgação aqui no Brasil devido o excesso de gente que usa... o link: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=80589977 quem poder entrar na comunidade ja estara ajudando
O site está desatualizado... Nos links de download, o do Internet Explorer não aponta para a versão mais nova...
A campanha é boa mas ela está \"forçando\" contra o IE de uma maneira sublime...e isso é coisa de amador!!! Depois ficam falando mal da Microsoft..vcs estão agindo de forma semelhante
A www.treedbox.com já esta na campanha também Quanto mais desenvolvedores e Designer nacionais aderirem mais forte será a campanha nós da Treed Box paramos de brigar com o IE6, não por incapacidade mas por estar muito obsoleto \"Mas ta meio estranho o site\" Atualiza ué! Quem não atualiza vive reclamando que esta cheio de virus, devido a vinerabilidade do IE6 Valeu imaster, abraço a Todos
IE6 está obsoleto, não atende mais as técnicas de XHTML e CSS .. melhor para TODOS é a migração, atualizarem seus navegadores .. assim o mundo ficará melhor. www.eduardocs.com
* Nova campanha: Ao notar que um usuário (próximo de você) ignorou o aviso de instalar um novo browser, DÊ PAULADAS NO MONITOR do individuo, se ele reclamar fala que foi pra matar um vírus.
E digo mais, www.jogosrox.com entrará na campanha nas próximas horas.
A ideia deve ser mais propagada. Deve ser adotado. Já lançaram a útilma versão do IE 8 e justificam sendo o browser mais rápido da atualidade. Precisamos de browsers completos. A Microsoft insiste em ser o primeiro em tudo, até nos erros. Parabéns pela iniciativa e grande ideia.
O Blog do Pharis (http://pharisfaces.blogspot.com) também entrará nesta campanha. Abraço
A iniciativa é louvável! Mas não teria como fazer todo o conteúdo descer \'x\' pixels quando a barra é ativada? (onde \'x\' é a altura da barra, em pixels) Fica ruim se a barra ficar NA FRENTE do conteúdo do site, escondendo o menu, por exemplo. Eu acho que é ruim obrigar o visitante (mesmo este estando usando o IE6) a encontrar o botão que oculta a barra para poder ver o que está no topo da página, atrás dela.
O PortalFamaMG também aderiu a campanha.O IE6 deve ser eliminado.Abraços.
otima campanha, jah esta add no meu site! Agora vamos fazer outra: Campanha ACABE COM O INTERNET EXPLORER!
A página da Faculdade de Engenharia Química adotou a campanha de vocês. O IE6 anda atrapalhando o desenvolvimento de aplicativos web para a faculdade. Obrigado pela iniciativa!
A página da Faculdade de Engenharia Química adotou a campanha de vocês. O IE6 anda atrapalhando o desenvolvimento de aplicativos web para a faculdade. Obrigado pela iniciativa!
Æ!! Criei um plugin para Wordpress que usa o CrossBrowser como campanha principal. http://wordpress.org/extend/plugins/anti-ie6-army/ Só jogar ele no seu diretório wp-content/plugins e você já terá o crosbrowser ativo no seu blog! ;) Mais informações: http://pothix.com/blog/anti-ie6-army Há braços
Opa, Para Wordpress tem um plugin pronto no site: http://marcelorodrigo.com/wordpress-plugins/internet-explorer-6-upgrade É de um amigo de longa data, testado e aprovado.
Já aderimos à campanha www.minimalist.com.br
Ao invés de querer contaminar os municípios com depósitos de criminosos de todos os tipos, o governo precisa isolar a construção desses presídios em locais ermos(tipo ilhas).Ou as autoridades tomam tenência contra a impunidade, ou não leva muito tempo, estão invadindo os palácios, para matar, furtar, estuprar, etc...
www.comoquefaz.com também.
tudo tá evoluindo e ainda tem pessoas que fica para traz, se ninguém se atualizar o mundo fica para traz e as coisas fica complicada. www.galerarox.net
Já era mais do que tempo!! Para se ter uma ideia da peleja, mantenho um IÊca 6 na máquina só por conta de ajustar meus sites antes de colocá-los \"no ar\"! Um saco!! E quando \'desconfigura\' tudo!? Ai é refazer quase tudo do zero! buááá!! Vamos ver se o povo entra numa e adere rápido! E parabéns a campanha, que a idealizou e quem esta aderindo! Sucesso a todos! lkfoury
e um programa de baixa qualidade pois eu tenho no meu pc e e so entrar no orkut que da pau ;o explorer eu abro ate quatro portas e nao trava nenhuma essa porcaria trava toda hora .e so querer saqir do orkut e la vem pau de novo queremos deixar o explorer mas a hora que aparecer um navegador que preste se4 nao nao vale a pena ,melhorem muito mas muito mesmo ai quem sabe vcs serao a altura do explorer;e olha que a minha veraso e a 5.1,
Ótima campanha!
Com certeza uma iniciativa maravilhosa. Parabéns IMASTERS. Nós da BUZZACTION - Marketing Interativo apoiamos vocês!
@William ninguem está forçando ninguem a atualizar o navegador, estamos apenas sugerindo isso. O IE6 não segue nenhum padão de web atual e todos tem que se adequar ao padrão até o usuário final. Isso aconteceu com a telefonia celular, quando comecei era uma tal de \"Banda A\", com o tempo isso foi sumindo e virou \"Banda B\" e todos usuários tiveram que trocar de aparelho... agora pega seu Ericson de quase meio quilo e leva em uma loja e fala pra eles habilita novamente o serviço e exiga que funcione perfeitamente como nos GSM atuais. PS. Todos pagam pra troca de celular (diretamente ou indireatmente), mas ninguem paga pela atualização do navegador... então porque não fazer?
Quero Um navegar bom ...
Deixei de dormir várias noites por culpa do IE 6 e versões inferiores. Navegador fdp
Interessante. Vou juntar-me a campanha. :)
Excelente Campanha estou colocando nos sites dos meus clientes ...
se o seu browser nao que entrar de pauladas no seu computador e depois taque fogo
Galera, vou aderir a esta campanha também, colocando o script em meus sites. Tinha um outro script no www.updateyourbrowser.com que só aparecia quando o usuário estivesse usando o IE6. Acho que seria uma boa fazer isto com este também, já que o do update... tinha somente aquele barrinha amarela, tipo do activeX, parecia um vírus.
Só tem um problema, nas páginas que coloquei, ele demora muitooo para carregá-las, pois fica buscando no servidor do imasters/uol. Mas no mais tudo ótimo, o negócio vai ser copiar o código fonte pro pc e deixar rodando no servidor junto com o site, mas quando tiver atualizações vai ser o foda! :D
Taí uma iniciativa boa com uma boa causa. E a gente só sai ganhando atualizando. Eu recomendo o Firefox 3, o Chrome 1.0 e uso o Opera 9.6; vale a pena usar esses browsers. O Não pise na parede tá dentro : naopisenaparede.blogspot.com
Meu Blogfolio entrará na campanha por um Browser completo. Liberdade no Design e Programação para nós desenvolvedores!
É a isso morte ao IEca6. o site da macavi apoiará a campanha. sabe pq o IE6 ainda sobrevive? pq ele vem integrado ao XP e os usúarios preguisosos tem preguiça de instalar um navegador decente.
Que isso, vocês estão reclamando muito... Eu gostava do IE3, Netscape na época do navegador marítimo. Nesse tempo era necessário mais criatividade com menos ferramenta, hoje temos mais ferramenta e menos criatividade... Mas é fato, se vamos atualizar que seja para melhor e PADRONIZADO. Web Kit na véia...
não posso dizer nada, ainda não o conheço
eu gosto do ie6
Muito boa a iniciativa. Mas esse script deixa o carregamento do site bem lento. Mas não deixa de ser uma boa idéia![2] Aliás, uma ótima iniciativa do Imasters!!, não é a toa que o forum também é uma referência para desenvolvedores WEB... MORTE AO IE6...
Que o IE6 vire pó de uma vez, fdp, sempre tem uma coisa pra ficar errado no layout... Já adotei a campanha. Morra IE6, morra!! =)
prezados, estou tentando colocar no site que eu montei, mas não está aparecendo... alguém pode me ajudar?
A resposta para quem questiona o motivo da Microsoft não lançar um navegador melhor como todo mundo é a quantidade de sistemas corporativos baseados em windows que rodam em versões desatualizadas do windows e por sua vez com navegador desatualizado. Um exemplo disso são os sistemas de governos em geral e orgãos públicos onde a maioria dos funcionários e até os gerentes dos escritórios associam a idéia de internet ao ícone azul.
muito bom!!! todos devem ganhar!!! so um genio para criar isto!!!
opa, vou fazer essa campanha.. valew galera
Entrando para a campanha e divulgando no blogue http://luzdeluma.blogspot.com
A campanha é válida tirando a parte de tentar impor ff ou qualquer outro browser (o que não é uma prática muito profissional). Quem decide o que usa (sendo burrice ou não), é o dono da máquina e não um desenvolvedor de sites. Por muito tempo continuaremos desenvolvendo para muitos browsers diferentes. Agora uma proposta: que tal aderirem também à campanha eu sei escrever? Tem ALGUNS(para deixar claro que não são todos), pretensos \"Desenvolvedores\" que não conseguem nem passar idéias através de um simples texto, a coisa vai degringolando e no fim nada se entende do texto. Pelo amor de Deus, isto denigre a classe de desenvolvedores. Não somos analfabetos e para ser desenvolvedor não basta apenas se dizer que o é, é preciso estudo. se você não sabe escrever sem erros como programa ou desnvolve algo?! E mais, como se comunica com o cliente por e-mail?!?! E geralmente quem escreve mal costuma falar também... E não me venham dizer que uma coisa nada tem a ver com outra...Assumam a campanha eu sei escrever e sejam felizes!! http://euseiescrever.blogspot.com/
A campanha é válida tirando a parte de tentar impor ff ou qualquer outro browser (o que não é uma prática muito profissional). Quem decide o que usa (sendo burrice ou não), é o dono da máquina e não um desenvolvedor de sites. Por muito tempo continuaremos desenvolvendo para muitos browsers diferentes. Agora uma proposta: que tal aderirem também à campanha eu sei escrever? Tem ALGUNS(para deixar claro que não são todos), pretensos \"Desenvolvedores\" que não conseguem nem passar idéias através de um simples texto, a coisa vai degringolando e no fim nada se entende do texto. Pelo amor de Deus, isto denigre a classe de desenvolvedores. Não somos analfabetos e para ser desenvolvedor não basta apenas se dizer que o é, é preciso estudo. se você não sabe escrever sem erros como programa ou desnvolve algo?! E mais, como se comunica com o cliente por e-mail?!?! E geralmente quem escreve mal costuma falar também... E não me venham dizer que uma coisa nada tem a ver com outra...Assumam a campanha eu sei escrever e sejam felizes!! http://euseiescrever.blogspot.com/
Estamos na campanha: http://www.alfaiataria.net
estou nessa sem questionar...
Mais um apoiador. Parabéns pela iniciativa!
estou esperando respostas de voces gosto muito das roupas.
poow como assimm agente ñ pode navegar som segurança agora tem que fazer cometátio é poow quero resposta porra
E por quê o site da campanha não adere a campanha? Estou acessando pelo IE6, pois estou testando um layout nesse browser ridículo e decidi visitar o site da campanha com ele. Para meu espanto, não me foi sugerido nenhuma atualização.
A Fator X - Produções esta entrando na campanha... e todos os nossos clientes estaram se unindo em breve... www.fatorxproducoes.com.br Shows 11 9596-2649
atualizar o meu navegado
Ótima iniciativa do imasters ja aderi e ja espalhei a novidade para todos os meus amigos desenvolvedores ^^ valeu gente
Já aderí a campanha também: http://ricardomartins.com.br
O blog segredodedavi.blogspot.com já está na campanha só não acredito que o proprio site da campanha do imasters não está com o código . Deve se revisto isso...
To dentro e ja coloquei no meu blog. http://www.3a3iinformatica.com.br
http://juizos.com.br Ótima campanha, já estou dentro, embora meu site funcione no IE6 eu sou totalmente contra a sua utilização hoje, concordo plenamente com a campanha, alguns já devem ter percebido que o próprio site beta do http://beta.w3.org/ já não é compatível, faltava algumas empresas grandes como a google entrar nessa jogada também. Curiosidade...... a maioria do mundo fala, que não devemos obrigar aos usuários a atualizar nada, agora o plugin do flash é mega obrigatório caso vc queira ver alguns vídeos no youtube e ninguém reclama, nem mesmo o usuário. Não vamos ficar de braços cruzados, vamos lutar pela causa.
Olá, incluí o código da campanha em meu SHOPPING, mas acho que essa campanha já está fazendo efeito porque não encontrei nenhum ninguém que tivesse o IE6. Se alguém tive ai o IE6, por favor, entre ai em www.cliqueinformatica.com.br e veja se vai abrir o texto da campanha, se tiver com tempo me avise:edilson@cliqueinformatica.com.br E viva o chromo...
pauli... IE 5.1 caracas velho... é muito velho mesmo... Existe tanta coisa (navegadores) mais atuais por ai, mas se você está feliz assim!? Tem muita gente por igual a você!..., Gosta de sofrer.
Infelizmente o pessoal se esquece que assim como no mundo offline, o usuário (diga-se consumidor) tem sempre a razão. Se ele usa um browser dito desatualizado, mas que funciona e o atende porque impor a ele essa mudança!? Segurança? Talvez ele tenha um bom antivirus e não se preocupe com o Browser. Vamos deixar de lado a mentalidade de programador e pensar em marketing, e não custa muito trabalhar uns minutos a mais e formatar a página para a leitura em outros browsers, inclusive para o IE 6 que está muito presente ainda. Sem ressentimentos!
que massa
Tem como bloquear as pessoas que utilizam o IE 6 ?? para não acessarem o site utilizando esse navegador ??? pois atualmente apenas é exibida a faixa
Realmente o browser é um ponto crucial para os desenvolvedores web. Já passou da hora de todos os browsers serem compatíves e a Microsoft precisa parar de desenvolver Browsers ignorando os padrões da W3C. Abraços e Boa Sorte a todos, www.inforce.com.br.
Estou dentro...começo hoje mesmo.
Hahahahaaa muito legal isso!!! a partir de agora todos meus trabalhos terão essa barra!!! vamos dar boas vindas a nova tecnologia!!! viva a evolução!!!
http://www.devone.com.br aderindo... Boa iniciativa. Melhor ainda seria eliminar o I.E. ;) Abraço a todos.
Já aderi e digo mais, deveriamos mudar para todos os IE\'s [ahuehaeuh zuação] quem quizer ver, ai vai o meu ultimo site que entrou: www.ipbbalsas.org.br
Lógico que eu aderi. IECA6 nunca mais... por favor!!!
www.rafaelvergani.com entrando na campanha.
E os pcs que não da pra atualizar o windows nem o navegador va i te que aturar o firefox???
http://papodebuteco.net/atualize-seu-navegador-morte-ao-ie6 ;D
Eu apóio essa campanha, porque de fato o IE6 é um problema para os Desenvolvedores, visando problemas com PNG Transparente e posicionamento de objetos. Em alguns trabalhos não compensa perder horas consertando, sim fazendo novamente, só para o IE6. -> Meu Blog - http://www.eduardobertolucci.com/blog
Jáfaço parte desta campanha e estou implantando o código em todos os nossos clientes, é realmente um grande atraso ter de ficar desenvolvendo pra um navegador em desuso só porque poucas pessoas nao atualizam seu pc. A Microsoft deveria ser mais dinamica nesse quesito e de alguma forma forçar a todas estas pessoas a se atualizarem.
é td de bom
Antes dessa campanha, pensem em desenvolver seus sites de acordo com padrões W3C, isso sim é importante e tem resultado. Por outro lado, esse tipo de campanha tem impacto de absolutamente 0 na socidedade em geral, e de qqer forma o IE6 só tem mercado pq é o padrão do XP, e só por isso mesmo (tanto é que o market share é extremamente similar). Com o 7 fazendo Sucesso, e por ser capaz de rodar bem nos PCs que usam XP hoje em dia, em breve o problema do IE6 seré resolvido. Ah! E atualizar o Flash não deixa ele mais pesado. Trocar pro Firefox pode aumentar muito o gasto de processamento e memória em PCs + velhos. Não ponho minha mão no fogo, mas acho que o IE6, em questão de leveza, só perde mesmo pro Chrome =P.
Show de Bola a Campanha, parabens a galera q bolou a idéia!!!
Bom, procuro desenvolver códigos compatíveis até com IE 5.5 por mais complicado que às vezes seja, mas com certeza esta campanha de incentivo a banir o uso do IE6.0 será bom para todos, especialmente para nós. E já que estamos falando em adequações, notei que a barra de sugestão não alinha todos os navegadores \"dentro\" dela. Talvez o pessoal tenha feito o teste só no IE8.0 mas o fato é que testei no Opera 9.6, no Firefox 3.0, no Seamonkey e em todos eles a barra aparece com Firefox e Chrome na barra e os outros quatro navegadores abaixo dela. Pra corrigir isto basta alterar a margem direita dentro do código javascript. Valeu.
Peço, encarecidamente, a mudança do URL que atualiza o Internet Explorer. O link está apontando para a versão 7 (sistema XP) e poderia ser dirigido para a versão 8 (versão essa que passa no teste Acid2). Bom, melhor seria, em vez de apontar para a página de downloads da Microsoft fosse direto para a própria página do Internet Explorer. Assim a recomendação seria sempre para a última versão. http://www.microsoft.com/brasil/windows/internet-explorer/default.aspx
Olá primeiro quero parabenizar pela iniciativa, estou deixando este recado para relatar um erro que tive em meu navegador apos colocar o script, quando fecho o navegador aparece esse erro: \"ie explorer.exe - erro de aplicativo\". Se alguem ja passou ou esta passando por este problema, favor relatar aqui para que junto podemos resolver este problema.
é mora
Quero mostra esse talento,que e meu filho de 6meses,de olhos azuis super sapeca.
Quero mostra esse talento,que e meu filho de 6meses,de olhos azuis super sapeca.
por favor alguem me fala como se instala firefox?
preciso falar com a UOL sobre fatura mas não consigo
vivo a vida em busca de loucuras
Nem o Youtube mais da suprote ao IE6! Com a google comprando a briga, quem sabe os usuarios finalmente se toquem e migrem para browsers decentes! ^^
Já tá lá!!! http://idemaxweb.blogspot.com/
IE6 nunca mais!!!
entrando na campanha e disponibilizando no twitter. www.twitter.com/eduardocostta
Merda Antispam (merda.minimos.info) apoia a campanha e sugere uma advertência adicional: \"Se você não trocar de navegador, será banido da internet, sua casa será incendiada, seu cachorro assassinado e seu carro será pintado com as cores do Corinthians\". Também apoiamos a campanha de mandar os desenvolvedores que não sabem escrever de volta para a escola. Paz.
http://makotowatanabe.com/ aderindo já a campanha!
Tamo participando tambem! http://symbiannanet.blogspot.com
Serviços do Google como YouTube e Orkut já aderiram a campanha... hahaha... By IEca 6!
Meu blog esta participando da campanha! http://andersonpanichi.blogspot.com
Show de bola essa iniciativa, além de muito inteligente. Parabéns a todos.
Ótima iniciativa. Fizemos pequenas modificações no script para inserirmos em nosso site pois nosso público perde-se muito fácil com links e informações. Colocamos o script hospedado em nosso próprio servidor, mas mantivemos a função para estatísitcas e colocamos um comentário no código fonte falando sobre a campanha e dando crédito ao imasters pela iniciativa da campanha. :) http://www.interativa.uniderp.br
vamos acbar cpom IE pra sempre uhuuuuuuuu
Com essa camapanha lançada não vou mais me preocupar com o IE6. Todo browser que se prese hoje em dia se atualiza constantemente, e evolui de acordo com a necessidade dos usuários. Se o próprio youtube e Orkut já estão entrando nessa onda, não vou mais exitar. Todos os meus sites de agora em diante, irão conter uma mensagem de atualização de browser. Em 2 anos no máximo esse IEca vai desaparecer de vez dos pcs da população mundial :P
prefiro o ie6 que o 7.
eu tmbm prefiro oie6 que o 7.
Ótima iniciativa. Porem tem algumas pessoas dizendo em \"eliminação do IE\". Eu não concordo, pois o IE é um bom navegador sim. O problema é o windows estar presente na maioria dos PCs do mundo, e o windows XP vir com ele por padrão. Devemos é atualizar o IE para a versão mais recente.
AE \\o/ Não suporto fazer sites r0x em css para qualquer navegador, e quando chega no IE ta tudo desmontado, destruído, transparencia não funcionando. Morte aos noobs que usam IE 6 ÒÒ
Isso é bom de mais, aliás os usuários deveriam parae de uasr não só o IE6, mas todos os IEs e mudar de vez para outros como firefox, opera ou chrome.
Esta campanha e bem vinda. O trabalho de montagem de sites e muitas vezes disvirtuado no que toca a renderizacao do conteudo pelo ie6 e abaixo. Se todos tomarem consiencia disso estaremos a ajudar a desenvolver e a dinamizar a web, que e sem duvida a porta de entrada para o mundo moderno. Site limpos, seguros e rapidos e o que queremos. DIVULGUEM A CAMPANHA...
É isso ai! Mais uma vez a equipde da iMasters, contribuindo para um internet melhor!
é uma iniciativa muito boa, mais acho assim, uso o explorer 6.0 e com o antivirus panda instalado e nunca tive problemas com worms, spywares, trojans e coisas e tal, vou instalar uma versão maior e com certeza já vai ficar lento por isso q nem tchum, outra coisa é que muitos falam ai pra cima, tirar o explorer e usar esses outros ai, firefox nem pensar, só pq é bonitinho afff para, é o pessoal gosta do mozila pq não usa a web como trabalho, eu uso fazendo sites e qdo vou fazer meus scripts java applet´s fica uma droga pra visualizar nesse firefox o explorer disparado é o melhor browser que tem, suporta tudo sem problema.
é uma iniciativa muito boa, mais acho assim, uso o explorer 6.0 e com o antivirus panda instalado e nunca tive problemas com worms, spywares, trojans e coisas e tal, vou instalar uma versão maior e com certeza já vai ficar lento por isso q nem tchum, outra coisa é que muitos falam ai pra cima, tirar o explorer e usar esses outros ai, firefox nem pensar, só pq é bonitinho afff para, é o pessoal gosta do mozila pq não usa a web como trabalho, eu uso fazendo sites e qdo vou fazer meus scripts java applet´s fica uma droga pra visualizar nesse firefox o explorer disparado é o melhor browser que tem, suporta tudo sem problema.
Não entendi esta euforia toda. Portanto me desculpem; usarei a contragosto o Inetrenet Explorer 8.0, mas não convencerei ninguém a querer usar. Infelizmente este dia chegará. Sim, não se iludam. Não acabarão apenas com a Internet Explorer 6.0 Se morresse apenas a versão da Internet, tudo bem... Ela morrendo, num futuro não muito distante a Internet Explorer 8.0 morrerá e os outros navegadores idem A Internet 8.0 é melhor que a anterior. Não digo o mesmo do Firefox que não abriu as páginas (no comando Control + N) Mas voltando... Futuramente a Internet Explorer 8.0 morrerá, e mais adiante, o Windwos XP também, não se iludam!!!! Viocês sempre terão de tempos em tempos de atualizar não só cada versão da Internet, mas principalmente sistema operacional como o Windows Vista que ainda não implacou. Mas com as versões anteriores morrendo, o Vista vai emplacar e mais adiante o que está ocorrendop hoje com a Internet Explorer 6.0 (e poir tabela com o Windows 98 SE), ocorrerá o mesmo com a Internet Explorer 8.0, e os outros navegadores, morrendo também o XP, e assim sucessivamente; esse será o preço a pagar... Qiem tem a ganhar ? Só empresas como a Microsoft que vai cada vez mais obrigar o usuário a atualizar seu sistema operacional como um todo e a gastar $$$. Se você faz parte de um grupo seleto de uma empresas dessas, meus parabéns, do contrário...
to nessa!
Ótima iniciativa, eu trabalho em uma empresa de que desenvolve paginas web e só quem trabalha com isso entende como essa atualização é necessária, pena que ainda existam pessoas que não tem o conhecimento ou nao procuram saber sobre as falhas de segurança que existem e falam coisas absurdas, mas vamos lá um dia isso vai mudar.
Concordo com a atualização e brechas de segurança; acho isto necessário sim, óbvio. Se mudasse apenas a versão do navegador, não teria motivos para ser contra. Aliás, vale dizer, sou a favor de todo avanço tecnológico (apesar de por exemplo preferir games 2d, mas não vem ao caso aqui), máquinas mais velozes, mais memória ram, mais hd de espaço físico para o CPU, melhores placas de som, de vídeo, etc, etc. Mas isto deveria ocorrer de modo a forçar o usuário escolher se precisa ou não de um pc mais moderno, etc, se quer games 3d, programs mais sofisticados, etc;mas não por causa da navegação em rede... Claro que ninguém (ou quase nignuém) quer usar um pentium antigo (exceto para outras finalidades), sempre vai querer atualizar sua máquina na medida do possível (condições financeiras incluídas aí; não esqueçamos que estamos no Brasil...). Agora, para quem quer só navegar mesmo, buscar notícias na rede, entrar em diversos fóruns, deveria sim poder escolher seu navegador, sem ter necessariamente de mudar seu sistema operacional. Agora, a pessoa ser obrigado a mudar seu sistema operacional se quiser navegar na rede, acho um tremendo absurdo sim. Respeito sua posição, deve entender bem da área; meus parabéns, sucesso na profissão. Mas, mesmo quem entenda bem outrbalhe no ramo da infomática em construção de blogs, etc, não precisa entender muito do assunto, não precisa de sacar muito do assunto para saber que o Windows XP também estará com seus dias contados, e assim por diante. Por isto não entrei nesta onda, se é que me entende. O Windows XP não vai acabar do dia pra noite, mas na velocidade que está também nãio durará muito tempo, pois a Microsft inclusive já está abandonando (se já não abandonou) o suporte ao Windows XP. Hoje, já temos Linux, Windows Vista, Windows 7... Mas é questão de tempo até para a morte destes sistemas operacionais também, caso você queira tê-las e usá-las não só para o Windows, mas para acessar a Rede - que é o que está em questão aqui. Repito o que disse: se a pessoa é um empresário que viva disto, ou está com $$$ sobrando, ótimo, pois poderá estar sempre atulizando seu sistema operacional como um todo, o que é muito bom: CPU, sistema operacional escolhido,memória ram, etc. Só lamento que isto afete apenas quem quer tão somente navegar em rede; apenas isto. Aperfeiçoem os browsers de navegação, mas não destruam junto os sistemas operacionais; que esta escolha caiba ao usuário que na teoria deveria saber o que precisa ou não para seu pc - isto para navegar em rede. Se não acredita em nada do que disse, basta olhar os requerimentos mínimos de cada versão destes navegadores atuais; confira aí vendo os requerimentos da Internet Explorer 8.0, Mozila Firefox,... Pode procurar na Net, pélo Google ou Yahoo - que diz os requerimentos mínimos: nestes, a pessoa no mínimo deverá ter o Windows XP (que será substituída tão logo morra esta e outras versões de navegadores atuais) pra cima. É isso: que substituamos os navegadores, mas não necessariamente cada sistema operacional. Como sei que isto não acontecerá, sou contra sim. Bom, não espero entrar em choque com ninguém aqui, mas é meu ponto de vista; cada qual que tenha o seu.
É concordo com o parcerinho Marcelo logo acima, pra vcs verem querem tirar o explorer de qualquer jeito do mercado, mais não sei porque muitas empresas que criam sites como essa que vou postar o link abaixo o site deles nem abre no firefox só no explorer, será que eles tem alguma coisa contra a raposa? kkk, e olha que são fenomenais no que produzem em questão de web. obs : para abrir o site clique no boneco fazendo sinal de negativo. Abraço a todos
Opa desculpa pessoal, esqueci de colocar o link : http://www.neostream.com
To nessa
adorei
Cara d+
Gloria Deus! Nem o Google da mais suporte pro lixo do IE6
ORRAAA...Deus é pai,vamo q vamo acaba com a raça de IE6
E pensar que aqui onde eu trabalho só usamos o Netscape. Isso porque aqui não é empresa pequena não... Vou enviar o link pro chefe!
O Bill Gates deve estar rindo de vocês até não poder mais, né! \"Veja só a confusão que causamos! E eles nem sabem que é lógico que isso não tem fim. Um dia vai sair um novo padrão e eles terão fazer outras campanhas que não atingem nem 20% dos usuários só para que os usuários se sintam melhores... Vou voltar para o meu chá que está mais interessante\"
Ah sim, esqueci de falar... Quem chama usuário de burro, preguiçoso ou mentiroso só pode ser pior do que estas três coisas. Se um médico de 70 anos não sabe atualizar o IE6 para o IE8, não quer dizer que ele é preguiçoso, burro, tapado, mentiroso, etc etc... Vocês é que não sabem mais como lidar com pessoas (que pagam seus míseros salários)... Desenvolvedores, aprendam a tratar bem os usuários, ou nenhuma troca de browser vai diminuir suas cargas de trabalho. Pensem nisso.
Eu já coloquei na minha página! :D
No final, os desenvolvedores são os autores do conteúdo dos sites. Aos Billettes, que se danem. Tô nessa.
Eu também coloquei na página inicial e já faz 1 mês. Reparei na estatísticas de acesso ao site que, pela primeira vez, o IE perdeu (54% com firefox e 40% IE), ou seja, a campanha surtiu efeito. Parabéns pela iniciativa!
Parabens pela iniciativa, já colouquei em nos sites que tenho e pode ter certeza que vou espalhar! Abraços
Simplesmente Perfeito.
a partir de quando eu devo atualizar meu navegador?, pois já tenho o mozila no pen drive.
Tem gente dizendo que uma campanha pro FF. e se fosse? o IE é uma coisa tao ruim que deveria se chamar DEVIL IE. Apoio totalmente a campanha, alias eu nao aconselho ninguem a usar o IE. Se não quizerem o FF usem o Chorme que é muito bom tb. Resumindo MORTE AO DEVIL IE
Muito bom.... Ufa!!! pelo menos um aviso.... Navegadores antigos como o IE6 dão dor de cabeça demais. O navegador burro!!!
Pow tava mais qe na hora nèh...rs
Parabéns! Ótimo!
gostaria de ter um navegador ativado para resolver os contatos
Quero atualizar o meu navegador, e certamente resolverei meu problema com as mensagens. Obrigado
Apoiado! a JM adota tmb essa campanha, xega de ie6!
Estas atualizações não passam de obsolescência planejadas. É que as pessoas desaprenderam a ser simples a a fazer sites simples.
Opa, já estou usando em mais um projeto meu. http://www.fuijogar.com.br
Obrigada pela orientação. Catarina.
Desenvolvedores e designer .. começem a usar esta ferramente em seus aplicativos de web... ajudando as pessoas se atualizarem tambem vendo seu próprio material....
Gostaria de saber se tem uma barra para colocar em sites https:// pois colocando essa http:// no site, quebra a segurança do site obrigado Muito boa a iniciativa.
muito boa iniciativa! vai ajudar tanto. kk
Não gostei, está tudo errado, eu uso o que eu quero e não os que os outros usam. O profissional que não tem competencia entra nesta campanha absurda. Profissional competente é aquele que vai saber resolver isso seja com *.png 32 ou gif transparente, mas resolva isso. Aquele que se deixa levar pela facilidade é uma mala sem alça. Sou profissional na área de design e não tenho nada contra o ie6.0 quando está com suas atualizações em dia. Já não bastou a vergonha do tão falado firefox tranqueira que perdeu feio para o internet explorer sobre falhas de segurança. Se me lembro foi feito este mês o teste: Os resultados foram: firefox 45% de falhas safari 35% de falhas ie 15% de falhas opera 5% de falhas Até mais para os bons
Site com bug no script
Parabéns pela campanha. Realmente algo muito, muito útil
Excelente iniciativa! Discordo com o comentario de alguns sobre a eliminação de IE de vez, nada pessoal, e convenhamos que o IE 8 esta bacana. Espero que nao me levem a mal hehe!
Já tenho em meu site, apoiado 100%!
o mais rapido possivel a jato em tudo mesmo estou precisando que isto seja resolvido mesmo gente o navegador para minha vida hoje e minha salvaçao e de todos
Todo navegador tem suas vantagens e desvantages. A milhares de teste que provam isto e o mais importante, os testes também comprovam que todos os navegadores tem de ser atualizados. Mas vamos lá pessoa aderem esta campanha pois ter gente ainda usando o IE6 é demais.
podia ser TODAS AS VERSOES do IE. O Internet Explorer 7 por exemplo continua horrivel e nao suporta nada :D
O Brasil não é um país democrático? Então, por que diabos não posso seguir com meu velho IE6? Outro brouser mais atualizado é mais pesado! Não estou interessado! Por favor, parem de pressionar!
Um amigo lá encima falou sobre o simbolo do firefox ser maior, e porque sem sombra de duvidas o melhor amigo dos desenvolvedores e o firefox. por isso a campanha friza o mozilla. muito boa a ideia da campanha já fasso parte!!!
Valeu pela iniciativa. Podem contar comigo!
Na minha empresa estamos utilizando em todos os sites desenvolvidos. Apresentamos o script para a direção e adoraram. Muito útil! Valeu I-masters. Parabéns!!!
To dentro adoreeiii .... Parabéns...
EUU AMEII TD ISSO!!!!TO DENTRO TAMBÉM....PARABÉNS²
Eu ameii isso!!! To dentroo também.P.A.R.A.B.E.N.S
Se extinguissem o IE6 seria uma maravilha para nos webdesigners. Eu apoio!!!
Otima iniciativa...mas na resolução de tela em 1336x768 (notebook) o Ie na barra de atualização DESAPARECE por favor corrijam. Muito obrigado em advanced!!! kkk
Ja coloquei no meu site de ponta a ponta!! muito boa iniciativa! Abraços
Na minha empresa Lordpixel estamos utilizando em todos os sites desenvolvidos. Vamos Apresentar o script para a direção de cada projeto para ser aprovado =) Muito útil! Valeu I-masters. Parabéns!!\"¹²³
olha ja tentei baixar outro navegador mas, a IE nao deixa ela traxa.Por favor se poderem me ajudar eu agradeço!!!
Amem alguém teve a iniciativa de fazer um bem pra umanidade.. xD
Ja participo da campanha e indico a meus clientes participação. O IE6 é um problema do ponto de vista da segurança e do design, é complexo compreender quantas exigências e métricas para os programadores e designers, em relação ao desenquilíbrio dos navegadores. Nos programadores e gestores de sistemas que deveriamos criar as métricas para estes sistemas falhos de navegação na internet e exigir um padrão de mercado. Excelente iniciativa da IMasters, parabéns.
sera q dava para por outro char
sera q dava para por outro char
sera q dava para por outro char
Que tal botar o Maxthon nessa camapnha? www.maxthon.com
Bom dia, gostaria de saber o e-mail do RH da empresa para poder enviar meu currículo, trabalhei em obras na Espanha. Atentamente Reginaldo
ta atualizado legalllll
Rapidez, e atualização é o que preciso.
Vamos juntos derrotar a força negra deste planeta.
isso resolve!! ;D var browserName=navigator.appName; if (browserName==\"Mozilla Firefox\") { //nao faça nada!! } else { if (browserVer >= 6); if ((browserName==\"Microsoft Internet Explorer\")&&(Version>=6) var Version=navigator.appVersion;) { alert(\"TA NA HORA DE ATUALIZAR SEU NAVEGADOR - instale Mozilla Firefox!\"); location.href=\"http://www.mozilla.com.br\"; } } aew galera.
IE6 = POG
Eu amava!! Colocava em todos os meus sites, mas achava melhor quando ele só aparecia para quem estava usando o IE6. Não vejo nenhum problema do ponto de vista do programador, em usar as versões posteriores como o IE7, mas agora a barrinha começou a aparecer em qualquer versão do navegador, que não seja a última. Para quem tem o código em todas as páginas do site, fica muito chato! Se houver algum outro código que só apareça para o IE6, eu gostaria de ser informada! Obrigada!
Isto é coisa de programador preguiçoso, que não tem paciência para depurar seus programas, que pega tudo pronto da Internet, copia e cola código de fórums ou exemplos, pois mal sabe ler e escrever, quanto mais digitar. Limitar tipos diferentes de tecnologia é assinar a sentença de morte! A Internet é livre e deve continuar livre!! Quem não souber programar, que aprenda ou pague para alguém que saiba.
É pra vcs verem querem tirar o explorer de qualquer jeito do mercado, mais não sei porque muitas empresas que criam sites como essa que vou postar o link abaixo o site deles nem abre no firefox só no explorer, será que eles tem alguma coisa contra a raposa? kkk, e olha que são fenomenais no que produzem em questão de web. obs : para abrir o site clique no boneco fazendo sinal de negativo. Abraço a todos Opa desculpa pessoal, esqueci de colocar o link : http://www.neostream.com
Tenho certeza que boa parte desses \"defensores\" são os mesmos que há pouco tempo defendiam avidamente \"seu\" Internet Explorer e torcia o nariz pro Firefox. São pessoas que se acham que a monopolização da tecnologia e dos meios de comunicação é uma vantagem. Muito pelo contrário. A tecnologia só é vantagem se for baseada em padrões abertos e bem definidos e, principalmente, que os fabricantes, sejam grandes ou pequenos, os sigam!! É coisa de preguiçoso, que quer fazer seu código e nunca mais mexer!
Isto é coisa de programador preguiçoso, que não tem paciência para depurar seus programas, que pega tudo pronto da Internet, copia e cola código de fórums ou exemplos, pois mal sabe ler e escrever, quanto mais digitar. Limitar tipos diferentes de tecnologia é assinar a sentença de morte! A Internet é livre e deve continuar livre!! Quem não souber programar, que aprenda ou pague para alguém que saiba.
Olha, na verdade eu acho o IE 6, o IE 7 e o IE 8 um lixo. E como eu uso o Opera há anos, não me importo com qual a versão do IE que está lá instalado no meu PC. Eu só tenho usado o IE em dois casos: para usar o Windows Update e para abrir algum link que não consegui abrir no Opera. Logo, as falhas de segurança do IE6 me foram irrelevantes, pois o que me importava é somente naqueles dois minutos que eu precisava abrir um link no IE 6, queria que ele funcionasse. Como o meu navegador principal era o Opera, para que eu instalaria uma versão mais nova e pesada (apesar de mais segura) do IE, se eu praticamente não o usava? Infelizmente, apesar de muito tempo seguindo esse pensamento, hoje estou instalando o IE 8. A única utilidade que o IE 6 possuía, que era abrir alguns links para mim, se acabou, pois agora o IE 6 nem pra isso serve, está incompatível com vários sites. Portanto, dou o meu braço a torcer e dou adeus ao IE 6. Só cheguei até aqui com ele porque ele nunca foi o meu navegador principal.
Boaaaaa
Timão está em todos os coraçoes,Voando alto como os gaviões.
Porra de timão o assunto aqui é ie ou raposa, gavião tá fora do assunto... seu zé ruela.
Apesar de meu site estar corrigido para todos os navegadores, também aderi ao movimento \"Abaixo o IE6\" rsrsrs. Valeu e colocarei em meus próximos sites. Abraço e acessem, www.eupagoseulance.com.br
Sou contra. Não atualize seu navegador se não quiser http://doceangel.wordpress.com/2010/03/01/nao-atualize-seu-navegador-se-nao-quiser/
IE6Funeral.com
quero atualiza o navegado por favor.
nao costei do saite
O nazismo começou assim... Liberdade para usar o navegador que queremos!
é uma otima iniciativa, com as melhorias e o avanço tecnologico temos sempre que nos atualizar.
NÃO TROCO MEU I.E. POR NENHUM OUTRO NAVEGADOR, NÃO VEJO MOTIVOS PARA ISSO, PORTANTO, SE QUEREM UM SISTEMA EFICAZ E COM SEGURANÇA USE SISTEMA OPERACIONAL ORIGINAL, TIVE FAZENDO UMA PESQUISA E 45% DAS PESSOAS QUE UTILIZAM BROWSER QUE NAO SEJA I.E., É WINDOWS PIRATA, PORTANTO ALEM DE USAR O WINDOWS PIRATA, AINDA SENTEM O DIREITO DE RECLAMAR DOS PRODUTOS. WELLINGTON MCP / MSDBA / MSCE
PREVISÃO DO PAGAMENTO.POIS A NOTA JÁ FOI ENVIADA A MAIS DE UM MÊS.
Quer dizer que vocês querem que eu não ande mais de Fusca por aí!?
Wellington Freitas, meu caro, não vou nem perguntar como você fez a sua \"pesquisa\", porque certamente ela não se enquadraria no que se entende por pesquisa a partir de metodologias científicas. Não há a menor relação entre falhas de segurança e sistemas operacionais pirateados, tanto que a provedora do Ruindows lança as infinitas correções das suas infinitas brechas é para os sistemas originalíssimos mesmo. O Ruindows XP tem 3 Service Packs editados e mais uma centena de correções individuais pós-SP3. Ruindows Vista idem: já tem 3 SPs, sendo que este lixo operacional tem apenas 3 anos de vida. O Ruindows 7 mal foi lançado e nas primeiras semanas já se descobriu falhas gravíssimas. O Internet Explorer, na esteira desses sistemas, é um queijo suiço de tantos buracos e de tanta inconformidade técnica com as normas e padrões atuais da web. Acho que você não entendeu direito o objetivo desta campanha... Talvez porque nunca tenha tentado desenvolver uma linha de programação voltada a multiusuários. Falando no IE, cabe dizer que ele já foi ultrapassado na Europa, onde evidentemente as pessoas têm uma maior percepção de funcionalidade e segurança. É possível que isso se deva em parte aos governos da França, Alemanha e Holanda - que foram os primeiros a incentivar os cidadãos destes países a migrarem para o Firefox, em função expressa da preocupação com segurança. Mas este movimento, diga-se, iniciou com usuários comuns e desenvolvedores. Depois ganhou impulso com os relatórios e artigos mais objetivos das empresas de segurança web. Agora é só uma questão de tempo para que o resto do mundo descubra porque é importante mudar de navegador. Fato: a web precisa avançar. E avançar com o IE é como carregar uma bola de ferro acorrentada a uma perna. Eu uso OPERA há 7 anos, mas sempre recomendo para usuários sem experiência (ou lobotomizados pelo Ruindows, o que dá quase no mesmo) a migração para o Firefox, devido ao menor \"impacto\" na transição. Devido a isso já perdi a conta de quantos Firefox eu já instalei por aí, de Porto Alegre a Natal, passando por Florianópolis, Curitiba, São Paulo... Se a pessoa tem cacife para lidar com especificidades eu instalo o Opera - que sempre foi o browser mais rápido, mais funcional e mais seguro da internet, caso contrário mostro porque usar o FF ou pelo menos o Google Chrome. Na verdade qualquer coisa é melhor do que o IE.
o zé(Wellington Freitas (17/03/2010 - 09:23))? como pode falar tanta shit...., gostar do IE é ridículo, mas é possível, se temos caras votam no lula, quem dirá qto a utilização do IE... AGORA, QQ TEM A VER SE O SO É PIRATA OU NAUM? ai uelitu, se liga: MCP = mané cabaço profissional MSDBA = mané só dando babacadas aqui MSCE = mané sem conhecimento egnorante
(Não atualize seu navegador se não quiser - 01/03/2010 - 11:00) Isto, não atualiza mesmo não, google, orkut, youtube, eu, o cara ali da esquina e muitos vão parar de fazer sites pro IE6 limitadão, ai você salva tudo num \"disquete\" pra continuar vendo depois. (Quer dizer que vocês querem que eu não ande mais de Fusca por aí!?) O fusca funciona desde que esteja reguladão, o IE já não tem mais graça para quem faz sites, nem para quem acessa. Programador (13/02/2010 - 22:57) Certo, já que você é mesmo bom, me faça uma imagem similar a um selo, que tenha detalhes bem pequenos, em várias cores, portanto com muita nitidez para não borrar, com cantos arredondados, com transparência nas laterais \"arredondados\" para se adaptar a vários fundos de cores diferentes, e que tenha um title para não ficar fora dos buscadores. Você deve ser um gambiarrador, ou mazoquista que não se importa com a segurança das coisas. Basta atualizar o navegador.
Genial!
Olá pessoal,quero diser a vocês que encontrei um site muito bom com programas e jogos gratis,é www.vanderdownloads.vai.la esse site aceita parcerias...
Como pode, alguem tentar atualizar um navegador durante + ou - 60 dias e não conseguir? é o cúmulo do absurdo? Me ajudem se possível!!!
meus parabéns pela iniciativa. Dessa forma os usuários já saberão que alguma falha de formatação poderá ser por causa do navegador desatualizado.
Então será colocada a marca da besta em todos nós.... que balela esta de estar sempre atualizado, isso é uma forma de controle imposta, se as ccs, e etc..., eu não entendo disso,não foram colocadas nas primeiras edições, que não fossem colocadas então!, agora dizer que isso atrapalha, é uma balelice toda. Se estas pessoas querem divulgar seus produtos que programem para o básico, porque nem toda a população tem a tecnologia de ponta que vcs querem, agora se seus sites não funcionam pra todo mundo, é pq vcs programam para uma elite, então que vendam para ela, que desenvolvam para ela, que façam coisas para ela. Exigir controle, é uma aberração. Nada justifica o controle destas empresas, qu a cada atualização te conhecem mais e mais, e fazem produtos para exercer fascinio, dos trouxas. E serás marcado nas mãos e com esta marca a besta se faz presente no juizo final.
Então será colocada a marca da besta em todos nós.... que balela esta de estar sempre atualizado, isso é uma forma de controle imposta, se as ccs, e etc..., eu não entendo disso,não foram colocadas nas primeiras edições, que não fossem colocadas então!, agora dizer que isso atrapalha, é uma balelice toda. Se estas pessoas querem divulgar seus produtos que programem para o básico, porque nem toda a população tem a tecnologia de ponta que vcs querem, agora se seus sites não funcionam pra todo mundo, é pq vcs programam para uma elite, então que vendam para ela, que desenvolvam para ela, que façam coisas para ela. Exigir controle, é uma aberração. Nada justifica o controle destas empresas, qu a cada atualização te conhecem mais e mais, e fazem produtos para exercer fascinio, dos trouxas. E serás marcado nas mãos e com esta marca a besta se faz presente no juizo final.
Então será colocada a marca da besta em todos nós.... que balela esta de estar sempre atualizado, isso é uma forma de controle imposta, se as ccs, e etc..., eu não entendo disso,não foram colocadas nas primeiras edições, que não fossem colocadas então!, agora dizer que isso atrapalha, é uma balelice toda. Se estas pessoas querem divulgar seus produtos que programem para o básico, porque nem toda a população tem a tecnologia de ponta que vcs querem, agora se seus sites não funcionam pra todo mundo, é pq vcs programam para uma elite, então que vendam para ela, que desenvolvam para ela, que façam coisas para ela. Exigir controle, é uma aberração. Nada justifica o controle destas empresas, qu a cada atualização te conhecem mais e mais, e fazem produtos para exercer fascinio, dos trouxas. E serás marcado nas mãos e com esta marca a besta se faz presente no juizo final.
Então será colocada a marca da besta em todos nós.... que balela esta de estar sempre atualizado, isso é uma forma de controle imposta, se as ccs, e etc..., eu não entendo disso,não foram colocadas nas primeiras edições, que não fossem colocadas então!, agora dizer que isso atrapalha, é uma balelice toda. Se estas pessoas querem divulgar seus produtos que programem para o básico, porque nem toda a população tem a tecnologia de ponta que vcs querem, agora se seus sites não funcionam pra todo mundo, é pq vcs programam para uma elite, então que vendam para ela, que desenvolvam para ela, que façam coisas para ela. Exigir controle, é uma aberração. Nada justifica o controle destas empresas, qu a cada atualização te conhecem mais e mais, e fazem produtos para exercer fascinio, dos trouxas. E serás marcado nas mãos e com esta marca a besta se faz presente no juizo final.
Carlos (30/03/2010 - 14:11) Cara, vc tem problemas no cérebro? Acho que no máximo não sabe que tem. GALERA, SE LIGUEM, NA PIOR DAS HIPÓTESES, É POR QUESTÃO DE SEGURANÇA. ACORDEM, O IE6 É UM LIXO PARA OS PROGRAMADORES, MAS VAI MUITO ALEM DISSO. A não ser que vcs tb não se importem com segurança...
eu nao achei nada avê!!! só sei que eu amo o joao victor!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Pessoal, vocês devem atualizar seus Navegadores! O IE 6 está com várias Falhas de Segurança. Nunca se sabe se um Vírus vai entrar no seu computador. Você pode culpar todos. O seu Pai, Sua Mãe, o dono do Bar da Esquina... mas não vai adiantar em nada. Se você quer continuar com o Dinosauro do IE 6, instale um bom Anti Virus. E se quiser acabar com os Pop-Ups... Uma Toolbar que Bloqueie Pop-Ups ou um Programa Específico para Bloqueá-los. E nem venha com desculpas que o OS (Operating System - Sistema Operacional) do seu Computador é antigo, ou ele não tem recursos Suficientes para um OS superior; pois tem vários Computadores Superiores ao seu a venda, e se você tem dinheiro, compre a Vista. Ou Compre Peças novas pro seu PC, se for DDR2 ou DDR3. Se for aquele PC que vinha com Disquete do Windows 95, compre um novo Urgentemente. Ahh... você comprou um novo, mas tem Linux? Formate o Computador numa Loja Especializada e Peça sempre OS _ORIGINAL_! E você, que achou o \"saite nada avê\" e BlaBlaBla ou mimimi, isso é para seu próprio Bem! Daqui pra frente vai ter Vários Sites no Estilo HTTP5 e CSS3. E o IE6 nunca irá ter Suporte a esses Estilos! Eu sou um Adolecente de 13 Anos, tenho meu Próprio PC. Tenho quase todos os Navegadores Populares (IE8, Firefox 3.6, Google Chrome e Opera 10.1; Exceto Safari), e nenhum dá problemas de qualquer Tipo, além de Rodar muito bem no meu Xp. Fiquem sabendo: IE6 = Segurança 0%! \"Jow\" Gabriel.
a rodrigo nogueira buono r maturino rodrigues do prado n70 bairro parque primavera cidade cachoeira paulista cep 12.630-000 sp tel 31012234ddd12 cel 12 91962352 rodrigobuono@bol.com.br rnbuono@ig.com.br aig id
quem quer o ie fora é que num tem a manha de fazer crossbrowser isso é opinião de usuario ou imposição da empresa que o usuário trabalha trancar a internet para quem não quer parar de usar ies em geral não é o certo existem scripts para fazer o ie6 renderizar png que pra mim era a única coisa que realmente atrapalhava no ie o resto é só fazer certo
Referente a : andre (06/04/2010 - 16:37) É impressionante a ignorância de alguns supostos desenvolvedores! Se liga amigo, ninguém está preocupado em ter que ficar fazendo sites rodarem para qq navegador, o lance é que o IE não permite navegação segura, entende? Sabe o significado de segurança? Nada né? Aposto que os seus sites devem ser um lixo no quesito segurança. Agora tem mais, no que se refere apenas a visualizar o site, logo mais estaremos programando em HTML5, ai definitivamente não vai dar mais para o IE6! Para vc o HTML5 tb é besteira? SEU IGNORANTE, para não chamar de burro.
hhhghdfbhagdhbahdfgh
minha internet esta muito lenta
Me falaram que o imasters tinha sido INVADIDO e o código de atualização dos browsers estava enviando código malicioso ao inves de enviar o que se propunha. PORRA IMASTERS. TO FORA.
Referente ao comentário \"Carlos (30/03/2010 - 14:11)\". Eu li e quase enfartei, programar para elite ?? A internet está ai pra facilitar a nossa vida, hoje em dia eu não conheço um adolescente que já tenha ouvido falar na BARSA, hoje existe o Google, cara sai da pré-história.
Estou aqui para avisar que o código do crossbrowser de vocês está tentando instalar programa malicioso no computador de quem acessa algum site que colocou a barra de vocês.
A barrinha tá querendo instalar o Java 6, não sei se é malicioso como tão dizendo, mas era bom vocês darem uma olhada nisso. E por favor, façam os comentários recentes aparecerem primeiro :)
só estou esperando o mar pegar fogo pra mim comer peixe frito
olá um cliente meu avisou que o antivírus dele acusou trojan por causa do código o Imasters, gostaria de saber o que está acontecendo, é vírus mesmo ou o que?
Quero atualizar meu orkut que foi desatualizado
Acho que o site de vcs foi invadido, verifiquem isso.
http://www.neostream.com
cara dar para ver porno muito melhor
o seu felipe galvao fika quieto seu trouxa olha aki se vcs sao contra o ie6 entao vcs sao uns trouxa ele quando foi lançado todo mundo adorou e agora vcs vao abandonar ele? eu pelo menos nao vou abandonar o ie 6 a mozilla firefox ajuda ,mas eclaro com a saida do ie6 a firefox ganharia popularidade. vcs sao ums bestas.Essa e minha opiniao
posso entra na loja ja me cadastrei.
FORA IE!
sxsxsx
oi
ate q em fim gostei da ideia
eu gostei é quero pra mim todas as letras que eu puder ter no meu orkut ok eu só quero curti o que eu ñ tenho mais vou ter
eu quero participar dessa coisa muito legal que esta na minha tela ,é muito legal por isso eu quero ser dessa ok !!
gostei da ideia,quero participar
oi tudo bem
Atualizar sempre.Tudo se transforma,recicle!
Parem com o IE ! Ou pelo menos instalem o Google Chrome Frame
Valeu pessoal da Imasters! Já inclui no meu blog essa campanha super bem pensada. :)
Parem com o IE ! Ou pelo menos instalem o Google Chrome Frame
Excelente !!! mas deveria abranger a eliminação do IE como um todo. hahahaha
legal saber que podemos mudar o nosso navegador
Fernando&Sorocaba eu curto muito vcs os dois e d+ eu quase morro amo muito as musicas principalmente sua casa caiu vcs sao muito lindos aposto que quando vcs chega perto das fã vcs quase morre rsrsrsrs desejo muitas felicidades amo vcss d+♥♥♥♥ me liga:36697069
Fernando&Sorocaba eu curto muito vcs os dois e d+ eu quase morro amo muito as musicas principalmente sua casa caiu vcs sao muito lindos aposto que quando vcs chega perto das fã vcs quase morre rsrsrsrs desejo muitas felicidades amo vcss d+♥♥♥♥ me liga:36697069
ALELUIA!!! Até que enfim alguem iniciou alguma coisa contra essa porcaria de navegador... aFF Espero somente que os resultados apareçam rapido. Flow Galera
brasil éxsa campeão
epá!! estou nessa
epá!! estou nessa
eu quero moedas verdes .se consiguivou ficar muito feliz .e esse progra vai ser maravilhoso.
ta atualisado legal..
trabalho pronto para rodrigo nogueira buono r maturino rodrigues do prado n70 bairro parque primavera cidade cachoeira paulista cep 12.630-000 sp tel 31012234ddd12 cel 12 91962352 rodrigobuono@bol.com.br
windows --> MS office --> asp --> ie. Não é tão fácil assim se livrar do império MS. A maioria das pessoas não trocariam windows por linux, MS office por br Office... desenvolvedores preferem asp a php, por rodar melhor na plataforma ms. E os usuários não vão pensar muito antes de clicar no ícone do ie.
olá
Brasília / DF, 14 de junho de 2005 Prezado Senhor Antônio Gilson de Oliveira, Comunicamos o recebimento de sua mensagem, aqui na Ouvidoria Parlamentar. Ela traz um desabafo sobre acontecimentos recentes de suposta corrupção envolvendo membros da Câmara dos Deputados. Em atenção à sua preocupação, fazemos alguns esclarecimentos. A Câmara dos Deputados é composta pelos 513 parlamentares de todo o Brasil, eleitos por milhões de brasileiros que garantiram, na expressão do voto, a ascensão dos seus representantes ao mandato parlamentar. Temos consciência de que alguns deputados podem estar comprometidos, apesar da boa-fé de quem os elegeu, com processos ilícitos que firam o decoro parlamentar e que, portanto, os sujeitam à perda do mandato. Esse conhecimento é decorrente das denúncias recentes, de amplo conhecimento da sociedade. Em função disso, e assim como já ocorreu no passado, a Câmara dos Deputados tudo fará para que os fatos sejam apurados e para que os envolvidos sejam punidos. Não compactuamos com a impunidade. Como exemplo do esforço desta Casa de Leis, estamos apoiando, sem restrições, a criação, a instalação e o bom funcionamento de todas as comissões parlamentares de inquérito que se devotem a esclarecer os acontecimentos recentes e punir os culpados que sejam identificados nas investigações. Isso é válido para a CPMI dos Correios – que hoje escolhe seu presidente e relator –, para as ações que venham a apurar os fatos relacionados ao chamado \"Mensalão\" e para qualquer outra necessidade que surgir. Diligências neste sentido terão início hoje com a reunião do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, que ouvirá o Deputado Roberto Jefferson, protagonista em vários dos episódios que deflagaram a crise atual. Terá papel relevante, também, a Corregedoria Parlamentar, órgão importante nos processos que fatalmente advirão em face das denúncias. Embora lamentemos a crise política, lembramos que ela é decorrente de um processo iniciado nas urnas. Sugerimos enfaticamente aos cidadãos que nos procuram que sejam os portadores dessa mensagem da Casa do Povo: cuidem para que suas preferências recaiam sobre pessoas de comportamento ilibado, cujas ações não levem a dúvidas sobre a honestidade das suas determinações. Da mesma forma que o \"caráter coletivo\" da Câmara dos Deputados é determinado pelo conjunto das decisões individuais de cada eleitor, uma só escolha equivocada pode estabelecer a impressão de que todo o Poder Legislativo compactua com a corrupção. Isto, definitivamente, não é a verdade. Não é, absolutamente, como pensa a grande maioria dos 513 deputados eleitos pelo povo. Agradecemos a mensagem e contamos com sua ajuda para divulgar este apelo cívico. Atenciosamente, Assessoria da Ouvidoria Parlamentar da Câmara dos Deputados Ouvidor-Geral Deputado Custódio Mattos
o ie6 não é um navagador ruim...ele só ta velhinhu...e não se adapta a evolução!
Ola, para saber a versao do browser existe um site que mostra http://seubrowserinfo.blogspot.com/ se vc ver alguem com ie6 interne
Mudem o link do IE8 para o site em português da micro$oft, usuários muito leigos podem se perder com a página em inglês
@Robson ele é muito ruim sim e já ta pre-histórico
Por favor atualizem o ie6 so tem 4,3% de usuarios agora, e vamos Site em Ingles para brasileiros que mal sabem usar o windows!!!!!
Ufa, até que fim. Já era hora einh!? Estão de parabéns. Atualizem-se. Vivam e não vegetem. kkk Abraço.
IE6 realmente dificulta e limita muito a vida dos Webdesign eu bani ele definitivamente da minha vida e do meu site xP Bloqueio mesmo! http://css-tricks.com/ie-6-blocker-script/ Não me arrependo e nem ligo para os 17% que ainda usam... pra min não faz diferença quando os Webdesign deixar de se matar pra deixa tudo bonitinho para o horrivel IE6 esse numero vai cai mais ainda!
Teste
....
o meu navercado e o pio do mundo
Fail ?
Sieg Heil. >>> Heil Hitler.
Cara vamos acabar com IE. não aguento mais essa dor de cabeça. Todo dia parece que e lançado um novo erro para ele, e vem por 0800 para nos e nem avisa quando ganhamos. kkkk. Vamos tirar ele do ar galera. Abraços.
Muito boa essa campanha, nós nao perdemos tempo, o código ja ta ai, so colocar na pagina e pronto. Parabéns!
ola ? preciso de sua ajuda . a internet explore do sistema windows xp ano 1985 2001. NAO ESTOU CONSEGUINDO ENTRAR NA INTERNET EXPLORE , VC PODERIA CORRIGIR PARA MIM ESTE ERRO . POIS NEM A COLHEITA FELIZ A DO ORKUT VELHO E A DO ORKUT NOVO TMBM ESTA DANDO ERRO . QUANDO EU ABRO A INTERNET ÉXPLORE APARECE UMA MSG FALANDO QUE A INTERNET EXPLORE ESTA COM ERRO QUANDO EU CLICO PARA CORRIGIR O ERRO POIS A INTERNET EXPLORE CAI . VERIFIQUE ESTE ERRO PARA MIM .ATENCIOSAMENTE DENISE DOURADO
eu achei esse jogo otimo muito divertido e quero participar
Por favor usuário, atualize seu navegador e elimine nossa dor de cabeça......kkkk
Boaaaaa \\o/ Sem IEca, sem dor de cabeça :D
to nessa campanha!!
É isso aí. Todos pelo mesmo ideal. =D
não consigo entrar no meu orkut e nem no meu emeil
quee Booosta de Orkut e msn que nao entraa ! arruma esse trem ai moçoo
nao gostei do orkut novo,pois todos os dias fala que foi enviada a mensagem minutos atras e todos veem as mensagens de todo mundo.isso virou uma merda!!!!!!!!!!!!!!!gostaria de ter e usar o orkut antigo..........
nao gostei do orkut novo,pois todos os dias fala que foi enviada a mensagem minutos atras e todos veem as mensagens de todo mundo.isso virou uma merda!!!!!!!!!!!!!!!gostaria de ter e usar o orkut antigo..........
nao gostei do orkut novo,pois todos os dias fala que foi enviada a mensagem minutos atras e todos veem as mensagens de todo mundo.isso virou uma merda!!!!!!!!!!!!!!!gostaria de ter e usar o orkut antigo..........
espero que funcione mais rapido
Essa campanha é bem bacana, mas o texto da barra parece que foi feito para o desenvolvedor, e não para o usuário! O link abaixo é muito mais interessante!!! http://www.updateyourbrowser.net/pt/
ola .... me ajuda a voltar meu google . nao estou conseguindo entrar no google . eu pedi a internet explore para limpar meu windows xp 1985 a 2001 , so que excluiu o google . mas entrou solfting . mas esta dando erro na internet explore esta pedindo para fechar a internet . me ajuda por favor ....... atenciosamente denise dourado . meu email do orkut velho e dcdourado@hotmail.com . verifique este erro urgente , pois adoro o google
Se não fosse o IE eu trabalhava no Google! :)
Mutuário Querida, Conseguir um empréstimo legítimos têm sido sempre um grande problema para o cliente as necessidades financeiras. A questão do crédito e da segurança é algo que os clientes estão cada vez mais preocupados com a procura de um empréstimo de um credor legítimo. A taxa de juro para o meu empréstimo é de 3% Se estiver interessado em obter apoio financeiro, entre em contato conosco hoje em dia: wellmarkloancompany@gmail.com Nome do beneficiário: ... ... ... Endereço do beneficiário: ... ... .... País: ... ... ... Estado: ... .... .. Cidade: ... ... ... CEP / Código: ... ... ... Número de telemóvel: ... ... ... Fax: ... ... ... Data de Nascimento: ... ... ... Sexo: ... ... .. . Estado Civil: ... ... ... Profissão: ... ... ... Montante necessário: ... ... Objectivo para empréstimo: ... ... ... Termo de Empréstimo / Duração: ... ... ... Nome de usuário: ... ... ... ... ... ... ... .... Senha: ... ... ... ... ... ... ... ... ... Assim que você preencher os dados acima, deve ser enviada para a nossa Protocol / Departamento de Verificação para a revisão imediata e subsequente processamento e de sua aplicação. Atenciosamente, marca Mrs.well C.O.E
nda aer
quero atualizar meu navegador para mim ver videos no you tube e tambem entrar no orkut
eu quero atualizar meu navegador para o meu perfil ficar bacana.
ahahahahahah me acabando de rir de gente que não tá conseguindo entrar no orkut/google e pedindo ajuda por aqui?! Alguém ajude essa alma, pelamordeDeus! :-D
muito bom
OI
Preciso de trocar windows 98 e explorer 6 por um windows xp e explorer 8
jtfjkhgvkuyoli
aplicado no www.twitorcida.com - Qual a Maior Torcida do Twitter? :)
Pela mor di deus, querem organizar a web mais ó forunzinho mais desorganizado esse, kkkkkkkkkkkkkkkkkkk só rindo mesmo kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Olha sou um pouco exigente quando mandam fazer doloar. Muitas as vezes fico sismado porque no mundo atual não se pode confiar nem na sonbra porque ela rasga a sua roupa. pORÉM JÁ QUE A cTBC ESTÁ EM ENCARGO quero ver e hovir o trabalho para medir desenpenho e qualidade, porque tem de vir aconpanhado com izis 9000. Obrigado Darcy
Tem muita coisa acontecendo, ah! já vi muita informação sobre o google e a agencia de segurança a CIA dos EUA, não é nada bom, por que eles querem tanto mudar o navegador? O que pode estar por detrás disso tudo?? Controle, investigação, espionagem ou algo para voltar-se para nós mesmo. Abram os olhos e não se iludão, prefiro o meu pc devagar quase parando, e procurem lerem mais sites e blogs pela rede, principalmente sobre um em especial que fala sobre uma conspiração mundial. Boa sorte a todos nós.
éh nóix.. estamos juntos para eliminar essa carroça do IE.. \"pesadelo dos web design\" então xa comigo divulgando o link^^
Quero atualisar para criar orkut
Showww!!! apoiado 100%!!!!!
18-08-2010
muito bom
Gostei disso!!!
muito bom legau
Nossa, estava essa semana pensando em colocar algo no meu site, já que uso alguns pngs e não aparece muito legal no IE6. Essa barra caiu como uma luva *-*
Eu Apóio todos os Sites feitos com a Agência G3w tem a Barrinha da campanha
Muito importante esta iniciativa. Nos ajudará a desenvolver produtos melhores e a eliminar de uma vez por todas o IE6. Todos os sites criados por nós estão com o código instalado.
Realmente, faz dias que estou dando um trabalho pra turma do MxMasters para me auxiliar no desenvolvimento de CSS, nada fica correto no IE Parabéns pela iniciativa! Só não coloco o script em meu site agora porque estou em uma rede travada, mas depois vou por!
Ó na minha opinião, para os desenvolvedores o cara que é bão faz um site para rodar até no explorer 5 ainda, agora sobre atualização do browser para uma versão mais nova e mais protegida para seu equipamento sem dúvida nenhuma eu apoio, agora para sanar os problemas dos webdesign não apoio não, se vira malacabados.
Salve Malacabados e Malacabadas Programadores(as) \\o/ rsrsrsr, após inúmeras pesquisas em querer encontrar uma rotina que me retorna-se todos os paises, estados e cidades mundiais não obtive sucesso, e vejo que muitos estão atrás disso também, por isso que arregacei as mangas e fiz esse combo-box abaixo usando a API do site ... http://ws.geonames.org, Obs : ainda estou testando, mais a base de dados acredito que não esteja 100 % mais dá pra tirar uma onda !!!! acesse ai : http://du.somee.com/comboo.asp
quero atualizar a favor do orkut
eu quero entrar em meu twitter as não consigo como fasso pra entar pela primeira vez
eu quero entrar em meu twitter as não consigo como fasso pra entar pela primeira vez
eu quero entar em meu twitter mas não consigo como fasso pra mim entar?
eu quero entar em meu twitter mas não consigo como fasso pra mim entar?
Ótima campanha, estou dentro!
eu quero um navegador pra mim flutua nas nuves
oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii gente quem me adiciona é legal mas eu sou muinto mas eu do que voce.
onLoad=alert(\'hehehehehe\');
onLoad=window.alert(hehehehehehehe); >
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Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
Os Lusíadas - Canto I 1 As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. 4 E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipoerene. 5 Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antígua liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança, Maravilha fatal da nossa idade, Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Para do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro e novo ramo florescente De uma árvore de Cristo mais amada Que nenhuma nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada; (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada, Na qual vos deu por armas, e deixou As que Ele para si na Cruz tomou) 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro; Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando desce o deixa derradeiro; Vós, que esperamos jugo e vitupério Do torpe Ismaelita cavaleiro, Do Turco oriental, e do Gentio, Que inda bebe o licor do santo rio; 9 Inclinai por um pouco a majestade, Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade, Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos. 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quase eterno: Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno, E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de til gente. 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas, Que excedem as sonhadas, fabulosas; Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro, E Orlando, inda que fora verdadeiro, 12 Por estes vos darei um Nuno fero, Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço, Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero A cítara para eles só cobiço. Pois pelos doze Pares dar-vos quero Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos, Rei de França, Ou de César, quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele que a seu Reino a segurança Deixou com a grande e próspera vitória; Outro Joane, invicto cavaleiro, O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Fizeram, só por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo, e os temidos Almeidas, por quem sempre o Tejo chora; Albuquerque terríbil, Castro forte, E outros em quem poder não teve a morte. 15 E enquanto eu estes canto, e a vós não posso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que pelo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras, e do Oriente os marços, 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio, Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tethys todo o cerúleo senhorio Tem para vós por dote aparelhado; Que afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos para genro. 17 Em vós se vêm da olímpica morada Dos dois avós as almas cá famosas, Uma na paz angélica dourada, Outra pelas batalhas sanguinosas; Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos tem lugar, no fim da idade, No templo da suprema Eternidade. 18 Mas enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos vossos sejam; E vereis ir cortando o salso argento Os vossos Argonautas, por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. 19 Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas 20 Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante. 21 Deixam dos sete Céus o regimento, Que do poder mais alto lhe foi dado, Alto poder, que só co\'o pensamento Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado. Ali se acharam juntos num momento Os que habitam o Arcturo congelado, E os que o Austro tem, e as partes onde A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde. 22 Estava o Padre ali sublime e dino, Que vibra os feros raios de Vulcano, Num assento de estrelas cristalino, Com gesto alto, severo e soberano. Do rosto respirava um ar divino, Que divino tornara um corpo humano; Com uma coroa e ceptro rutilante, 23 Em luzentes assentos, marchetados De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Os outros Deuses todos assentados, Como a razão e a ordem concertavam: Precedem os antíguos mais honrados; Mais abaixo os menores se assentavam; Quando Júpiter alto, assim dizendo, C\'um tom de voz começa, grave e horrendo: 24 \"Eternos moradores do luzente Estelífero pólo, e claro assento, Se do grande valor da forte gente De Luso não perdeis o pensamento, Deveis de ter sabido claramente, Como é dos fados grandes certo intento, Que por ela se esqueçam os humanos De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. 25 \"Já lhe foi (bem o vistes) concedido C\'um poder tão singelo e tão pequeno, Tomar ao Mouro forte e guarnecido Toda a terra, que rega o Tejo ameno: Pois contra o Castelhano tão temido, Sempre alcançou favor do Céu sereno. Assim que sempre, enfim, com fama e glória, Teve os troféus pendentes da vitória. 26 \"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, Que coa gente de Rómulo alcançaram, Quando com Viriato, na inimiga Guerra romana tanto se afamaram; Também deixo a memória, que os obriga A grande nome, quando alevantaram Um por seu capitão, que peregrino Fingiu na cerva espírito divino. 27 \"Agora vedes bem que, cometendo O duvidoso mar num lenho leve, Por vias nunca usadas, não temendo De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve: Que havendo tanto já que as partes vendo Onde o dia é comprido e onde breve, Inclinam seu propósito e porfia A ver os berços onde nasce o dia. 28 \"Prometido lhe está do Fado eterno, Cuja alta Lei não pode ser quebrada, Que tenham longos tempos o governo Do mar, que vê do Sol a roxa entrada. Nas águas têm passado o duro inverno; A gente vem perdida e trabalhada; Já parece bem feito que lhe seja Mostrada a nova terra, que deseja. 29 \"E porque, como vistes, têm passados Na viagem tão ásperos perigos, Tantos climas e céus experimentados, Tanto furor de ventos inimigos, Que sejam, determino, agasalhados Nesta costa africana, como amigos. E tendo guarnecida a lassa frota, Tornarão a seguir sua longa rota.\" 30 Estas palavras Júpiter dizia, Quando os Deuses por ordem respondendo, Na sentença um do outro diferia, Razões diversas dando e recebendo. O padre Baco ali não consentia No que Júpiter disse, conhecendo Que esquecerão seus feitos no Oriente, Se lá passar a Lusitana gente. 31 Ouvido tinha aos Fados que viria Uma gente fortíssima de Espanha Pelo mar alto, a qual sujeitaria Da índia tudo quanto Dóris banha, E com novas vitórias venceria A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha. Altamente lhe dói perder a glória, De que Nisa celebra inda a memória. 32 Vê que já teve o Indo sojugado, E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso, Por vencedor da Índia ser cantado De quantos bebem a água de Parnaso. Teme agora que seja sepultado Seu tão célebre nome em negro vaso D\'água do esquecimento, se lá chegam Os fortes Portugueses, que navegam. 33 Sustentava contra ele Vénus bela, Afeiçoada à gente Lusitana, Por quantas qualidades via nela Da antiga tão amada sua Romana; Nos fortes corações, na grande estrela, Que mostraram na terra Tingitana, E na língua, na qual quando imagina, Com pouca corrupção crê que é a Latina. 34 Estas causas moviam Citereia, E mais, porque das Parcas claro entende Que há de ser celebrada a clara Deia, Onde a gente belígera se estende. Assim que, um pela infâmia, que arreceia, E o outro pelas honras, que pretende, Debatem, e na porfia permanecem; A qualquer seus amigos favorecem. 35 Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura De silvestre arvoredo abastecida, Rompendo os ramos vão da mata escura, Com ímpeto e braveza desmedida; Brama toda a montanha, o som murmura, Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: Tal andava o tumulto levantado, Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. 36 Mas Marte, que da Deusa sustentava Entre todos as partes em porfia, Ou porque o amor antigo o obrigava, Ou porque a gente forte o merecia, De entre os Deuses em pé se levantava: Merencório no gesto parecia; O forte escudo ao colo pendurado Deitando para trás, medonho e irado, 37 A viseira do elmo de diamante Alevantando um pouco, mui seguro, Por dar seu parecer, se pôs diante De Júpiter, armado, forte e duro: E dando uma pancada penetrante, Com o conto do bastão no sólio puro, O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Um pouco a luz perdeu, como enfiado. 38 E disse assim: \"Ó Padre, a cujo império Tudo aquilo obedece, que criaste, Se esta gente, que busca outro hemisfério, Cuja valia, e obras tanto amaste, Não queres que padeçam vitupério, Como há já tanto tempo que ordenaste, Não onças mais, pois és juiz direito, Razões de quem parece que é suspeito. 39 \"Que, se aqui a razão se não mostrasse Vencida do temor demasiado, Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Pois que de Luso vem, seu tão privado; Mas esta tenção sua agora passe, Porque enfim vem de estâmago danado; Que nunca tirará alheia inveja O bem, que outrem merece, e o Céu deseja. 40 \"E tu, Padre de grande fortaleza, Da determinação, que tens tomada, Não tornes por detrás, pois é fraqueza Desistir-se da cousa começada. Mercúrio, pois excede em ligeireza Ao vento leve, e à seta bem talhada, Lhe vá mostrar a terra, onde se informe Da índia, e onde a gente se reforme.\" 41 Como isto disse, o Padre poderoso, A cabeça inclinando, consentiu No que disse Mavorte valeroso, E néctar sobre todos esparziu. Pelo caminho Lácteo glorioso Logo cada um dos Deuses se partiu, Fazendo seus reais acatamentos, Para os determinados aposentos. 42 Enquanto isto se passa na formosa Casa etérea do Olimpo onipotente, Cortava o mar a gente belicosa, Já lá da banda do Austro e do Oriente, Entre a costa Etiópica e a famosa Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente Queimava então os Deuses, que Tifeu Com o temor grande em peixes converteu. 43 Tão brandamente os ventos os levavam, Como quem o céu tinha por amigo: Sereno o ar, e os tempos se mostravam Sem nuvens, sem receio de perigo. O promontório Prasso já passavam, Na costa de Etiópia, nome antigo, Quando o mar descobrindo lhe mostrava Novas ilhas, que em torno cerca e lava. 44 Vasco da Gama, o forte capitão, Que a tamanhas empresas se oferece, De soberbo e de altivo coração, A quem Fortuna sempre favorece, Para se aqui deter não vê razão, Que inabitada a terra lhe parece: Por diante passar determinava; Mas não lhe sucedeu como cuidava. 45 Eis aparecem logo em companhia Uns pequenos batéis, que vêm daquela Que mais chegada à terra parecia, Cortando o longo mar com larga vela. A gente se alvoroça, e de alegria Não sabe mais que olhar a causa dela. Que gente será esta, em si diziam, Que costumes, que Lei, que Rei teriam? 46 As embarcações eram, na maneira, Mui veloces, estreitas e compridas: As velas, com que, vêm, eram de esteira Dumas folhas de palma, bem tecidas; A gente da cor era verdadeira, Que Faeton, nas terras acendidas, Ao mundo deu, de ousado, o não prudente: O Pado o sabe, o Lampetusa o sente. 47 De panos de algodão vinham vestidos, De várias cores, brancos e listrados: Uns trazem derredor de si cingidos, Outros em modo airoso sobraçados: Da cinta para cima vêm despidos; Por armas têm adargas o terçados; Com toucas na cabeça; e navegando, Anafis sonoros vão tocando. 48 Co\'os panos e co\'os braços acenavam As gentes Lusitanas, que esperassem; Mas já as proas ligeiras se inclinavam Para que junto às ilhas amainassem. A ,ente e marinheiros trabalhavam, Como se aqui os trabalhos se acabassem; Tomam velas; amaina-se a verga alta; Da âncora, o mar ferido, em cima salta. 49 Não eram ancorados, quando a gente Estranha pelas cordas já subia. No gesto ledos vêm, e humanamente O Capitão sublime os recebia: As mesas manda pôr em continente; Do licor que Lieo prantado havia Enchem vasos de vidro, e do que deitam, Os de Faeton queimados nada enjeitam. 50 Comendo alegremente perguntavam, Pela Arábica língua, donde vinham, Quem eram, de que terra, que buscavam, Ou que partes do mar corrido tinham? Os fortes Lusitanos lhe tornavam As discretas respostas, que convinham: \"Os Portugueses somos do Ocidente, Imos buscando as terras do Oriente. 51 \"Do mar temos corrido e navegado Toda a parte do Antártico e Calisto, Toda a costa Africana rodeado, Diversos céus e terras temos visto; Dum Rei potente somos, tão amado, Tão querido de todos, e benquisto, Que não no largo mar, com leda fronte, Mas no lago entraremos de Aqueronte. 52 \"E por mandado seu, buscando andamos A terra Oriental que o Indo rega; Por ele, o mar remoto navegamos, Que só dos feios focas se navega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade não se nega, Quem sois, que terra é esta que habitais, Ou se tendes da Índia alguns sinais?\" 53 \"Somos, um dos das ilhas lhe tornou, Estrangeiros na terra, Lei e nação; Que os próprios são aqueles, que criou A natura sem Lei e sem razão. Nós temos a Lei certa, que ensinou O claro descendente de Abraão Que agora tem do mundo o senhorio, A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio. Informações. A Ilha de Moçambique. 54 \"Esta ilha pequena, que habitamos, em toda esta terra certa escala De todos os que as ondas navegamos De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; E, por ser necessária, procuramos, Como próprios da terra, de habitá-la; E por que tudo enfim vos notifique, Chama-se a pequena ilha Moçambique. 55 \"E já que de tão longe navegais, Buscando o Indo Idaspe e terra ardente, Piloto aqui tereis, por quem sejais Guiados pelas ondas sabiamente. Também será bem feito que tenhais Da terra algum refresco, e que o Regente Que esta terra governa, que vos veja, E do mais necessário vos proveja.\" 56 Isto dizendo, o Mouro se tornou A seus batéis com toda a companhia; Do Capitão e gente se apartou Com mostras de devida cortesia. Nisto Febo nas águas encerrou, Co\'o carro de cristal, o claro dia, Dando cargo à irmã, que alumiasse O largo mundo, enquanto repousasse. 57 A noite se passou na lassa frota Com estranha alegria, e não cuidada, Por acharem da terra tão remota Nova de tanto tempo desejada. Qualquer então consigo cuida e nota Na gente e na maneira desusada, E como os que na errada Seita creram, Tanto por todo o mundo se estenderam, 58 Da Lua os claros raios rutilavam Pelas argênteas ondas Neptuninas, As estrelas os Céus acompanhavam, Qual campo revestido de boninas; Os furiosos ventos repousavam Pelas covas escuras peregrinas; Porém da armada a gente vigiava, Como por longo tempo costumava. 59 Mas assim como a Aurora marchetada Os formosos cabelos espalhou No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Ao claro Hiperiónio, que acordou, Começa a embandeirar-se toda a armada, E de toldos alegres se adornou, Por receber com festas e alegria O Regedor das ilhas, que partia. 60 Partia alegremente navegando, A ver as naus ligeiras Lusitanas, Com refresco da terra, em si cuidando Que são aquelas gentes inumanas, Que, os aposentos cáspios habitando, A conquistar as terras Asianas Vieram; e por ordem do Destino, O Império tomaram a Constantino. 61 Recebe o Capitão alegremente O Mouro, e toda a sua companhia; Dá-lhe de ricas peças um presente, Que só para este efeito já trazia; Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente Não usado licor, que dá alegria. Tudo o Mouro contente bem recebe; E muito mais contente come e bebe. 62 Está a gente marítima de Luso Subida pela enxárcia, de admirada, Notando o estrangeiro modo e uso, E a linguagem tão bárbara e enleada. Também o Mouro astuto está confuso, Olhando a cor, o trajo, e a forte armada; E perguntando tudo, lhe dizia \"Se por ventura vinham de Turquia?\" 63 E mais lhe diz também, que ver deseja Os livros de sua Lei, preceito eu fé, Para ver se conforme à sua seja, Ou se são dos de Cristo, como Crê. E porque tudo note e tudo veja, Ao Capitão pedia que lhe dê Mostra das fortes armas de que usavam, Quando co\'os inimigos pelejavam. 64 Responde o valeroso Capitão Por um, que a língua escura bem sabia: \"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação De mim, da Lei, das armas que trazia. Nem sou da terra, nem da geração Das gentes enojosas de Turquia: Mas sou da forte Europa belicosa, Busco as terras da índia tão famosa. 65 A lei tenho daquele, a cujo império Obedece o visíbil e ínvisíbil Aquele que criou todo o Hemisfério, Tudo o que sente, o todo o insensíbil; Que padeceu desonra e vitupério, Sofrendo morte injusta e insofríbil, E que do Céu à Terra, enfim desceu, Por subir os mortais da Terra ao Céu. 66 Deste Deus-Homem, alto e infinito, Os livros, que tu pedes não trazia, Que bem posso escusar trazer escrito Em papel o que na alma andar devia. Se as armas queres ver, como tens dito, Cumprido esse desejo te seria; Como amigo as verás; porque eu me obrigo, Que nunca as queiras ver como inimigo.\" 67 Isto dizendo, manda os diligentes Ministros amostrar as armaduras: Vêm arneses, e peitos reluzentes, Malhas finas, e lâminas seguras, Escudos de pinturas diferentes, Pelouros, espingardas de aço puras, Arcos, e sagitíferas aljavas, Partazanas agudas, chuças bravas: 68 As bombas vêm de fogo, e juntamente As panelas sulfúreas, tão danosas; Porém aos de Vulcano não consente Que dêem fogo às bombardas temerosas; Porque o generoso ânimo e valente, Entre gentes tão poucas e medrosas, Não mostra quanto pode, e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão. 69 Porém disto, que o Mouro aqui notou, E de tudo o que viu com olho atento Um ódio certo na alma lhe ficou, Uma vontade má de pensamento. Nas mostras e no gesto o não mostrou; Mas com risonho e ledo fingimento Tratá-los brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina. 70 Pilotos lhe pedia o Capitão, Por quem pudesse à Índia ser levado; Diz-lhe que o largo prémio levarão Do trabalho que nisso for tomado. Promete-lhos o Mouro, com tenção De peito venenoso, e tão danado, Que a morte, se pudesse, neste dia, Em lugar de pilotos lhe daria. 71 Tamanho o ódio foi, e a má vontade, Que aos estrangeiros súbito tomou, Sabendo ser sequazes da verdade, Que o Filho de David nos ensinou. ó segredos daquela Eternidade, A quem juízo algum nunca alcançou! Que nunca falte um pérfido inimigo Aqueles de quem foste tanto amigo! 72 Partiu-se Disto enfim coa companhia, Das naus o falso Mouro despedido, Com enganosa e grande cortesia, Com gesto ledo a todos, e fingido. Cortaram os batéis a curta via Das águas de Neptuno, e recebido Na terra do obsequente ajuntamento Se foi o Mouro ao cógnito aposento. 73 Do claro assento etóreo o grão Tebano, Que da paternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento Lusitano Ao Mouro ser molesto e avorrecido, No pensamento cuida um falso engano, Com que seja de todo destruído. E enquanto isto só na alma imaginava, Consigo estas palavras praticava: 74 \"Está do fado já determinado, Que tamanhas vitórias, tão famosas, Hajam os Portugueses alcançado Das Indianas gentes belicosas. E eu só, filho do Padre sublimado, Com tantas qualidades generosas, Hei de sofrer que o fado favoreça Outrem, por quem meu nome se escureça? 75 \"Já quiseram os Deuses que tivesse O filho de Filipo nesta parte Tanto poder, que tudo submetesse Debaixo de seu jugo o fero Marte. Mas há-se de sofrer que o fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que eu co\'o grão Macedónio, e o Romano, Demos lugar ao nome Lusitano? 76 \"Não será assim, porque antes que chegado Seja este Capitão, astutamente Lhe será tanto engano fabricados Que nunca veja as partes do Oriente. Eu descerei à Terra, e o indignado Peito revolverei da Maura gente; Porque sempre por via irá direita Quem do oportuno tempo se aproveita.\" 77 Isto dizendo, irado e quase insano, Sobre a terra africana descendeu, Onde vestindo a forma e gesto humano, Para o Prasso sabido se moveu. E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu Dum Mouro, em Moçambique conhecido Velho, sábio, e co\'o Xeque mui valido. 78 E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas A sua falsidade acomodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras, Estas que ora de novo são chegadas; Que das nações na costa moradoras Correndo a fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que com pactos de paz sempre ancoravam. 79 E sabe mais, lhe diz, como entendido Tenho destes cristãos sanguinolentos, Que quase todo o mar têm destruído Com roubos, com incêndios violentos; E trazem já de longe engano urdido Contra nós; e que todos seus intentos São para nos matarem e roubarem, E mulheres e filhos cativarem. 80 \"E também sei que tem determinado De vir por água a terra muito cedo O Capitão dos seus acompanhado, Que da tensão danada nasce o medo. Tu deves de ir também co\'os teus armado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; Porque, saindo a gente descuidada, Cairão facilmente na cilada. 81 \"E se inda não ficarem deste jeito Destruídos, ou mortos totalmente Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil, que te contente: Manda-lhe dar piloto, que de jeito Seja astuto no engano, e tão prudente, Que os leve aonde sejam destruídos, Desbaratados, mortos, ou perdidos.\" 82 Tanto que estas palavras acabou, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, Os braços pelo colo lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho; E logo nesse instante concertou Para a guerra o belígero aparelho, Para que ao Português se lhe tornasse Em roxo sangue a água, que buscasse. 83 E busca mais, para o cuidado engano, Mouro, que por piloto à nau lhe mande, Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano, De quem fiar-se possa um feito grande. Diz-lhe que acompanhando o Lusitano, Por tais costas e mares com ele ande, Que, se daqui escapar, que lá diante Vá cair onde nunca se alevante. 84 Já o raio Apolíneo visitava Os montes Nabatêos acendido, Quando o Gama, colos seus determinava De vir por água a terra apercebido. A gente nos batéis se concertava, Como se fosse o engano já sabido: Mas pode suspeitar-se facilmente, Que o coração pressago nunca mente. 85 E mais também mandado tinha a terra, De antes, pelo piloto necessário, E foi-lhe respondido em som de guerra, Caso do que cuidava mui contrário; Por isto, e porque sabe quanto erra Quem se crê de seu pérfido adversário, Apercebido vai como podia, Em três batéis somente que trazia. 86 Mas os Mouros que andavam pela praia, Por lhe defender a água desejada, Um de escudo embraçado e de azagaia, Outro de arco encurvado e seta ervada, Esperam que a guerreira gente saia, Outros muitos já postos em cilada. E, porque o caso leve se lhe faça, Põem uns poucos diante por negaça, 87 Andam pela ribeira alva, arenosa, Os belicosos Mouros acenando Com a adarga e co\'a hástia perigosa, Os fortes Portugueses incitando. Não sofre muito a gente generosa Andar-lhe os cães os dentes amostrando. Qualquer em terra salta tão ligeiro, Que nenhum dizer pode que é primeiro. 88 Qual no corro sanguino o ledo amante, Vendo a formosa dama desejada, O touro busca, e pondo-se diante, Salta, corre, sibila, acena, e brada, Mas o animal atroce, nesse instante, Com a fronte cornígera inclinada, Bramando duro corre, e os olhos cerra, Derriba, fere e mata, e põe por terra: 89 Eis nos batéis o fogo se levanta Na furiosa e dura artilharia, A plúmbea péla mata, o brado espanta, Ferido o ar retumba e assovia: O coração dos Mouros se quebranta, O temor grande o sangue lhe resfria. Já foge o escondido de medroso, E morre o descoberto aventuroso. 90 Não se contenta a gente Portuguesa, Mas seguindo a vitória estrui e mata; A povoação, sem muro e sem defesa, Esbombardeia, acende e desbarata. Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, Que bem cuidou comprá-la mais barata; Já blasfema da guerra, e maldizia, O velho inerte, e a mãe que o filho cria. 91 Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Sem força, de covarde e de apressado, A pedra, o pau, e o canto arremessando; Dá-lhe armas o furor desatinado. Já a ilha e todo o mais desemparando, A terra firme foge amedrontado; Passa e corta do mar o estreito braço, Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço 92 Uns vão nas almadias carregadas, Um corta o mar a nado diligente, Quem se afoga nas ondas encurvadas, Quem bebe o mar, e o deita juntamente. Arrombam as miúdas bombardadas Os pangaios subtis da bruta gente: Desta arte o Português enfim castiga A vil malícia, pérfida, inimiga. 93 Tornam vitoriosos para a armada, Co\'o despojo da guerra e rica presa, E vão a seu prazer fazer aguada, Sem achar resistência, nem defesa. Ficava a Maura gente magoada, No ódio antigo mais que nunca acesa; E vendo sem vingança tanto dano, Somente estriba no segundo engano. 94 Pazes cometer manda arrependido O Regedor daquela iníqua terra, Sem ser dos Lusitanos entendido, Que em figura de paz lhe manda guerra; Porque o piloto falso prometido, Que toda a má tenção no peito encerra, Para os guiar à morte lhe mandava, Como em sinal das pazes que tratava. 95 O Capitão, que já lhe então convinha Tornar a seu caminho acostumado, Que tempo concertado e ventos tinha Para ir buscar o Indo desejado, Recebendo o piloto, que lhe vinha, Foi dele alegremente agasalhado; E respondendo ao mensageiro a tento, As velas manda dar ao largo vento. 96 Desta arte despedida a forte armada, As ondas de Anfitrite dividia, Das filhas de Nereu acompanhada, Fiel, alegre e doce companhia. O Capitão, que não caía em nada Do enganoso ardil, que o Mouro urdia, Dele mui largamente se informava Da Índia toda, e costas que passava. 97 Mas o Mouro, instruído nos enganos Que o malévolo Baco lhe ensinara, De morte ou cativeiro novos danos, Antes que à Índia chegue, lhe prepara: Dando razões dos portos Indianos, Também tudo o que pede lhe declara, Que, havendo por verdade o que dizia, De nada a forte gente se temia. 98 E diz-lhe mais, com o falso pensamento Com que Sinon os Frígios enganou: Que perto está uma ilha, cujo assento Povo antigo cristão sempre habitou. O Capitão, que a tudo estava a tento, Tanto com estas novas se alegrou, Que com dádivas grandes lhe rogava, Que o leve à terra onde esta gente estava. 99 O mesmo o falso Mouro determina, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Que a ilha é possuída da malina Gente que segue o torpe Mahamede. Aqui o engano e morte lhe imagina, Porque em poder e forças muito excede A Moçambique esta ilha, que se chama Quíloa, mui conhecida pela fama. 100 Para lá se inclinava a leda frota; Mas a Deusa em Citere celebrada, Vendo como deixava a certa rota Por ir buscar a morte não cuidada, Não consente que em terra tão remota Se perca a gente dela tanto amada. E com ventos contrários a desvia Donde o piloto falso a leva e guia. 101 Mas o malvado Mouro, não podendo Tal determinação levar avante, Outra maldade iníqua cometendo, Ainda em seu propósito constante, Lhe diz que, pois as águas discorrendo Os levaram por força por diante, Que outra ilha tem perto, cuja gente Eram Cristãos com Mouros juntamente. 102 Também nestas palavras lhe mentia, Como por regimento enfim levava, Que aqui gente de Cristo não havia, Mas a que a Mahamede celebrava. O Capitão, que em tudo o Mouro cria, Virando as velas, a ilha demandava; Mas, não querendo a Deusa guardadora, Não entra pela barra, e surge fora. 103 Estava a ilha à terra tão chegada, Que um estreito pequeno a dividia; Uma cidade nela situada, Que na fronte do mar aparecia, De nobres edifícios fabricada, Como por fora ao longe descobria, Regida por um Rei de antiga idade: Mombaça é o nome da ilha e da cidade. 104 E sendo a ela o Capitão chegado, Estranhamente ledo, porque espera De poder ver o povo batizado, Como o falso piloto lhe dissera, Eis vêm batéis da terra com recado Do Rei, que já sabia a gente que era: Que Baco muito de antes o avisara, Na forma doutro Mouro, que tomara. 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaixo o veneno vem coberto; Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos! Ó caminho de vida nunca certo: Que aonde a gente põe sua esperança, Tenha a vida tão pouca segurança! 106 No mar tanta tormenta, e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme, e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?
português fera esse
Atualize seu navegador Campanha para eliminar browsers antigos do mercado Desenvolvedores ainda perdem muito em produtividade devido a navegadores desatualizados, sem suporte às funcionalidades e tecnologias atuais para alcançar seus clientes, limitando soluções e criando dores de cabeça desnecessárias. O Internet Explorer 6.0 (lançado em 2001) ainda participa de 34% do mercado de navegadores*. É um browser que não acompanha o estágio atual da Internet, possui falhas de segurança e limita todo o potencial de uma Internet melhor para todos nós. Esta campanha é uma iniciativa para excluir navegadores desatualizados do mapa da internet do Brasil. Basta inserir o código abaixo em todos os seus sites e de seus clientes. Desta forma, para todo usuário que acessá-los utilizando navegadores desatualizados, será exibida uma barra simples, sem marcas, orientando o usuário a atualizar o seu navegador e falando da importância desta atitude (veja a barra em ação). Mais segurança para o usuário, mais liberdade aos desenvolvedores. * Fonte: http://www.thecounter.com/stats/2009/January/browser.php Faça a sua parte Ajude a tornar a Internet ainda melhor. Divulgue em seu website a faixa da campanha, avise os amigos. Cole o código na sua página Lembre-se que a barra só é exibida para navegadores antigos. Comentários cleber cesar (03/02/2009 - 18:02) aleluia! ate que enfim uma iniciativa realmente válida!!!! será que pode incluir nessa iniciativa, a eliminação do IE? Sérgio Mandrake (03/02/2009 - 19:39) é já era na hora de trocar pneu! Johnnathan (04/02/2009 - 12:13) caraca, fiz o mesmo no meu site... gente se puderem, divulguem bastante também o uso de pelo menos 2 navegadores. por ex: mesmo que o Firefox seja maravilhoso e o opera também e depois de instalados e atualizados, em certas paginas o leyout ou plugin não exetuca corretamente... se tentar pelo IE 6 ou 7 já funciona. \"Importante que tenham 2 navegadores atualizados\" espero que não me entendam mal, não defendo o IE, mas é q ele é fundamental para o funcionamento de muita coisa na internet. to com pressa, t+ gente! M. Paes (04/02/2009 - 14:03) tudo ficou genial! bom ver alguém de peso levantando essa bandeira. acabei de incluir a barra em 14 sites, e será um procedimento padrão agora. Pena ainda ter que manter o ícone do IE.... Esteban (05/02/2009 - 09:51) rs... eliminar o IE seria uma boa tb, mas o pessoal que teve esta ideia está de parabéns. Bom ano! Marcos_paiva (05/02/2009 - 13:39) Eliminando o IE6 já ta ótimo!!!!! Leandro Reis (05/02/2009 - 16:05) Muito boa a iniciativa eu apoio, mas a barra está em iframe e ao clicar no link a página para download aparece dentro da própria barra. Poderiam corrigir com target=\\\"_blank\\\"! Felipe Cardozo (05/02/2009 - 16:28) Muito boa a iniciativa. Mas esse script deixa o carregamento do site bem lento. Mas não deixa de ser uma boa idéia! Rafael Kuvasney (05/02/2009 - 17:42) Convença as agências a fazerem isso para o bem dos programadores Maria A. R. Fernandes (05/02/2009 - 23:11) Todos estes navegadores são muito bons. O único problema é que o IE6 não está atualizando para o 7! Até a Microsoft editou uma página exclusiva com instruções de como instalar; ou resolver este problema. Agora fica aquela dúvida no ar: \\\"Porque a Microsoft não lança um navegador melhor, assim como tantos outros existentes no mercado?\\\" kleber (06/02/2009 - 11:04) quando clico para fechar a barra esta dando um erro no javascript:window.parent.crossbrowser_hide(); valew Bruno (06/02/2009 - 22:43) Como alguém consegue usar um navegador sem abas ou guias? Daniel Amaral (06/02/2009 - 23:03) ATENÇÃO IMASTERS !!! No IE 6 (motivo da barra) ao clicar para fechar, está dando um erro -> javascript:window.parent.crossbrowser_hide(); Daniel Amaral (06/02/2009 - 23:10) ATENÇÃO IMASTERS !!! O erro acontece porque coolocaram um target=\\\"_blank\\\" no botão fechar. Elton (07/02/2009 - 05:21) Copiem o js e troquem por um target=\\\"_top\\\", e, para garantir, insiram um onclick=\\\"javascript:window.parent.crossbrowser_hide();\\\". Funciona, no meu funcionou. Vou colocar em todos os sistemas que administro, espero ter um grande impacto com isso. TAVA NA HORAAAAAAAAAAAAAAA!!! ;) Elton (07/02/2009 - 05:26) Aqui, só pra relatar, como sou um webmaster, necessito de vários browsers para testes, e, o unico internet explorer bom é o IE8, pode ter certeza. Atualmente uso: Firefox 3.0.6, Opera 10 Alpha, Safari 3.1, Chrome 1.0.1x e IE8.07, todos excelentes, e detalhe, Windows 7, uma vez que, meu pc não roda Unix, Linux ou Mac Ana Cristina Guimarães (07/02/2009 - 15:09) Só atualizar mas com tanto fraude na Net ficamos ate receioso de atualizar. MB (08/02/2009 - 17:52) porque não mudam de uma vez a tal campanha para USE FIREFOX? ja que a imagem do firefox é ligeiramente maior que a dos outros navegadores? a idéia é ótima, não fosse o patrocinio da mozzila corp e a ma fé eu iria aderir. Se a MS faz uma coisa dessas era uma chuva de freetards reclamando da ma fé de tio bill. Hélio S.M. (09/02/2009 - 15:29) Por eu ser um desenvolvedor uso todos os navegadores e sempre atualizados... o unico que sempre me da dor de cabeça no desenvolvimento é o IE, mas parece que pelo jeito o IE8 vai ficar bom, apesar de ainda nao passar no teste do acid3. Firefox 3, Opera 10 Alpha, Safari 3, Chrome, IE8 Alex (09/02/2009 - 22:39) Demorou!!!! Concorco 100% com a iniciativa. Marco Aurelio SIlva (10/02/2009 - 03:46) O blog dedodeouro.net apóia a idéia Jorge Pereira de Carvalho (10/02/2009 - 07:12) Preciso atualizar meu navegador,quando tento entrar no gmail ou orkut me bloqeia a pagina. Osky (10/02/2009 - 19:41) Realmente boa a atitude, porem a faixa deveria ser maior. Na minha opinião, deveria cobrir a metade da tela quando alguém acessar a página com essa trala. Diego (10/02/2009 - 22:06) Conheci a campanha pelo site da Universidade daqui da minha cidade. To participando já, coloquei no meu site. Blog EliteDosMestres.com.br está com o iMasters Henrique Viecili (11/02/2009 - 09:10) Que tal internacionalizar a barra tambem? Eu abri o site em inglês, cliquei na barra e ela apareceu em português... Qual a licensa desse código? eu posso modificar? Paulo Henrique (11/02/2009 - 14:31) òtima iniciativa. Já vou colocar em meu site e blog. Abraços. Deus abençõe a todos! Santaum (11/02/2009 - 16:38) Excelente iniciativa. Já adotei nos meus sítios. Fernando de França (11/02/2009 - 22:53) Parabéns pela iniciativa! alex oliveira de matos (12/02/2009 - 17:42) Peço oraçao aos irmaos , pois preciso , na area espiritual e sentimental. A Paz do Senhor Patricia Gil (12/02/2009 - 22:06) Aee todos juntos nesta campanha ^^ Raisa (13/02/2009 - 10:55) Muito legal mesmo Juan (16/02/2009 - 15:41) Otima iniciativa..! TO DENTRO!!! Weslley Aguiar Dias (18/02/2009 - 09:52) \\\"alex oliveira de matos (12/02/2009 - 17:42) Peço oraçao aos irmaos , pois preciso , na area espiritual e sentimental. A Paz do Senhor\\\" Seria este site um site de desenvolvedores ou um site de relacionamentos pras pessoas postarem como estão se sentindo. aff.. ¬¬ FalaSério né NULL (18/02/2009 - 12:25) É interessante como alguém coloca sua marca na internet e promove conteúdo inadequado sobre um produto de uma outra empresa sem ter fundamento concreto. Parém de dizer bobeira ou promover qualquer tipo de conteudo sobre influencias que aparecem na web. Façam pesquisa, estudem o mercado, veja reais soluções e assim que tiver um embazamento, não faça burrice. Grande abraço Rodrigo Camara (19/02/2009 - 17:55) Se isso der certo, aumento minha produtividade em uns 60%, só de não ter que gastar tempo criando \\\"hacks\\\" pra essa porcaria..Abaixo ao IE6!!!!!!!! Ronilson Paz (22/02/2009 - 18:37) Posso usar o script de vocês se houver duas modificações: a) Se a barra aparecer quando a página for aberta com o Internet Explorer (em qualquer versão); e b) Da relação dos navegadores para baixar, que seja eliminado o ícone do Internet Explorer. Fui! Leandro Nobrega (22/02/2009 - 23:24) O FIM ESTA PRÓXIMO!! Ronaldo Spilmann (25/02/2009 - 06:37) ahh que sonho se todos usassem navegadores atualizados.... parabéns Imasters por essa iniciativa!!!! Jefferson Ferreira (26/02/2009 - 10:10) Muito boa essa campanha, vou atualizar todos, vlw Imasters. Raphael (26/02/2009 - 14:21) essa barra em site feito em flash fica atrás, como q se resolve isso? Sávio Lima Lopes (26/02/2009 - 17:03) Acho interessante essa campanha. Mas será que não podemos ir além de atualizar browsers, investir também no desenvolvimento de sites segundo os Padrões Web (Web Standards - http://www.w3c.br/) e também desenvolver sites otimizados para qualquer navegador(http://www.anybrowser.org/campaign/anybrowser_br.html)? Francisco (27/02/2009 - 08:21) Muito bom. Já instalei nos meus sites/blogs. Abração! ;) Geovane Teske (27/02/2009 - 16:41) Ótimo, muito boa a iniciativa. Só acho que o Internet Explorer poderia ser excluir da lista pois é péssimo para quem desenvolve site. É um lixo ter que fazer cachorrada(gambiarra) para poder fazer funcionar nessa porcaria de IE enquanto os demais navegadores funcionam corretamente. Navegador padrão: Google Chrome! Anderson Kaminishi (02/03/2009 - 01:07) ja viram que nhaca fica a home do imasters no iPhone e iPod touch? acho q o defeito esta no css... Guilherme Lima (03/03/2009 - 09:29) @guilhermelima apoia a atualização de browsers!!! e vc? Sergio de Andrade (03/03/2009 - 13:55) HAUAHA, BOUA !! MORTE AO IE6 ! helioth (05/03/2009 - 20:29) Aderi a campanha ^^ Bela iniciativa!!! Ricardo (06/03/2009 - 00:26) Já coloquei o script nos 2 blogs o meu e o da Handcase André Baptista (06/03/2009 - 09:56) Parabéns pela iniciativa, estou cansado desse IE6. O IE7, não me desce muito não, mas tirando o IE6 de linha já é um ótimo passo :D Eu preferia fazer os sites não carregarem caso o usuário estivesse acessando com o IE6 e aparecer mensagem para atualizar, mas isso é uma questão muito delicada... já estou incrementendo em meus sites. []\\\'s Ericson Sobrinho (06/03/2009 - 16:44) É isso aí! eu (07/03/2009 - 09:26) Pega Na Banana Yudi Kondo (07/03/2009 - 23:13) Meus sites, e de clientes ja estão usando o script. hehehe chega de ie6 =] Yudi Kondo (07/03/2009 - 23:16) showw de iniciativa meus sites e de meus clientes ja estao usando... vlw chega de ie6 paulo (10/03/2009 - 14:22) Como pode alguem ainda ser conivente com isso... - isso nao é campanha e sim oportunismo. - atualize seu navegador ou troque seu navegador? pq nao dizer as coisas como sao realmente? a logo do explorer é a ultima e a do firefox é a primeira e bem maior que as demais, sera que nao estou enxergando bem? - um designer nao deve se meter ou induzir o publico referente a escolha de seu navegador, isso é algo que ele deve decidir por si so e naturalmente... ficam dizendo que o \\\"explorer deve acabar\\\", pra que? pra ele ter menos trabalho? isso nao existe, um projeto deve ser desenvolvido para atender todo o publico, vc nao pode querer impor o navegador que vc quer. - linux, mozila e outras empresas enchem a boca para acusar a Ms de monopolio, sendo que elas mesmas tb querem monopolizar todo o mercado dando uma de bonzinhos e de que pregam a liberdade. Vanderlei Mendes (10/03/2009 - 16:21) Quanto ao comnetário do paulo (10/03/2009 - 14:22): Paulo para você ter idéia a própria microsoft deseja que todos os seus clientes também mude do IE6 para o IE7. Se você fizer os updates da empresa vai perceber que há uma especificamente alterando o IE6 para IE7. Quando você continua a usar software sem as devidas atualizações é você que será prejudicado. Afinal é o seu software que se tornará inseguro e instável. Não dê bronca, se informe, se atualize. Vanderlei Mendes (10/03/2009 - 16:25) Pessoal que criou o código, programadores, o link para baixar o IE7 está quebrado. Poderiam por favor corrigi-lo? http://www.microsoft.com/brasil/windows/downloads/ie/getitnow.mspx Willian (10/03/2009 - 16:59) Muito boa ideia eu vou colocar esse codigo nos meus sites. muito boa ideia mesmo.. Parabéns. Chega de I.E das antigas. Tiago (10/03/2009 - 17:05) Estou divulgando.. Boa iniciativa!!! Wellington da Mata (13/03/2009 - 09:27) Achei essa idéia muito boa, vou colocar essa barra no meu site e em meu blog, só gostaria de saber se não tem uma versão sem o link para o IE, eu detesto esse navegador e não gostaria de recomenda-lo a ninguém. Muito Obrigado! Lucas Santos (13/03/2009 - 12:18) Sou a favor do atualização dos browsers, pois realmente quando desenvolvemos um site lindo com css e vamos ver em navegadores antigos, acabamos nos frustrando, em minha máquina utiilizo, IE, 8, Firefox 3, Opera 9.5, Safari 4 e o Chrome. Acho obrigatório a utilização de navegadores atualizados, até porque fica tudo mais bonito e funcional. Abraço a todos Lucas Santos Diego (13/03/2009 - 13:43) Aqui no meu, quando cliquei pra alterar o idioma bugou e voltou pro português.. Sei lá. sei lá.. Jay (14/03/2009 - 10:40) Olá galera muito legal a campanha do imasters aprovo inteiramente esta campanha maravilhosa, ainda são muitos os usuários que ainda usam browser\\\'s antigos, parabenizo a imasters por esta iniciativa Palavras de Osho (15/03/2009 - 02:13) Adorei e aderi! Meu blog tava enfrentando dificuldades com o IE6. Obrigado! Paulo (16/03/2009 - 01:34) Gostei muito da iniciativa, só não irei inserir em meu website pois ali diz que só é exibida para navegadores antigos, o que não é verdade. Utilizo FireFox 3.0.6 e ela é exibida em vários websites que visito. Andreh Poffo (16/03/2009 - 10:01) ótima campanha, parabéns, eu concordo plenamente com ela.. Navegador Padrão: Google Chrome Email Padrão: Gmail Mensageiro Padrão: Google Talk OS Padrão: ? :D Google OWNZ Canal Adobe Photoshop (17/03/2009 - 11:50) Acho uma excelente iniciativa. Já inseri o código em meu blog. abraços Bruno (18/03/2009 - 06:44) Adorei a iniciativa e já aderi, espero que muitos sites coloquem esse código tbm... Parabéns!!! Artinfo (20/03/2009 - 09:06) Tem que atualizar mesmo ! ronaldo (20/03/2009 - 10:11) não funciona em versões antigas do firefox NoelReis (21/03/2009 - 21:23) Sites que não funcionam no Firefox merecem ser removidos tal qual o Internet Explorer 6 e os programadores devem retornar aos estudos. Aliás o Bradesco Empresa está nesta situação... protestem também contra o Bradesco Empresa e peçam que os desenvolvedores voltem aos estudos. Admin Trancelucent (22/03/2009 - 12:46) Muito Bom...Ótima Iniciativa...Adorei... Já Estou Participando Da Campanha... Gustavo manso (23/03/2009 - 15:18) Podia passar pro IE 8 logo. Melhorou do 7 pro 8. Sergio Inglez (23/03/2009 - 20:57) Assino em baixo essa iniciativa... e podem contar comigo para divulgar... pois para nós desenvolvedores é muito ruim ver nosso trabalho todo deformado por causa de um sistema desatualizado... recomendada essa iniciativa! C. Almeida (25/03/2009 - 17:02) Estou nessa também pessoal. Inclusive vai me ajudar muitoporque meu site fica horrivel no IE6...uma vergonha. Mas a culpa não é da Microsoft, a culpa dos usuários que não tem conhecimento ou não fazem a atualização do navegador. C. Almeida (25/03/2009 - 17:02) Estou nessa também pessoal. Inclusive vai me ajudar muitoporque meu site fica horrivel no IE6...uma vergonha. Mas a culpa não é da Microsoft, a culpa dos usuários que não tem conhecimento ou não fazem a atualização do navegador. Audren Cezar (25/03/2009 - 21:22) Acho que saiu é versão final do IE8!!! http://www.microsoft.com/downloads/details.aspx?familyid=341C2AD5-8C3D-4347-8C03-08CDECD8852B&displaylang=pt-br OU http://www.microsoft.com/brasil/windows/internet-explorer/default.aspx Acredito que esteja melhor que o 7, troca o link pra ele plis *_*... Carlos (26/03/2009 - 17:50) Alguem poderia postar ai como posso por essa barra em um site PHP-NUKE 8.0? Valeu. MORTE AO IE! Firefox comanda! Leonardo Moreira (28/03/2009 - 17:23) Muito bom, já estou usando em todos os projetos, atualmente ja tem em 15 sites que desenvolvi. Porem o acesso ta ficando muito lento por conta, fica a critica construtiva ai. Francine (29/03/2009 - 15:22) Só hoje tomei conhecimento dessa iniciativa de vocÊs... Alguns meses atras criei uma comunidade no orkut! \\\"Aposentem o internet Explore 6!\\\" Acredito que o orkut é um dos melhores lugars para a divulgação aqui no Brasil devido o excesso de gente que usa... o link: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=80589977 quem poder entrar na comunidade ja estara ajudando Clayton (29/03/2009 - 21:46) O site está desatualizado... Nos links de download, o do Internet Explorer não aponta para a versão mais nova... William (30/03/2009 - 13:03) A campanha é boa mas ela está \\\"forçando\\\" contra o IE de uma maneira sublime...e isso é coisa de amador!!! Depois ficam falando mal da Microsoft..vcs estão agindo de forma semelhante TreedBox.com (31/03/2009 - 12:38) A www.treedbox.com já esta na campanha também Quanto mais desenvolvedores e Designer nacionais aderirem mais forte será a campanha nós da Treed Box paramos de brigar com o IE6, não por incapacidade mas por estar muito obsoleto \\\"Mas ta meio estranho o site\\\" Atualiza ué! Quem não atualiza vive reclamando que esta cheio de virus, devido a vinerabilidade do IE6 Valeu imaster, abraço a Todos Eduardo Castro | www.eduardocs.com (31/03/2009 - 15:37) IE6 está obsoleto, não atende mais as técnicas de XHTML e CSS .. melhor para TODOS é a migração, atualizarem seus navegadores .. assim o mundo ficará melhor. www.eduardocs.com Lucas Fernando (31/03/2009 - 15:52) * Nova campanha: Ao notar que um usuário (próximo de você) ignorou o aviso de instalar um novo browser, DÊ PAULADAS NO MONITOR do individuo, se ele reclamar fala que foi pra matar um vírus. Lucas Fernando (31/03/2009 - 15:54) E digo mais, www.jogosrox.com entrará na campanha nas próximas horas. Alex Batista (04/04/2009 - 22:29) A ideia deve ser mais propagada. Deve ser adotado. Já lançaram a útilma versão do IE 8 e justificam sendo o browser mais rápido da atualidade. Precisamos de browsers completos. A Microsoft insiste em ser o primeiro em tudo, até nos erros. Parabéns pela iniciativa e grande ideia. Geraldo (05/04/2009 - 11:52) O Blog do Pharis (http://pharisfaces.blogspot.com) também entrará nesta campanha. Abraço Rafael Librenz (07/04/2009 - 22:23) A iniciativa é louvável! Mas não teria como fazer todo o conteúdo descer \\\'x\\\' pixels quando a barra é ativada? (onde \\\'x\\\' é a altura da barra, em pixels) Fica ruim se a barra ficar NA FRENTE do conteúdo do site, escondendo o menu, por exemplo. Eu acho que é ruim obrigar o visitante (mesmo este estando usando o IE6) a encontrar o botão que oculta a barra para poder ver o que está no topo da página, atrás dela. Thiago S. (11/04/2009 - 07:51) O PortalFamaMG também aderiu a campanha.O IE6 deve ser eliminado.Abraços. Felipe (13/04/2009 - 04:09) otima campanha, jah esta add no meu site! Agora vamos fazer outra: Campanha ACABE COM O INTERNET EXPLORER! Juliano (14/04/2009 - 11:26) A página da Faculdade de Engenharia Química adotou a campanha de vocês. O IE6 anda atrapalhando o desenvolvimento de aplicativos web para a faculdade. Obrigado pela iniciativa! Juliano (14/04/2009 - 11:27) A página da Faculdade de Engenharia Química adotou a campanha de vocês. O IE6 anda atrapalhando o desenvolvimento de aplicativos web para a faculdade. Obrigado pela iniciativa! PotHix (15/04/2009 - 16:47) Æ!! Criei um plugin para Wordpress que usa o CrossBrowser como campanha principal. http://wordpress.org/extend/plugins/anti-ie6-army/ Só jogar ele no seu diretório wp-content/plugins e você já terá o crosbrowser ativo no seu blog! ;) Mais informações: http://pothix.com/blog/anti-ie6-army Há braços Osni Passos (16/04/2009 - 15:21) Opa, Para Wordpress tem um plugin pronto no site: http://marcelorodrigo.com/wordpress-plugins/internet-explorer-6-upgrade É de um amigo de longa data, testado e aprovado. Reginaldo Lima (20/04/2009 - 12:30) Já aderimos à campanha www.minimalist.com.br Severino Pereira da Silva (20/04/2009 - 21:32) Ao invés de querer contaminar os municípios com depósitos de criminosos de todos os tipos, o governo precisa isolar a construção desses presídios em locais ermos(tipo ilhas).Ou as autoridades tomam tenência contra a impunidade, ou não leva muito tempo, estão invadindo os palácios, para matar, furtar, estuprar, etc... Renan (20/04/2009 - 23:36) www.comoquefaz.com também. Rubens (21/04/2009 - 23:26) tudo tá evoluindo e ainda tem pessoas que fica para traz, se ninguém se atualizar o mundo fica para traz e as coisas fica complicada. www.galerarox.net lkfoury (22/04/2009 - 18:27) Já era mais do que tempo!! Para se ter uma ideia da peleja, mantenho um IÊca 6 na máquina só por conta de ajustar meus sites antes de colocá-los \\\"no ar\\\"! Um saco!! E quando \\\'desconfigura\\\' tudo!? Ai é refazer quase tudo do zero! buááá!! Vamos ver se o povo entra numa e adere rápido! E parabéns a campanha, que a idealizou e quem esta aderindo! Sucesso a todos! lkfoury pauli (26/04/2009 - 21:44) e um programa de baixa qualidade pois eu tenho no meu pc e e so entrar no orkut que da pau ;o explorer eu abro ate quatro portas e nao trava nenhuma essa porcaria trava toda hora .e so querer saqir do orkut e la vem pau de novo queremos deixar o explorer mas a hora que aparecer um navegador que preste se4 nao nao vale a pena ,melhorem muito mas muito mesmo ai quem sabe vcs serao a altura do explorer;e olha que a minha veraso e a 5.1, Renato Westphal (27/04/2009 - 18:19) Ótima campanha! Douglas Miranda (28/04/2009 - 11:58) Com certeza uma iniciativa maravilhosa. Parabéns IMASTERS. Nós da BUZZACTION - Marketing Interativo apoiamos vocês! Fabiano (28/04/2009 - 17:47) @William ninguem está forçando ninguem a atualizar o navegador, estamos apenas sugerindo isso. O IE6 não segue nenhum padão de web atual e todos tem que se adequar ao padrão até o usuário final. Isso aconteceu com a telefonia celular, quando comecei era uma tal de \\\"Banda A\\\", com o tempo isso foi sumindo e virou \\\"Banda B\\\" e todos usuários tiveram que trocar de aparelho... agora pega seu Ericson de quase meio quilo e leva em uma loja e fala pra eles habilita novamente o serviço e exiga que funcione perfeitamente como nos GSM atuais. PS. Todos pagam pra troca de celular (diretamente ou indireatmente), mas ninguem paga pela atualização do navegador... então porque não fazer? wellington (30/04/2009 - 14:22) Quero Um navegar bom ... jack (04/05/2009 - 08:03) Deixei de dormir várias noites por culpa do IE 6 e versões inferiores. Navegador fdp Joel Wallis (04/05/2009 - 11:36) Interessante. Vou juntar-me a campanha. :) Rodrigo Gonçalves (04/05/2009 - 16:55) Excelente Campanha estou colocando nos sites dos meus clientes ... igor (07/05/2009 - 15:50) se o seu browser nao que entrar de pauladas no seu computador e depois taque fogo Fábio Novais (08/05/2009 - 20:49) Galera, vou aderir a esta campanha também, colocando o script em meus sites. Tinha um outro script no www.updateyourbrowser.com que só aparecia quando o usuário estivesse usando o IE6. Acho que seria uma boa fazer isto com este também, já que o do update... tinha somente aquele barrinha amarela, tipo do activeX, parecia um vírus. André de Pádua (12/05/2009 - 18:57) Só tem um problema, nas páginas que coloquei, ele demora muitooo para carregá-las, pois fica buscando no servidor do imasters/uol. Mas no mais tudo ótimo, o negócio vai ser copiar o código fonte pro pc e deixar rodando no servidor junto com o site, mas quando tiver atualizações vai ser o foda! :D R.Rodrigues (13/05/2009 - 21:49) Taí uma iniciativa boa com uma boa causa. E a gente só sai ganhando atualizando. Eu recomendo o Firefox 3, o Chrome 1.0 e uso o Opera 9.6; vale a pena usar esses browsers. O Não pise na parede tá dentro : naopisenaparede.blogspot.com Adolfo Augusto de Mattos (14/05/2009 - 13:46) Meu Blogfolio entrará na campanha por um Browser completo. Liberdade no Design e Programação para nós desenvolvedores! Edivan de Castro (14/05/2009 - 15:24) É a isso morte ao IEca6. o site da macavi apoiará a campanha. sabe pq o IE6 ainda sobrevive? pq ele vem integrado ao XP e os usúarios preguisosos tem preguiça de instalar um navegador decente. Supercalifragilistico Espialidocious (15/05/2009 - 09:25) Que isso, vocês estão reclamando muito... Eu gostava do IE3, Netscape na época do navegador marítimo. Nesse tempo era necessário mais criatividade com menos ferramenta, hoje temos mais ferramenta e menos criatividade... Mas é fato, se vamos atualizar que seja para melhor e PADRONIZADO. Web Kit na véia... dailton arruda (15/05/2009 - 20:21) não posso dizer nada, ainda não o conheço 281 (16/05/2009 - 05:55) eu gosto do ie6 Nylson (16/05/2009 - 11:31) Muito boa a iniciativa. Mas esse script deixa o carregamento do site bem lento. Mas não deixa de ser uma boa idéia![2] Aliás, uma ótima iniciativa do Imasters!!, não é a toa que o forum também é uma referência para desenvolvedores WEB... MORTE AO IE6... Matheus Furtado (25/05/2009 - 10:53) Que o IE6 vire pó de uma vez, fdp, sempre tem uma coisa pra ficar errado no layout... Já adotei a campanha. Morra IE6, morra!! =) carlos (27/05/2009 - 12:23) prezados, estou tentando colocar no site que eu montei, mas não está aparecendo... alguém pode me ajudar? Vinícius Alves de Oliveira (28/05/2009 - 10:00) A resposta para quem questiona o motivo da Microsoft não lançar um navegador melhor como todo mundo é a quantidade de sistemas corporativos baseados em windows que rodam em versões desatualizadas do windows e por sua vez com navegador desatualizado. Um exemplo disso são os sistemas de governos em geral e orgãos públicos onde a maioria dos funcionários e até os gerentes dos escritórios associam a idéia de internet ao ícone azul. lucas (29/05/2009 - 09:17) muito bom!!! todos devem ganhar!!! so um genio para criar isto!!! ricardo (30/05/2009 - 21:06) opa, vou fazer essa campanha.. valew galera Luma (01/06/2009 - 08:31) Entrando para a campanha e divulgando no blogue http://luzdeluma.blogspot.com pt-BR (02/06/2009 - 01:20) A campanha é válida tirando a parte de tentar impor ff ou qualquer outro browser (o que não é uma prática muito profissional). Quem decide o que usa (sendo burrice ou não), é o dono da máquina e não um desenvolvedor de sites. Por muito tempo continuaremos desenvolvendo para muitos browsers diferentes. Agora uma proposta: que tal aderirem também à campanha eu sei escrever? Tem ALGUNS(para deixar claro que não são todos), pretensos \\\"Desenvolvedores\\\" que não conseguem nem passar idéias através de um simples texto, a coisa vai degringolando e no fim nada se entende do texto. Pelo amor de Deus, isto denigre a classe de desenvolvedores. Não somos analfabetos e para ser desenvolvedor não basta apenas se dizer que o é, é preciso estudo. se você não sabe escrever sem erros como programa ou desnvolve algo?! E mais, como se comunica com o cliente por e-mail?!?! E geralmente quem escreve mal costuma falar também... E não me venham dizer que uma coisa nada tem a ver com outra...Assumam a campanha eu sei escrever e sejam felizes!! http://euseiescrever.blogspot.com/ pt-BR (02/06/2009 - 01:21) A campanha é válida tirando a parte de tentar impor ff ou qualquer outro browser (o que não é uma prática muito profissional). Quem decide o que usa (sendo burrice ou não), é o dono da máquina e não um desenvolvedor de sites. Por muito tempo continuaremos desenvolvendo para muitos browsers diferentes. Agora uma proposta: que tal aderirem também à campanha eu sei escrever? Tem ALGUNS(para deixar claro que não são todos), pretensos \\\"Desenvolvedores\\\" que não conseguem nem passar idéias através de um simples texto, a coisa vai degringolando e no fim nada se entende do texto. Pelo amor de Deus, isto denigre a classe de desenvolvedores. Não somos analfabetos e para ser desenvolvedor não basta apenas se dizer que o é, é preciso estudo. se você não sabe escrever sem erros como programa ou desnvolve algo?! E mais, como se comunica com o cliente por e-mail?!?! E geralmente quem escreve mal costuma falar também... E não me venham dizer que uma coisa nada tem a ver com outra...Assumam a campanha eu sei escrever e sejam felizes!! http://euseiescrever.blogspot.com/ Diogo Barioni Abdalla (04/06/2009 - 19:17) Estamos na campanha: http://www.alfaiataria.net Rodrigo Dionízio (05/06/2009 - 09:19) estou nessa sem questionar... Pablo Luz | www.pabloluz.com.br (06/06/2009 - 19:08) Mais um apoiador. Parabéns pela iniciativa! luciene silva (07/06/2009 - 18:39) estou esperando respostas de voces gosto muito das roupas. jonas (11/06/2009 - 12:32) poow como assimm agente ñ pode navegar som segurança agora tem que fazer cometátio é poow quero resposta porra Joel Wallis (13/06/2009 - 07:32) E por quê o site da campanha não adere a campanha? Estou acessando pelo IE6, pois estou testando um layout nesse browser ridículo e decidi visitar o site da campanha com ele. Para meu espanto, não me foi sugerido nenhuma atualização. Everton Moraes (22/06/2009 - 14:36) A Fator X - Produções esta entrando na campanha... e todos os nossos clientes estaram se unindo em breve... www.fatorxproducoes.com.br Shows 11 9596-2649 andre (22/06/2009 - 20:25) atualizar o meu navegado Crysttyano (23/06/2009 - 21:37) Ótima iniciativa do imasters ja aderi e ja espalhei a novidade para todos os meus amigos desenvolvedores ^^ valeu gente Ricardo Macedo Martins (24/06/2009 - 08:39) Já aderí a campanha também: http://ricardomartins.com.br Jefferson (25/06/2009 - 12:24) O blog segredodedavi.blogspot.com já está na campanha só não acredito que o proprio site da campanha do imasters não está com o código . Deve se revisto isso... Amarildo (25/06/2009 - 15:01) To dentro e ja coloquei no meu blog. http://www.3a3iinformatica.com.br Vitor Melo (26/06/2009 - 14:41) http://juizos.com.br Ótima campanha, já estou dentro, embora meu site funcione no IE6 eu sou totalmente contra a sua utilização hoje, concordo plenamente com a campanha, alguns já devem ter percebido que o próprio site beta do http://beta.w3.org/ já não é compatível, faltava algumas empresas grandes como a google entrar nessa jogada também. Curiosidade...... a maioria do mundo fala, que não devemos obrigar aos usuários a atualizar nada, agora o plugin do flash é mega obrigatório caso vc queira ver alguns vídeos no youtube e ninguém reclama, nem mesmo o usuário. Não vamos ficar de braços cruzados, vamos lutar pela causa. Edilson Jason (27/06/2009 - 14:03) Olá, incluí o código da campanha em meu SHOPPING, mas acho que essa campanha já está fazendo efeito porque não encontrei nenhum ninguém que tivesse o IE6. Se alguém tive ai o IE6, por favor, entre ai em www.cliqueinformatica.com.br e veja se vai abrir o texto da campanha, se tiver com tempo me avise:edilson@cliqueinformatica.com.br E viva o chromo... Edilson da BIShost (27/06/2009 - 14:29) pauli... IE 5.1 caracas velho... é muito velho mesmo... Existe tanta coisa (navegadores) mais atuais por ai, mas se você está feliz assim!? Tem muita gente por igual a você!..., Gosta de sofrer. Carlos (30/06/2009 - 09:28) Infelizmente o pessoal se esquece que assim como no mundo offline, o usuário (diga-se consumidor) tem sempre a razão. Se ele usa um browser dito desatualizado, mas que funciona e o atende porque impor a ele essa mudança!? Segurança? Talvez ele tenha um bom antivirus e não se preocupe com o Browser. Vamos deixar de lado a mentalidade de programador e pensar em marketing, e não custa muito trabalhar uns minutos a mais e formatar a página para a leitura em outros browsers, inclusive para o IE 6 que está muito presente ainda. Sem ressentimentos! givaldo (30/06/2009 - 18:07) que massa Erick Nunes (01/07/2009 - 14:56) Tem como bloquear as pessoas que utilizam o IE 6 ?? para não acessarem o site utilizando esse navegador ??? pois atualmente apenas é exibida a faixa Inforce Internet Solutions (02/07/2009 - 20:33) Realmente o browser é um ponto crucial para os desenvolvedores web. Já passou da hora de todos os browsers serem compatíves e a Microsoft precisa parar de desenvolver Browsers ignorando os padrões da W3C. Abraços e Boa Sorte a todos, www.inforce.com.br. Walter Vieira (10/07/2009 - 19:05) Estou dentro...começo hoje mesmo. Victor Arcoverde (13/07/2009 - 16:37) Hahahahaaa muito legal isso!!! a partir de agora todos meus trabalhos terão essa barra!!! vamos dar boas vindas a nova tecnologia!!! viva a evolução!!! Marcio Leandro (13/07/2009 - 21:42) http://www.devone.com.br aderindo... Boa iniciativa. Melhor ainda seria eliminar o I.E. ;) Abraço a todos. Wash! (14/07/2009 - 23:49) Já aderi e digo mais, deveriamos mudar para todos os IE\\\'s [ahuehaeuh zuação] quem quizer ver, ai vai o meu ultimo site que entrou: www.ipbbalsas.org.br Ricardo (15/07/2009 - 14:29) Lógico que eu aderi. IECA6 nunca mais... por favor!!! Rafael Vergani (16/07/2009 - 14:00) www.rafaelvergani.com entrando na campanha. ... (17/07/2009 - 10:47) E os pcs que não da pra atualizar o windows nem o navegador va i te que aturar o firefox??? Leow (17/07/2009 - 16:57) http://papodebuteco.net/atualize-seu-navegador-morte-ao-ie6 ;D Eduardo Bertolucci (18/07/2009 - 10:31) Eu apóio essa campanha, porque de fato o IE6 é um problema para os Desenvolvedores, visando problemas com PNG Transparente e posicionamento de objetos. Em alguns trabalhos não compensa perder horas consertando, sim fazendo novamente, só para o IE6. -> Meu Blog - http://www.eduardobertolucci.com/blog Washington Ferraz (18/07/2009 - 19:32) Jáfaço parte desta campanha e estou implantando o código em todos os nossos clientes, é realmente um grande atraso ter de ficar desenvolvendo pra um navegador em desuso só porque poucas pessoas nao atualizam seu pc. A Microsoft deveria ser mais dinamica nesse quesito e de alguma forma forçar a todas estas pessoas a se atualizarem. allana (21/07/2009 - 09:56) é td de bom Anonimous (22/07/2009 - 19:46) Antes dessa campanha, pensem em desenvolver seus sites de acordo com padrões W3C, isso sim é importante e tem resultado. Por outro lado, esse tipo de campanha tem impacto de absolutamente 0 na socidedade em geral, e de qqer forma o IE6 só tem mercado pq é o padrão do XP, e só por isso mesmo (tanto é que o market share é extremamente similar). Com o 7 fazendo Sucesso, e por ser capaz de rodar bem nos PCs que usam XP hoje em dia, em breve o problema do IE6 seré resolvido. Ah! E atualizar o Flash não deixa ele mais pesado. Trocar pro Firefox pode aumentar muito o gasto de processamento e memória em PCs + velhos. Não ponho minha mão no fogo, mas acho que o IE6, em questão de leveza, só perde mesmo pro Chrome =P. Cassius (25/07/2009 - 21:40) Show de Bola a Campanha, parabens a galera q bolou a idéia!!! William (26/07/2009 - 23:23) Bom, procuro desenvolver códigos compatíveis até com IE 5.5 por mais complicado que às vezes seja, mas com certeza esta campanha de incentivo a banir o uso do IE6.0 será bom para todos, especialmente para nós. E já que estamos falando em adequações, notei que a barra de sugestão não alinha todos os navegadores \\\"dentro\\\" dela. Talvez o pessoal tenha feito o teste só no IE8.0 mas o fato é que testei no Opera 9.6, no Firefox 3.0, no Seamonkey e em todos eles a barra aparece com Firefox e Chrome na barra e os outros quatro navegadores abaixo dela. Pra corrigir isto basta alterar a margem direita dentro do código javascript. Valeu. Trambulhao (28/07/2009 - 18:03) Peço, encarecidamente, a mudança do URL que atualiza o Internet Explorer. O link está apontando para a versão 7 (sistema XP) e poderia ser dirigido para a versão 8 (versão essa que passa no teste Acid2). Bom, melhor seria, em vez de apontar para a página de downloads da Microsoft fosse direto para a própria página do Internet Explorer. Assim a recomendação seria sempre para a última versão. http://www.microsoft.com/brasil/windows/internet-explorer/default.aspx Anderson (30/07/2009 - 11:14) Olá primeiro quero parabenizar pela iniciativa, estou deixando este recado para relatar um erro que tive em meu navegador apos colocar o script, quando fecho o navegador aparece esse erro: \\\"ie explorer.exe - erro de aplicativo\\\". Se alguem ja passou ou esta passando por este problema, favor relatar aqui para que junto podemos resolver este problema. marcelo (30/07/2009 - 13:32) é mora Ricardo vinicyus andrade ponte (30/07/2009 - 22:10) Quero mostra esse talento,que e meu filho de 6meses,de olhos azuis super sapeca. Ricardo vinicyus andrade ponte (30/07/2009 - 22:10) Quero mostra esse talento,que e meu filho de 6meses,de olhos azuis super sapeca. hudson (31/07/2009 - 09:53) por favor alguem me fala como se instala firefox? (31/07/2009 - 20:54) preciso falar com a UOL sobre fatura mas não consigo anderson henriqui (03/08/2009 - 09:54) vivo a vida em busca de loucuras Daniela (03/08/2009 - 16:19) Nem o Youtube mais da suprote ao IE6! Com a google comprando a briga, quem sabe os usuarios finalmente se toquem e migrem para browsers decentes! ^^ Idemax (04/08/2009 - 08:25) Já tá lá!!! http://idemaxweb.blogspot.com/ oswaldo (04/08/2009 - 13:07) IE6 nunca mais!!! Eduardo Costta (07/08/2009 - 09:34) entrando na campanha e disponibilizando no twitter. www.twitter.com/eduardocostta m, (07/08/2009 - 10:44) Merda Antispam (merda.minimos.info) apoia a campanha e sugere uma advertência adicional: \\\"Se você não trocar de navegador, será banido da internet, sua casa será incendiada, seu cachorro assassinado e seu carro será pintado com as cores do Corinthians\\\". Também apoiamos a campanha de mandar os desenvolvedores que não sabem escrever de volta para a escola. Paz. makotowatanabe.com (07/08/2009 - 14:47) http://makotowatanabe.com/ aderindo já a campanha! Symbian Na Net (07/08/2009 - 18:31) Tamo participando tambem! http://symbiannanet.blogspot.com Renê (07/08/2009 - 19:13) Serviços do Google como YouTube e Orkut já aderiram a campanha... hahaha... By IEca 6! Anderson (08/08/2009 - 17:52) Meu blog esta participando da campanha! http://andersonpanichi.blogspot.com Eric Ulisses (08/08/2009 - 23:14) Show de bola essa iniciativa, além de muito inteligente. Parabéns a todos. Eder Lima (10/08/2009 - 16:33) Ótima iniciativa. Fizemos pequenas modificações no script para inserirmos em nosso site pois nosso público perde-se muito fácil com links e informações. Colocamos o script hospedado em nosso próprio servidor, mas mantivemos a função para estatísitcas e colocamos um comentário no código fonte falando sobre a campanha e dando crédito ao imasters pela iniciativa da campanha. :) http://www.interativa.uniderp.br andré (13/08/2009 - 10:09) vamos acbar cpom IE pra sempre uhuuuuuuuu Gabriel Lau (13/08/2009 - 15:51) Com essa camapanha lançada não vou mais me preocupar com o IE6. Todo browser que se prese hoje em dia se atualiza constantemente, e evolui de acordo com a necessidade dos usuários. Se o próprio youtube e Orkut já estão entrando nessa onda, não vou mais exitar. Todos os meus sites de agora em diante, irão conter uma mensagem de atualização de browser. Em 2 anos no máximo esse IEca vai desaparecer de vez dos pcs da população mundial :P Dan (13/08/2009 - 18:49) prefiro o ie6 que o 7. fabio cicero lima dasilva (15/08/2009 - 14:00) eu tmbm prefiro oie6 que o 7. André D. Molin (15/08/2009 - 21:07) Ótima iniciativa. Porem tem algumas pessoas dizendo em \\\"eliminação do IE\\\". Eu não concordo, pois o IE é um bom navegador sim. O problema é o windows estar presente na maioria dos PCs do mundo, e o windows XP vir com ele por padrão. Devemos é atualizar o IE para a versão mais recente. Glauber Rajiv (16/08/2009 - 01:13) AE \\\\o/ Não suporto fazer sites r0x em css para qualquer navegador, e quando chega no IE ta tudo desmontado, destruído, transparencia não funcionando. Morte aos noobs que usam IE 6 ÒÒ Wagnon Sousa (19/08/2009 - 16:01) Isso é bom de mais, aliás os usuários deveriam parae de uasr não só o IE6, mas todos os IEs e mudar de vez para outros como firefox, opera ou chrome. Zangui (21/08/2009 - 11:51) Esta campanha e bem vinda. O trabalho de montagem de sites e muitas vezes disvirtuado no que toca a renderizacao do conteudo pelo ie6 e abaixo. Se todos tomarem consiencia disso estaremos a ajudar a desenvolver e a dinamizar a web, que e sem duvida a porta de entrada para o mundo moderno. Site limpos, seguros e rapidos e o que queremos. DIVULGUEM A CAMPANHA... Carlos Fernandes (25/08/2009 - 07:58) É isso ai! Mais uma vez a equipde da iMasters, contribuindo para um internet melhor! Eduardo (27/08/2009 - 10:34) é uma iniciativa muito boa, mais acho assim, uso o explorer 6.0 e com o antivirus panda instalado e nunca tive problemas com worms, spywares, trojans e coisas e tal, vou instalar uma versão maior e com certeza já vai ficar lento por isso q nem tchum, outra coisa é que muitos falam ai pra cima, tirar o explorer e usar esses outros ai, firefox nem pensar, só pq é bonitinho afff para, é o pessoal gosta do mozila pq não usa a web como trabalho, eu uso fazendo sites e qdo vou fazer meus scripts java applet´s fica uma droga pra visualizar nesse firefox o explorer disparado é o melhor browser que tem, suporta tudo sem problema. Eduardo (27/08/2009 - 10:40) é uma iniciativa muito boa, mais acho assim, uso o explorer 6.0 e com o antivirus panda instalado e nunca tive problemas com worms, spywares, trojans e coisas e tal, vou instalar uma versão maior e com certeza já vai ficar lento por isso q nem tchum, outra coisa é que muitos falam ai pra cima, tirar o explorer e usar esses outros ai, firefox nem pensar, só pq é bonitinho afff para, é o pessoal gosta do mozila pq não usa a web como trabalho, eu uso fazendo sites e qdo vou fazer meus scripts java applet´s fica uma droga pra visualizar nesse firefox o explorer disparado é o melhor browser que tem, suporta tudo sem problema. Marcelo (27/08/2009 - 18:04) Não entendi esta euforia toda. Portanto me desculpem; usarei a contragosto o Inetrenet Explorer 8.0, mas não convencerei ninguém a querer usar. Infelizmente este dia chegará. Sim, não se iludam. Não acabarão apenas com a Internet Explorer 6.0 Se morresse apenas a versão da Internet, tudo bem... Ela morrendo, num futuro não muito distante a Internet Explorer 8.0 morrerá e os outros navegadores idem A Internet 8.0 é melhor que a anterior. Não digo o mesmo do Firefox que não abriu as páginas (no comando Control + N) Mas voltando... Futuramente a Internet Explorer 8.0 morrerá, e mais adiante, o Windwos XP também, não se iludam!!!! Viocês sempre terão de tempos em tempos de atualizar não só cada versão da Internet, mas principalmente sistema operacional como o Windows Vista que ainda não implacou. Mas com as versões anteriores morrendo, o Vista vai emplacar e mais adiante o que está ocorrendop hoje com a Internet Explorer 6.0 (e poir tabela com o Windows 98 SE), ocorrerá o mesmo com a Internet Explorer 8.0, e os outros navegadores, morrendo também o XP, e assim sucessivamente; esse será o preço a pagar... Qiem tem a ganhar ? Só empresas como a Microsoft que vai cada vez mais obrigar o usuário a atualizar seu sistema operacional como um todo e a gastar $$$. Se você faz parte de um grupo seleto de uma empresas dessas, meus parabéns, do contrário... belo (29/08/2009 - 00:29) to nessa! Edailton - Faça Web Sites - Sinop/MT (02/09/2009 - 11:01) Ótima iniciativa, eu trabalho em uma empresa de que desenvolve paginas web e só quem trabalha com isso entende como essa atualização é necessária, pena que ainda existam pessoas que não tem o conhecimento ou nao procuram saber sobre as falhas de segurança que existem e falam coisas absurdas, mas vamos lá um dia isso vai mudar. Marcelo (02/09/2009 - 12:51) Concordo com a atualização e brechas de segurança; acho isto necessário sim, óbvio. Se mudasse apenas a versão do navegador, não teria motivos para ser contra. Aliás, vale dizer, sou a favor de todo avanço tecnológico (apesar de por exemplo preferir games 2d, mas não vem ao caso aqui), máquinas mais velozes, mais memória ram, mais hd de espaço físico para o CPU, melhores placas de som, de vídeo, etc, etc. Mas isto deveria ocorrer de modo a forçar o usuário escolher se precisa ou não de um pc mais moderno, etc, se quer games 3d, programs mais sofisticados, etc;mas não por causa da navegação em rede... Claro que ninguém (ou quase nignuém) quer usar um pentium antigo (exceto para outras finalidades), sempre vai querer atualizar sua máquina na medida do possível (condições financeiras incluídas aí; não esqueçamos que estamos no Brasil...). Agora, para quem quer só navegar mesmo, buscar notícias na rede, entrar em diversos fóruns, deveria sim poder escolher seu navegador, sem ter necessariamente de mudar seu sistema operacional. Agora, a pessoa ser obrigado a mudar seu sistema operacional se quiser navegar na rede, acho um tremendo absurdo sim. Respeito sua posição, deve entender bem da área; meus parabéns, sucesso na profissão. Mas, mesmo quem entenda bem outrbalhe no ramo da infomática em construção de blogs, etc, não precisa entender muito do assunto, não precisa de sacar muito do assunto para saber que o Windows XP também estará com seus dias contados, e assim por diante. Por isto não entrei nesta onda, se é que me entende. O Windows XP não vai acabar do dia pra noite, mas na velocidade que está também nãio durará muito tempo, pois a Microsft inclusive já está abandonando (se já não abandonou) o suporte ao Windows XP. Hoje, já temos Linux, Windows Vista, Windows 7... Mas é questão de tempo até para a morte destes sistemas operacionais também, caso você queira tê-las e usá-las não só para o Windows, mas para acessar a Rede - que é o que está em questão aqui. Repito o que disse: se a pessoa é um empresário que viva disto, ou está com $$$ sobrando, ótimo, pois poderá estar sempre atulizando seu sistema operacional como um todo, o que é muito bom: CPU, sistema operacional escolhido,memória ram, etc. Só lamento que isto afete apenas quem quer tão somente navegar em rede; apenas isto. Aperfeiçoem os browsers de navegação, mas não destruam junto os sistemas operacionais; que esta escolha caiba ao usuário que na teoria deveria saber o que precisa ou não para seu pc - isto para navegar em rede. Se não acredita em nada do que disse, basta olhar os requerimentos mínimos de cada versão destes navegadores atuais; confira aí vendo os requerimentos da Internet Explorer 8.0, Mozila Firefox,... Pode procurar na Net, pélo Google ou Yahoo - que diz os requerimentos mínimos: nestes, a pessoa no mínimo deverá ter o Windows XP (que será substituída tão logo morra esta e outras versões de navegadores atuais) pra cima. É isso: que substituamos os navegadores, mas não necessariamente cada sistema operacional. Como sei que isto não acontecerá, sou contra sim. Bom, não espero entrar em choque com ninguém aqui, mas é meu ponto de vista; cada qual que tenha o seu. Eduardo (03/09/2009 - 10:04) É concordo com o parcerinho Marcelo logo acima, pra vcs verem querem tirar o explorer de qualquer jeito do mercado, mais não sei porque muitas empresas que criam sites como essa que vou postar o link abaixo o site deles nem abre no firefox só no explorer, será que eles tem alguma coisa contra a raposa? kkk, e olha que são fenomenais no que produzem em questão de web. obs : para abrir o site clique no boneco fazendo sinal de negativo. Abraço a todos Eduardo (03/09/2009 - 10:05) Opa desculpa pessoal, esqueci de colocar o link : http://www.neostream.com Ana Maria Gomes de França (06/09/2009 - 23:13) To nessa bboy157 (09/09/2009 - 11:53) adorei william pena forte (10/09/2009 - 09:40) Cara d+ Anderson (12/09/2009 - 02:21) Gloria Deus! Nem o Google da mais suporte pro lixo do IE6 Thiago (seja livre...diga nao ao IE) (13/09/2009 - 01:51) ORRAAA...Deus é pai,vamo q vamo acaba com a raça de IE6 Kleber (24/09/2009 - 10:47) E pensar que aqui onde eu trabalho só usamos o Netscape. Isso porque aqui não é empresa pequena não... Vou enviar o link pro chefe! Willhelm (24/09/2009 - 20:03) O Bill Gates deve estar rindo de vocês até não poder mais, né! \\\"Veja só a confusão que causamos! E eles nem sabem que é lógico que isso não tem fim. Um dia vai sair um novo padrão e eles terão fazer outras campanhas que não atingem nem 20% dos usuários só para que os usuários se sintam melhores... Vou voltar para o meu chá que está mais interessante\\\" Willhelm (24/09/2009 - 20:07) Ah sim, esqueci de falar... Quem chama usuário de burro, preguiçoso ou mentiroso só pode ser pior do que estas três coisas. Se um médico de 70 anos não sabe atualizar o IE6 para o IE8, não quer dizer que ele é preguiçoso, burro, tapado, mentiroso, etc etc... Vocês é que não sabem mais como lidar com pessoas (que pagam seus míseros salários)... Desenvolvedores, aprendam a tratar bem os usuários, ou nenhuma troca de browser vai diminuir suas cargas de trabalho. Pensem nisso. Lucas (24/09/2009 - 22:56) Eu já coloquei na minha página! :D Márcio (01/10/2009 - 00:11) No final, os desenvolvedores são os autores do conteúdo dos sites. Aos Billettes, que se danem. Tô nessa. Vinicius Ribeiro (03/10/2009 - 08:12) Eu também coloquei na página inicial e já faz 1 mês. Reparei na estatísticas de acesso ao site que, pela primeira vez, o IE perdeu (54% com firefox e 40% IE), ou seja, a campanha surtiu efeito. Parabéns pela iniciativa! Rafael (05/10/2009 - 10:42) Parabens pela iniciativa, já colouquei em nos sites que tenho e pode ter certeza que vou espalhar! Abraços Marcos (06/10/2009 - 17:34) Simplesmente Perfeito. Chester (06/10/2009 - 21:29) a partir de quando eu devo atualizar meu navegador?, pois já tenho o mozila no pen drive. EDI LOPES (08/10/2009 - 16:27) Tem gente dizendo que uma campanha pro FF. e se fosse? o IE é uma coisa tao ruim que deveria se chamar DEVIL IE. Apoio totalmente a campanha, alias eu nao aconselho ninguem a usar o IE. Se não quizerem o FF usem o Chorme que é muito bom tb. Resumindo MORTE AO DEVIL IE Marcelo Pereira - UNEMAT/Cáceres (13/10/2009 - 16:08) Muito bom.... Ufa!!! pelo menos um aviso.... Navegadores antigos como o IE6 dão dor de cabeça demais. O navegador burro!!! anapaulat.meiralima (13/10/2009 - 23:34) Pow tava mais qe na hora nèh...rs Denis Olivares (15/10/2009 - 12:34) Parabéns! Ótimo! weberton (23/10/2009 - 13:28) gostaria de ter um navegador ativado para resolver os contatos Nivaldo (23/10/2009 - 22:22) Quero atualizar o meu navegador, e certamente resolverei meu problema com as mensagens. Obrigado Junior (24/10/2009 - 00:27) Apoiado! a JM adota tmb essa campanha, xega de ie6! Luciano (24/10/2009 - 16:43) Estas atualizações não passam de obsolescência planejadas. É que as pessoas desaprenderam a ser simples a a fazer sites simples. Dagmar (28/10/2009 - 14:32) Opa, já estou usando em mais um projeto meu. http://www.fuijogar.com.br Catarina Maria (30/10/2009 - 16:08) Obrigada pela orientação. Catarina. paulo (03/11/2009 - 16:38) Desenvolvedores e designer .. começem a usar esta ferramente em seus aplicativos de web... ajudando as pessoas se atualizarem tambem vendo seu próprio material.... gabriel (06/11/2009 - 09:32) Gostaria de saber se tem uma barra para colocar em sites https:// pois colocando essa http:// no site, quebra a segurança do site obrigado Muito boa a iniciativa. Marlon Assunção (14/11/2009 - 12:23) muito boa iniciativa! vai ajudar tanto. kk (18/11/2009 - 01:17) Não gostei, está tudo errado, eu uso o que eu quero e não os que os outros usam. O profissional que não tem competencia entra nesta campanha absurda. Profissional competente é aquele que vai saber resolver isso seja com *.png 32 ou gif transparente, mas resolva isso. Aquele que se deixa levar pela facilidade é uma mala sem alça. Sou profissional na área de design e não tenho nada contra o ie6.0 quando está com suas atualizações em dia. Já não bastou a vergonha do tão falado firefox tranqueira que perdeu feio para o internet explorer sobre falhas de segurança. Se me lembro foi feito este mês o teste: Os resultados foram: firefox 45% de falhas safari 35% de falhas ie 15% de falhas opera 5% de falhas Até mais para os bons (18/11/2009 - 01:21) Site com bug no script Montano (26/11/2009 - 09:15) Parabéns pela campanha. Realmente algo muito, muito útil Marcelo (26/11/2009 - 16:40) Excelente iniciativa! Discordo com o comentario de alguns sobre a eliminação de IE de vez, nada pessoal, e convenhamos que o IE 8 esta bacana. Espero que nao me levem a mal hehe! Helton (01/12/2009 - 15:07) Já tenho em meu site, apoiado 100%! carla da silva schmid (04/12/2009 - 17:10) o mais rapido possivel a jato em tudo mesmo estou precisando que isto seja resolvido mesmo gente o navegador para minha vida hoje e minha salvaçao e de todos Vanderlei Mendes (06/12/2009 - 23:16) Todo navegador tem suas vantagens e desvantages. A milhares de teste que provam isto e o mais importante, os testes também comprovam que todos os navegadores tem de ser atualizados. Mas vamos lá pessoa aderem esta campanha pois ter gente ainda usando o IE6 é demais. Rangel (07/12/2009 - 17:49) podia ser TODAS AS VERSOES do IE. O Internet Explorer 7 por exemplo continua horrivel e nao suporta nada :D GILBERTO SAUGEN (08/12/2009 - 18:05) O Brasil não é um país democrático? Então, por que diabos não posso seguir com meu velho IE6? Outro brouser mais atualizado é mais pesado! Não estou interessado! Por favor, parem de pressionar! Henrique (06/01/2010 - 17:17) Um amigo lá encima falou sobre o simbolo do firefox ser maior, e porque sem sombra de duvidas o melhor amigo dos desenvolvedores e o firefox. por isso a campanha friza o mozilla. muito boa a ideia da campanha já fasso parte!!! Neylor Leandro de Sousa (07/01/2010 - 08:51) Valeu pela iniciativa. Podem contar comigo! Sergio Ronei Hentz (11/01/2010 - 11:26) Na minha empresa estamos utilizando em todos os sites desenvolvidos. Apresentamos o script para a direção e adoraram. Muito útil! Valeu I-masters. Parabéns!!! verislayne Camilo Ferreira Dias (11/01/2010 - 16:32) To dentro adoreeiii .... Parabéns... Larissa (11/01/2010 - 19:51) EUU AMEII TD ISSO!!!!TO DENTRO TAMBÉM....PARABÉNS² Tathyane (11/01/2010 - 23:59) Eu ameii isso!!! To dentroo também.P.A.R.A.B.E.N.S Matheus (12/01/2010 - 15:39) Se extinguissem o IE6 seria uma maravilha para nos webdesigners. Eu apoio!!! Alex (16/01/2010 - 23:04) Otima iniciativa...mas na resolução de tela em 1336x768 (notebook) o Ie na barra de atualização DESAPARECE por favor corrijam. Muito obrigado em advanced!!! kkk Jose Malcher Junior (18/01/2010 - 00:44) Ja coloquei no meu site de ponta a ponta!! muito boa iniciativa! Abraços Filipe Moreira Machado (18/01/2010 - 03:00) Na minha empresa Lordpixel estamos utilizando em todos os sites desenvolvidos. Vamos Apresentar o script para a direção de cada projeto para ser aprovado =) Muito útil! Valeu I-masters. Parabéns!!\\\"¹²³ Rosa (23/01/2010 - 10:16) olha ja tentei baixar outro navegador mas, a IE nao deixa ela traxa.Por favor se poderem me ajudar eu agradeço!!! Thurg (25/01/2010 - 08:05) Amem alguém teve a iniciativa de fazer um bem pra umanidade.. xD Julimar Falconiere (25/01/2010 - 10:15) Ja participo da campanha e indico a meus clientes participação. O IE6 é um problema do ponto de vista da segurança e do design, é complexo compreender quantas exigências e métricas para os programadores e designers, em relação ao desenquilíbrio dos navegadores. Nos programadores e gestores de sistemas que deveriamos criar as métricas para estes sistemas falhos de navegação na internet e exigir um padrão de mercado. Excelente iniciativa da IMasters, parabéns. almir (25/01/2010 - 15:58) sera q dava para por outro char almir (25/01/2010 - 15:58) sera q dava para por outro char almir (25/01/2010 - 15:58) sera q dava para por outro char Renan Spolon (27/01/2010 - 22:49) Que tal botar o Maxthon nessa camapnha? www.maxthon.com Reginaldo Rosa da Silva (28/01/2010 - 08:56) Bom dia, gostaria de saber o e-mail do RH da empresa para poder enviar meu currículo, trabalhei em obras na Espanha. Atentamente Reginaldo val (03/02/2010 - 00:33) ta atualizado legalllll (03/02/2010 - 19:42) Airton Silva Pereira (04/02/2010 - 12:49) Rapidez, e atualização é o que preciso. Ednei Nogueira (06/02/2010 - 20:19) Vamos juntos derrotar a força negra deste planeta. dmb sites (08/02/2010 - 09:07) isso resolve!! ;D var browserName=navigator.appName; if (browserName==\\\"Mozilla Firefox\\\") { //nao faça nada!! } else { if (browserVer >= 6); if ((browserName==\\\"Microsoft Internet Explorer\\\")&&(Version>=6) var Version=navigator.appVersion;) { alert(\\\"TA NA HORA DE ATUALIZAR SEU NAVEGADOR - instale Mozilla Firefox!\\\"); location.href=\\\"http://www.mozilla.com.br\\\"; } } aew galera. Cristiano Vieira (09/02/2010 - 15:51) IE6 = POG Tal Lieven (09/02/2010 - 17:58) Eu amava!! Colocava em todos os meus sites, mas achava melhor quando ele só aparecia para quem estava usando o IE6. Não vejo nenhum problema do ponto de vista do programador, em usar as versões posteriores como o IE7, mas agora a barrinha começou a aparecer em qualquer versão do navegador, que não seja a última. Para quem tem o código em todas as páginas do site, fica muito chato! Se houver algum outro código que só apareça para o IE6, eu gostaria de ser informada! Obrigada! Programador (11/02/2010 - 08:52) Isto é coisa de programador preguiçoso, que não tem paciência para depurar seus programas, que pega tudo pronto da Internet, copia e cola código de fórums ou exemplos, pois mal sabe ler e escrever, quanto mais digitar. Limitar tipos diferentes de tecnologia é assinar a sentença de morte! A Internet é livre e deve continuar livre!! Quem não souber programar, que aprenda ou pague para alguém que saiba. Eduardo (11/02/2010 - 10:55) É pra vcs verem querem tirar o explorer de qualquer jeito do mercado, mais não sei porque muitas empresas que criam sites como essa que vou postar o link abaixo o site deles nem abre no firefox só no explorer, será que eles tem alguma coisa contra a raposa? kkk, e olha que são fenomenais no que produzem em questão de web. obs : para abrir o site clique no boneco fazendo sinal de negativo. Abraço a todos Opa desculpa pessoal, esqueci de colocar o link : http://www.neostream.com (12/02/2010 - 01:24) Júnior (12/02/2010 - 08:10) Tenho certeza que boa parte desses \\\"defensores\\\" são os mesmos que há pouco tempo defendiam avidamente \\\"seu\\\" Internet Explorer e torcia o nariz pro Firefox. São pessoas que se acham que a monopolização da tecnologia e dos meios de comunicação é uma vantagem. Muito pelo contrário. A tecnologia só é vantagem se for baseada em padrões abertos e bem definidos e, principalmente, que os fabricantes, sejam grandes ou pequenos, os sigam!! É coisa de preguiçoso, que quer fazer seu código e nunca mais mexer! Programador (13/02/2010 - 22:57) Isto é coisa de programador preguiçoso, que não tem paciência para depurar seus programas, que pega tudo pronto da Internet, copia e cola código de fórums ou exemplos, pois mal sabe ler e escrever, quanto mais digitar. Limitar tipos diferentes de tecnologia é assinar a sentença de morte! A Internet é livre e deve continuar livre!! Quem não souber programar, que aprenda ou pague para alguém que saiba. Alyson Prado Wolf (16/02/2010 - 15:43) Olha, na verdade eu acho o IE 6, o IE 7 e o IE 8 um lixo. E como eu uso o Opera há anos, não me importo com qual a versão do IE que está lá instalado no meu PC. Eu só tenho usado o IE em dois casos: para usar o Windows Update e para abrir algum link que não consegui abrir no Opera. Logo, as falhas de segurança do IE6 me foram irrelevantes, pois o que me importava é somente naqueles dois minutos que eu precisava abrir um link no IE 6, queria que ele funcionasse. Como o meu navegador principal era o Opera, para que eu instalaria uma versão mais nova e pesada (apesar de mais segura) do IE, se eu praticamente não o usava? Infelizmente, apesar de muito tempo seguindo esse pensamento, hoje estou instalando o IE 8. A única utilidade que o IE 6 possuía, que era abrir alguns links para mim, se acabou, pois agora o IE 6 nem pra isso serve, está incompatível com vários sites. Portanto, dou o meu braço a torcer e dou adeus ao IE 6. Só cheguei até aqui com ele porque ele nunca foi o meu navegador principal. Betinho Silva (17/02/2010 - 20:05) Boaaaaa (19/02/2010 - 08:21) adriano (25/02/2010 - 15:49) Timão está em todos os coraçoes,Voando alto como os gaviões. Jonny (26/02/2010 - 12:41) Porra de timão o assunto aqui é ie ou raposa, gavião tá fora do assunto... seu zé ruela. Alexsandro Rosa de Mello (27/02/2010 - 21:58) Apesar de meu site estar corrigido para todos os navegadores, também aderi ao movimento \\\"Abaixo o IE6\\\" rsrsrs. Valeu e colocarei em meus próximos sites. Abraço e acessem, www.eupagoseulance.com.br Não atualize seu navegador se não quiser (01/03/2010 - 11:00) Sou contra. Não atualize seu navegador se não quiser http://doceangel.wordpress.com/2010/03/01/nao-atualize-seu-navegador-se-nao-quiser/ Lennon (01/03/2010 - 14:53) IE6Funeral.com luiz (04/03/2010 - 15:23) quero atualiza o navegado por favor. hugo (11/03/2010 - 19:07) nao costei do saite (11/03/2010 - 19:15) Maria Luiza (11/03/2010 - 22:06) O nazismo começou assim... Liberdade para usar o navegador que queremos! altair campelo (14/03/2010 - 10:34) é uma otima iniciativa, com as melhorias e o avanço tecnologico temos sempre que nos atualizar. Wellington Freitas (17/03/2010 - 09:23) NÃO TROCO MEU I.E. POR NENHUM OUTRO NAVEGADOR, NÃO VEJO MOTIVOS PARA ISSO, PORTANTO, SE QUEREM UM SISTEMA EFICAZ E COM SEGURANÇA USE SISTEMA OPERACIONAL ORIGINAL, TIVE FAZENDO UMA PESQUISA E 45% DAS PESSOAS QUE UTILIZAM BROWSER QUE NAO SEJA I.E., É WINDOWS PIRATA, PORTANTO ALEM DE USAR O WINDOWS PIRATA, AINDA SENTEM O DIREITO DE RECLAMAR DOS PRODUTOS. WELLINGTON MCP / MSDBA / MSCE everaldo jose da silva (17/03/2010 - 11:16) PREVISÃO DO PAGAMENTO.POIS A NOTA JÁ FOI ENVIADA A MAIS DE UM MÊS. Meu Fusca e eu (23/03/2010 - 14:29) Quer dizer que vocês querem que eu não ande mais de Fusca por aí!? Marcelo Idiarte (25/03/2010 - 03:50) Wellington Freitas, meu caro, não vou nem perguntar como você fez a sua \\\"pesquisa\\\", porque certamente ela não se enquadraria no que se entende por pesquisa a partir de metodologias científicas. Não há a menor relação entre falhas de segurança e sistemas operacionais pirateados, tanto que a provedora do Ruindows lança as infinitas correções das suas infinitas brechas é para os sistemas originalíssimos mesmo. O Ruindows XP tem 3 Service Packs editados e mais uma centena de correções individuais pós-SP3. Ruindows Vista idem: já tem 3 SPs, sendo que este lixo operacional tem apenas 3 anos de vida. O Ruindows 7 mal foi lançado e nas primeiras semanas já se descobriu falhas gravíssimas. O Internet Explorer, na esteira desses sistemas, é um queijo suiço de tantos buracos e de tanta inconformidade técnica com as normas e padrões atuais da web. Acho que você não entendeu direito o objetivo desta campanha... Talvez porque nunca tenha tentado desenvolver uma linha de programação voltada a multiusuários. Falando no IE, cabe dizer que ele já foi ultrapassado na Europa, onde evidentemente as pessoas têm uma maior percepção de funcionalidade e segurança. É possível que isso se deva em parte aos governos da França, Alemanha e Holanda - que foram os primeiros a incentivar os cidadãos destes países a migrarem para o Firefox, em função expressa da preocupação com segurança. Mas este movimento, diga-se, ini
Atualize seu navegador Campanha para eliminar browsers antigos do mercado Desenvolvedores ainda perdem muito em produtividade devido a navegadores desatualizados, sem suporte às funcionalidades e tecnologias atuais para alcançar seus clientes, limitando soluções e criando dores de cabeça desnecessárias. O Internet Explorer 6.0 (lançado em 2001) ainda participa de 34% do mercado de navegadores*. É um browser que não acompanha o estágio atual da Internet, possui falhas de segurança e limita todo o potencial de uma Internet melhor para todos nós. Esta campanha é uma iniciativa para excluir navegadores desatualizados do mapa da internet do Brasil. Basta inserir o código abaixo em todos os seus sites e de seus clientes. Desta forma, para todo usuário que acessá-los utilizando navegadores desatualizados, será exibida uma barra simples, sem marcas, orientando o usuário a atualizar o seu navegador e falando da importância desta atitude (veja a barra em ação). Mais segurança para o usuário, mais liberdade aos desenvolvedores. * Fonte: http://www.thecounter.com/stats/2009/January/browser.php Faça a sua parte Ajude a tornar a Internet ainda melhor. Divulgue em seu website a faixa da campanha, avise os amigos. Cole o código na sua página Lembre-se que a barra só é exibida para navegadores antigos. Comentários cleber cesar (03/02/2009 - 18:02) aleluia! ate que enfim uma iniciativa realmente válida!!!! será que pode incluir nessa iniciativa, a eliminação do IE? Sérgio Mandrake (03/02/2009 - 19:39) é já era na hora de trocar pneu! Johnnathan (04/02/2009 - 12:13) caraca, fiz o mesmo no meu site... gente se puderem, divulguem bastante também o uso de pelo menos 2 navegadores. por ex: mesmo que o Firefox seja maravilhoso e o opera também e depois de instalados e atualizados, em certas paginas o leyout ou plugin não exetuca corretamente... se tentar pelo IE 6 ou 7 já funciona. \"Importante que tenham 2 navegadores atualizados\" espero que não me entendam mal, não defendo o IE, mas é q ele é fundamental para o funcionamento de muita coisa na internet. to com pressa, t+ gente! M. Paes (04/02/2009 - 14:03) tudo ficou genial! bom ver alguém de peso levantando essa bandeira. acabei de incluir a barra em 14 sites, e será um procedimento padrão agora. Pena ainda ter que manter o ícone do IE.... Esteban (05/02/2009 - 09:51) rs... eliminar o IE seria uma boa tb, mas o pessoal que teve esta ideia está de parabéns. Bom ano! Marcos_paiva (05/02/2009 - 13:39) Eliminando o IE6 já ta ótimo!!!!! Leandro Reis (05/02/2009 - 16:05) Muito boa a iniciativa eu apoio, mas a barra está em iframe e ao clicar no link a página para download aparece dentro da própria barra. Poderiam corrigir com target=\\\"_blank\\\"! Felipe Cardozo (05/02/2009 - 16:28) Muito boa a iniciativa. Mas esse script deixa o carregamento do site bem lento. Mas não deixa de ser uma boa idéia! Rafael Kuvasney (05/02/2009 - 17:42) Convença as agências a fazerem isso para o bem dos programadores Maria A. R. Fernandes (05/02/2009 - 23:11) Todos estes navegadores são muito bons. O único problema é que o IE6 não está atualizando para o 7! Até a Microsoft editou uma página exclusiva com instruções de como instalar; ou resolver este problema. Agora fica aquela dúvida no ar: \\\"Porque a Microsoft não lança um navegador melhor, assim como tantos outros existentes no mercado?\\\" kleber (06/02/2009 - 11:04) quando clico para fechar a barra esta dando um erro no javascript:window.parent.crossbrowser_hide(); valew Bruno (06/02/2009 - 22:43) Como alguém consegue usar um navegador sem abas ou guias? Daniel Amaral (06/02/2009 - 23:03) ATENÇÃO IMASTERS !!! No IE 6 (motivo da barra) ao clicar para fechar, está dando um erro -> javascript:window.parent.crossbrowser_hide(); Daniel Amaral (06/02/2009 - 23:10) ATENÇÃO IMASTERS !!! O erro acontece porque coolocaram um target=\\\"_blank\\\" no botão fechar. Elton (07/02/2009 - 05:21) Copiem o js e troquem por um target=\\\"_top\\\", e, para garantir, insiram um onclick=\\\"javascript:window.parent.crossbrowser_hide();\\\". Funciona, no meu funcionou. Vou colocar em todos os sistemas que administro, espero ter um grande impacto com isso. TAVA NA HORAAAAAAAAAAAAAAA!!! ;) Elton (07/02/2009 - 05:26) Aqui, só pra relatar, como sou um webmaster, necessito de vários browsers para testes, e, o unico internet explorer bom é o IE8, pode ter certeza. Atualmente uso: Firefox 3.0.6, Opera 10 Alpha, Safari 3.1, Chrome 1.0.1x e IE8.07, todos excelentes, e detalhe, Windows 7, uma vez que, meu pc não roda Unix, Linux ou Mac Ana Cristina Guimarães (07/02/2009 - 15:09) Só atualizar mas com tanto fraude na Net ficamos ate receioso de atualizar. MB (08/02/2009 - 17:52) porque não mudam de uma vez a tal campanha para USE FIREFOX? ja que a imagem do firefox é ligeiramente maior que a dos outros navegadores? a idéia é ótima, não fosse o patrocinio da mozzila corp e a ma fé eu iria aderir. Se a MS faz uma coisa dessas era uma chuva de freetards reclamando da ma fé de tio bill. Hélio S.M. (09/02/2009 - 15:29) Por eu ser um desenvolvedor uso todos os navegadores e sempre atualizados... o unico que sempre me da dor de cabeça no desenvolvimento é o IE, mas parece que pelo jeito o IE8 vai ficar bom, apesar de ainda nao passar no teste do acid3. Firefox 3, Opera 10 Alpha, Safari 3, Chrome, IE8 Alex (09/02/2009 - 22:39) Demorou!!!! Concorco 100% com a iniciativa. Marco Aurelio SIlva (10/02/2009 - 03:46) O blog dedodeouro.net apóia a idéia Jorge Pereira de Carvalho (10/02/2009 - 07:12) Preciso atualizar meu navegador,quando tento entrar no gmail ou orkut me bloqeia a pagina. Osky (10/02/2009 - 19:41) Realmente boa a atitude, porem a faixa deveria ser maior. Na minha opinião, deveria cobrir a metade da tela quando alguém acessar a página com essa trala. Diego (10/02/2009 - 22:06) Conheci a campanha pelo site da Universidade daqui da minha cidade. To participando já, coloquei no meu site. Blog EliteDosMestres.com.br está com o iMasters Henrique Viecili (11/02/2009 - 09:10) Que tal internacionalizar a barra tambem? Eu abri o site em inglês, cliquei na barra e ela apareceu em português... Qual a licensa desse código? eu posso modificar? Paulo Henrique (11/02/2009 - 14:31) òtima iniciativa. Já vou colocar em meu site e blog. Abraços. Deus abençõe a todos! Santaum (11/02/2009 - 16:38) Excelente iniciativa. Já adotei nos meus sítios. Fernando de França (11/02/2009 - 22:53) Parabéns pela iniciativa! alex oliveira de matos (12/02/2009 - 17:42) Peço oraçao aos irmaos , pois preciso , na area espiritual e sentimental. A Paz do Senhor Patricia Gil (12/02/2009 - 22:06) Aee todos juntos nesta campanha ^^ Raisa (13/02/2009 - 10:55) Muito legal mesmo Juan (16/02/2009 - 15:41) Otima iniciativa..! TO DENTRO!!! Weslley Aguiar Dias (18/02/2009 - 09:52) \\\"alex oliveira de matos (12/02/2009 - 17:42) Peço oraçao aos irmaos , pois preciso , na area espiritual e sentimental. A Paz do Senhor\\\" Seria este site um site de desenvolvedores ou um site de relacionamentos pras pessoas postarem como estão se sentindo. aff.. ¬¬ FalaSério né NULL (18/02/2009 - 12:25) É interessante como alguém coloca sua marca na internet e promove conteúdo inadequado sobre um produto de uma outra empresa sem ter fundamento concreto. Parém de dizer bobeira ou promover qualquer tipo de conteudo sobre influencias que aparecem na web. Façam pesquisa, estudem o mercado, veja reais soluções e assim que tiver um embazamento, não faça burrice. Grande abraço Rodrigo Camara (19/02/2009 - 17:55) Se isso der certo, aumento minha produtividade em uns 60%, só de não ter que gastar tempo criando \\\"hacks\\\" pra essa porcaria..Abaixo ao IE6!!!!!!!! Ronilson Paz (22/02/2009 - 18:37) Posso usar o script de vocês se houver duas modificações: a) Se a barra aparecer quando a página for aberta com o Internet Explorer (em qualquer versão); e b) Da relação dos navegadores para baixar, que seja eliminado o ícone do Internet Explorer. Fui! Leandro Nobrega (22/02/2009 - 23:24) O FIM ESTA PRÓXIMO!! Ronaldo Spilmann (25/02/2009 - 06:37) ahh que sonho se todos usassem navegadores atualizados.... parabéns Imasters por essa iniciativa!!!! Jefferson Ferreira (26/02/2009 - 10:10) Muito boa essa campanha, vou atualizar todos, vlw Imasters. Raphael (26/02/2009 - 14:21) essa barra em site feito em flash fica atrás, como q se resolve isso? Sávio Lima Lopes (26/02/2009 - 17:03) Acho interessante essa campanha. Mas será que não podemos ir além de atualizar browsers, investir também no desenvolvimento de sites segundo os Padrões Web (Web Standards - http://www.w3c.br/) e também desenvolver sites otimizados para qualquer navegador(http://www.anybrowser.org/campaign/anybrowser_br.html)? Francisco (27/02/2009 - 08:21) Muito bom. Já instalei nos meus sites/blogs. Abração! ;) Geovane Teske (27/02/2009 - 16:41) Ótimo, muito boa a iniciativa. Só acho que o Internet Explorer poderia ser excluir da lista pois é péssimo para quem desenvolve site. É um lixo ter que fazer cachorrada(gambiarra) para poder fazer funcionar nessa porcaria de IE enquanto os demais navegadores funcionam corretamente. Navegador padrão: Google Chrome! Anderson Kaminishi (02/03/2009 - 01:07) ja viram que nhaca fica a home do imasters no iPhone e iPod touch? acho q o defeito esta no css... Guilherme Lima (03/03/2009 - 09:29) @guilhermelima apoia a atualização de browsers!!! e vc? Sergio de Andrade (03/03/2009 - 13:55) HAUAHA, BOUA !! MORTE AO IE6 ! helioth (05/03/2009 - 20:29) Aderi a campanha ^^ Bela iniciativa!!! Ricardo (06/03/2009 - 00:26) Já coloquei o script nos 2 blogs o meu e o da Handcase André Baptista (06/03/2009 - 09:56) Parabéns pela iniciativa, estou cansado desse IE6. O IE7, não me desce muito não, mas tirando o IE6 de linha já é um ótimo passo :D Eu preferia fazer os sites não carregarem caso o usuário estivesse acessando com o IE6 e aparecer mensagem para atualizar, mas isso é uma questão muito delicada... já estou incrementendo em meus sites. []\\\'s Ericson Sobrinho (06/03/2009 - 16:44) É isso aí! eu (07/03/2009 - 09:26) Pega Na Banana Yudi Kondo (07/03/2009 - 23:13) Meus sites, e de clientes ja estão usando o script. hehehe chega de ie6 =] Yudi Kondo (07/03/2009 - 23:16) showw de iniciativa meus sites e de meus clientes ja estao usando... vlw chega de ie6 paulo (10/03/2009 - 14:22) Como pode alguem ainda ser conivente com isso... - isso nao é campanha e sim oportunismo. - atualize seu navegador ou troque seu navegador? pq nao dizer as coisas como sao realmente? a logo do explorer é a ultima e a do firefox é a primeira e bem maior que as demais, sera que nao estou enxergando bem? - um designer nao deve se meter ou induzir o publico referente a escolha de seu navegador, isso é algo que ele deve decidir por si so e naturalmente... ficam dizendo que o \\\"explorer deve acabar\\\", pra que? pra ele ter menos trabalho? isso nao existe, um projeto deve ser desenvolvido para atender todo o publico, vc nao pode querer impor o navegador que vc quer. - linux, mozila e outras empresas enchem a boca para acusar a Ms de monopolio, sendo que elas mesmas tb querem monopolizar todo o mercado dando uma de bonzinhos e de que pregam a liberdade. Vanderlei Mendes (10/03/2009 - 16:21) Quanto ao comnetário do paulo (10/03/2009 - 14:22): Paulo para você ter idéia a própria microsoft deseja que todos os seus clientes também mude do IE6 para o IE7. Se você fizer os updates da empresa vai perceber que há uma especificamente alterando o IE6 para IE7. Quando você continua a usar software sem as devidas atualizações é você que será prejudicado. Afinal é o seu software que se tornará inseguro e instável. Não dê bronca, se informe, se atualize. Vanderlei Mendes (10/03/2009 - 16:25) Pessoal que criou o código, programadores, o link para baixar o IE7 está quebrado. Poderiam por favor corrigi-lo? http://www.microsoft.com/brasil/windows/downloads/ie/getitnow.mspx Willian (10/03/2009 - 16:59) Muito boa ideia eu vou colocar esse codigo nos meus sites. muito boa ideia mesmo.. Parabéns. Chega de I.E das antigas. Tiago (10/03/2009 - 17:05) Estou divulgando.. Boa iniciativa!!! Wellington da Mata (13/03/2009 - 09:27) Achei essa idéia muito boa, vou colocar essa barra no meu site e em meu blog, só gostaria de saber se não tem uma versão sem o link para o IE, eu detesto esse navegador e não gostaria de recomenda-lo a ninguém. Muito Obrigado! Lucas Santos (13/03/2009 - 12:18) Sou a favor do atualização dos browsers, pois realmente quando desenvolvemos um site lindo com css e vamos ver em navegadores antigos, acabamos nos frustrando, em minha máquina utiilizo, IE, 8, Firefox 3, Opera 9.5, Safari 4 e o Chrome. Acho obrigatório a utilização de navegadores atualizados, até porque fica tudo mais bonito e funcional. Abraço a todos Lucas Santos Diego (13/03/2009 - 13:43) Aqui no meu, quando cliquei pra alterar o idioma bugou e voltou pro português.. Sei lá. sei lá.. Jay (14/03/2009 - 10:40) Olá galera muito legal a campanha do imasters aprovo inteiramente esta campanha maravilhosa, ainda são muitos os usuários que ainda usam browser\\\'s antigos, parabenizo a imasters por esta iniciativa Palavras de Osho (15/03/2009 - 02:13) Adorei e aderi! Meu blog tava enfrentando dificuldades com o IE6. Obrigado! Paulo (16/03/2009 - 01:34) Gostei muito da iniciativa, só não irei inserir em meu website pois ali diz que só é exibida para navegadores antigos, o que não é verdade. Utilizo FireFox 3.0.6 e ela é exibida em vários websites que visito. Andreh Poffo (16/03/2009 - 10:01) ótima campanha, parabéns, eu concordo plenamente com ela.. Navegador Padrão: Google Chrome Email Padrão: Gmail Mensageiro Padrão: Google Talk OS Padrão: ? :D Google OWNZ Canal Adobe Photoshop (17/03/2009 - 11:50) Acho uma excelente iniciativa. Já inseri o código em meu blog. abraços Bruno (18/03/2009 - 06:44) Adorei a iniciativa e já aderi, espero que muitos sites coloquem esse código tbm... Parabéns!!! Artinfo (20/03/2009 - 09:06) Tem que atualizar mesmo ! ronaldo (20/03/2009 - 10:11) não funciona em versões antigas do firefox NoelReis (21/03/2009 - 21:23) Sites que não funcionam no Firefox merecem ser removidos tal qual o Internet Explorer 6 e os programadores devem retornar aos estudos. Aliás o Bradesco Empresa está nesta situação... protestem também contra o Bradesco Empresa e peçam que os desenvolvedores voltem aos estudos. Admin Trancelucent (22/03/2009 - 12:46) Muito Bom...Ótima Iniciativa...Adorei... Já Estou Participando Da Campanha... Gustavo manso (23/03/2009 - 15:18) Podia passar pro IE 8 logo. Melhorou do 7 pro 8. Sergio Inglez (23/03/2009 - 20:57) Assino em baixo essa iniciativa... e podem contar comigo para divulgar... pois para nós desenvolvedores é muito ruim ver nosso trabalho todo deformado por causa de um sistema desatualizado... recomendada essa iniciativa! C. Almeida (25/03/2009 - 17:02) Estou nessa também pessoal. Inclusive vai me ajudar muitoporque meu site fica horrivel no IE6...uma vergonha. Mas a culpa não é da Microsoft, a culpa dos usuários que não tem conhecimento ou não fazem a atualização do navegador. C. Almeida (25/03/2009 - 17:02) Estou nessa também pessoal. Inclusive vai me ajudar muitoporque meu site fica horrivel no IE6...uma vergonha. Mas a culpa não é da Microsoft, a culpa dos usuários que não tem conhecimento ou não fazem a atualização do navegador. Audren Cezar (25/03/2009 - 21:22) Acho que saiu é versão final do IE8!!! http://www.microsoft.com/downloads/details.aspx?familyid=341C2AD5-8C3D-4347-8C03-08CDECD8852B&displaylang=pt-br OU http://www.microsoft.com/brasil/windows/internet-explorer/default.aspx Acredito que esteja melhor que o 7, troca o link pra ele plis *_*... Carlos (26/03/2009 - 17:50) Alguem poderia postar ai como posso por essa barra em um site PHP-NUKE 8.0? Valeu. MORTE AO IE! Firefox comanda! Leonardo Moreira (28/03/2009 - 17:23) Muito bom, já estou usando em todos os projetos, atualmente ja tem em 15 sites que desenvolvi. Porem o acesso ta ficando muito lento por conta, fica a critica construtiva ai. Francine (29/03/2009 - 15:22) Só hoje tomei conhecimento dessa iniciativa de vocÊs... Alguns meses atras criei uma comunidade no orkut! \\\"Aposentem o internet Explore 6!\\\" Acredito que o orkut é um dos melhores lugars para a divulgação aqui no Brasil devido o excesso de gente que usa... o link: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=80589977 quem poder entrar na comunidade ja estara ajudando Clayton (29/03/2009 - 21:46) O site está desatualizado... Nos links de download, o do Internet Explorer não aponta para a versão mais nova... William (30/03/2009 - 13:03) A campanha é boa mas ela está \\\"forçando\\\" contra o IE de uma maneira sublime...e isso é coisa de amador!!! Depois ficam falando mal da Microsoft..vcs estão agindo de forma semelhante TreedBox.com (31/03/2009 - 12:38) A www.treedbox.com já esta na campanha também Quanto mais desenvolvedores e Designer nacionais aderirem mais forte será a campanha nós da Treed Box paramos de brigar com o IE6, não por incapacidade mas por estar muito obsoleto \\\"Mas ta meio estranho o site\\\" Atualiza ué! Quem não atualiza vive reclamando que esta cheio de virus, devido a vinerabilidade do IE6 Valeu imaster, abraço a Todos Eduardo Castro | www.eduardocs.com (31/03/2009 - 15:37) IE6 está obsoleto, não atende mais as técnicas de XHTML e CSS .. melhor para TODOS é a migração, atualizarem seus navegadores .. assim o mundo ficará melhor. www.eduardocs.com Lucas Fernando (31/03/2009 - 15:52) * Nova campanha: Ao notar que um usuário (próximo de você) ignorou o aviso de instalar um novo browser, DÊ PAULADAS NO MONITOR do individuo, se ele reclamar fala que foi pra matar um vírus. Lucas Fernando (31/03/2009 - 15:54) E digo mais, www.jogosrox.com entrará na campanha nas próximas horas. Alex Batista (04/04/2009 - 22:29) A ideia deve ser mais propagada. Deve ser adotado. Já lançaram a útilma versão do IE 8 e justificam sendo o browser mais rápido da atualidade. Precisamos de browsers completos. A Microsoft insiste em ser o primeiro em tudo, até nos erros. Parabéns pela iniciativa e grande ideia. Geraldo (05/04/2009 - 11:52) O Blog do Pharis (http://pharisfaces.blogspot.com) também entrará nesta campanha. Abraço Rafael Librenz (07/04/2009 - 22:23) A iniciativa é louvável! Mas não teria como fazer todo o conteúdo descer \\\'x\\\' pixels quando a barra é ativada? (onde \\\'x\\\' é a altura da barra, em pixels) Fica ruim se a barra ficar NA FRENTE do conteúdo do site, escondendo o menu, por exemplo. Eu acho que é ruim obrigar o visitante (mesmo este estando usando o IE6) a encontrar o botão que oculta a barra para poder ver o que está no topo da página, atrás dela. Thiago S. (11/04/2009 - 07:51) O PortalFamaMG também aderiu a campanha.O IE6 deve ser eliminado.Abraços. Felipe (13/04/2009 - 04:09) otima campanha, jah esta add no meu site! Agora vamos fazer outra: Campanha ACABE COM O INTERNET EXPLORER! Juliano (14/04/2009 - 11:26) A página da Faculdade de Engenharia Química adotou a campanha de vocês. O IE6 anda atrapalhando o desenvolvimento de aplicativos web para a faculdade. Obrigado pela iniciativa! Juliano (14/04/2009 - 11:27) A página da Faculdade de Engenharia Química adotou a campanha de vocês. O IE6 anda atrapalhando o desenvolvimento de aplicativos web para a faculdade. Obrigado pela iniciativa! PotHix (15/04/2009 - 16:47) Æ!! Criei um plugin para Wordpress que usa o CrossBrowser como campanha principal. http://wordpress.org/extend/plugins/anti-ie6-army/ Só jogar ele no seu diretório wp-content/plugins e você já terá o crosbrowser ativo no seu blog! ;) Mais informações: http://pothix.com/blog/anti-ie6-army Há braços Osni Passos (16/04/2009 - 15:21) Opa, Para Wordpress tem um plugin pronto no site: http://marcelorodrigo.com/wordpress-plugins/internet-explorer-6-upgrade É de um amigo de longa data, testado e aprovado. Reginaldo Lima (20/04/2009 - 12:30) Já aderimos à campanha www.minimalist.com.br Severino Pereira da Silva (20/04/2009 - 21:32) Ao invés de querer contaminar os municípios com depósitos de criminosos de todos os tipos, o governo precisa isolar a construção desses presídios em locais ermos(tipo ilhas).Ou as autoridades tomam tenência contra a impunidade, ou não leva muito tempo, estão invadindo os palácios, para matar, furtar, estuprar, etc... Renan (20/04/2009 - 23:36) www.comoquefaz.com também. Rubens (21/04/2009 - 23:26) tudo tá evoluindo e ainda tem pessoas que fica para traz, se ninguém se atualizar o mundo fica para traz e as coisas fica complicada. www.galerarox.net lkfoury (22/04/2009 - 18:27) Já era mais do que tempo!! Para se ter uma ideia da peleja, mantenho um IÊca 6 na máquina só por conta de ajustar meus sites antes de colocá-los \\\"no ar\\\"! Um saco!! E quando \\\'desconfigura\\\' tudo!? Ai é refazer quase tudo do zero! buááá!! Vamos ver se o povo entra numa e adere rápido! E parabéns a campanha, que a idealizou e quem esta aderindo! Sucesso a todos! lkfoury pauli (26/04/2009 - 21:44) e um programa de baixa qualidade pois eu tenho no meu pc e e so entrar no orkut que da pau ;o explorer eu abro ate quatro portas e nao trava nenhuma essa porcaria trava toda hora .e so querer saqir do orkut e la vem pau de novo queremos deixar o explorer mas a hora que aparecer um navegador que preste se4 nao nao vale a pena ,melhorem muito mas muito mesmo ai quem sabe vcs serao a altura do explorer;e olha que a minha veraso e a 5.1, Renato Westphal (27/04/2009 - 18:19) Ótima campanha! Douglas Miranda (28/04/2009 - 11:58) Com certeza uma iniciativa maravilhosa. Parabéns IMASTERS. Nós da BUZZACTION - Marketing Interativo apoiamos vocês! Fabiano (28/04/2009 - 17:47) @William ninguem está forçando ninguem a atualizar o navegador, estamos apenas sugerindo isso. O IE6 não segue nenhum padão de web atual e todos tem que se adequar ao padrão até o usuário final. Isso aconteceu com a telefonia celular, quando comecei era uma tal de \\\"Banda A\\\", com o tempo isso foi sumindo e virou \\\"Banda B\\\" e todos usuários tiveram que trocar de aparelho... agora pega seu Ericson de quase meio quilo e leva em uma loja e fala pra eles habilita novamente o serviço e exiga que funcione perfeitamente como nos GSM atuais. PS. Todos pagam pra troca de celular (diretamente ou indireatmente), mas ninguem paga pela atualização do navegador... então porque não fazer? wellington (30/04/2009 - 14:22) Quero Um navegar bom ... jack (04/05/2009 - 08:03) Deixei de dormir várias noites por culpa do IE 6 e versões inferiores. Navegador fdp Joel Wallis (04/05/2009 - 11:36) Interessante. Vou juntar-me a campanha. :) Rodrigo Gonçalves (04/05/2009 - 16:55) Excelente Campanha estou colocando nos sites dos meus clientes ... igor (07/05/2009 - 15:50) se o seu browser nao que entrar de pauladas no seu computador e depois taque fogo Fábio Novais (08/05/2009 - 20:49) Galera, vou aderir a esta campanha também, colocando o script em meus sites. Tinha um outro script no www.updateyourbrowser.com que só aparecia quando o usuário estivesse usando o IE6. Acho que seria uma boa fazer isto com este também, já que o do update... tinha somente aquele barrinha amarela, tipo do activeX, parecia um vírus. André de Pádua (12/05/2009 - 18:57) Só tem um problema, nas páginas que coloquei, ele demora muitooo para carregá-las, pois fica buscando no servidor do imasters/uol. Mas no mais tudo ótimo, o negócio vai ser copiar o código fonte pro pc e deixar rodando no servidor junto com o site, mas quando tiver atualizações vai ser o foda! :D R.Rodrigues (13/05/2009 - 21:49) Taí uma iniciativa boa com uma boa causa. E a gente só sai ganhando atualizando. Eu recomendo o Firefox 3, o Chrome 1.0 e uso o Opera 9.6; vale a pena usar esses browsers. O Não pise na parede tá dentro : naopisenaparede.blogspot.com Adolfo Augusto de Mattos (14/05/2009 - 13:46) Meu Blogfolio entrará na campanha por um Browser completo. Liberdade no Design e Programação para nós desenvolvedores! Edivan de Castro (14/05/2009 - 15:24) É a isso morte ao IEca6. o site da macavi apoiará a campanha. sabe pq o IE6 ainda sobrevive? pq ele vem integrado ao XP e os usúarios preguisosos tem preguiça de instalar um navegador decente. Supercalifragilistico Espialidocious (15/05/2009 - 09:25) Que isso, vocês estão reclamando muito... Eu gostava do IE3, Netscape na época do navegador marítimo. Nesse tempo era necessário mais criatividade com menos ferramenta, hoje temos mais ferramenta e menos criatividade... Mas é fato, se vamos atualizar que seja para melhor e PADRONIZADO. Web Kit na véia... dailton arruda (15/05/2009 - 20:21) não posso dizer nada, ainda não o conheço 281 (16/05/2009 - 05:55) eu gosto do ie6 Nylson (16/05/2009 - 11:31) Muito boa a iniciativa. Mas esse script deixa o carregamento do site bem lento. Mas não deixa de ser uma boa idéia![2] Aliás, uma ótima iniciativa do Imasters!!, não é a toa que o forum também é uma referência para desenvolvedores WEB... MORTE AO IE6... Matheus Furtado (25/05/2009 - 10:53) Que o IE6 vire pó de uma vez, fdp, sempre tem uma coisa pra ficar errado no layout... Já adotei a campanha. Morra IE6, morra!! =) carlos (27/05/2009 - 12:23) prezados, estou tentando colocar no site que eu montei, mas não está aparecendo... alguém pode me ajudar? Vinícius Alves de Oliveira (28/05/2009 - 10:00) A resposta para quem questiona o motivo da Microsoft não lançar um navegador melhor como todo mundo é a quantidade de sistemas corporativos baseados em windows que rodam em versões desatualizadas do windows e por sua vez com navegador desatualizado. Um exemplo disso são os sistemas de governos em geral e orgãos públicos onde a maioria dos funcionários e até os gerentes dos escritórios associam a idéia de internet ao ícone azul. lucas (29/05/2009 - 09:17) muito bom!!! todos devem ganhar!!! so um genio para criar isto!!! ricardo (30/05/2009 - 21:06) opa, vou fazer essa campanha.. valew galera Luma (01/06/2009 - 08:31) Entrando para a campanha e divulgando no blogue http://luzdeluma.blogspot.com pt-BR (02/06/2009 - 01:20) A campanha é válida tirando a parte de tentar impor ff ou qualquer outro browser (o que não é uma prática muito profissional). Quem decide o que usa (sendo burrice ou não), é o dono da máquina e não um desenvolvedor de sites. Por muito tempo continuaremos desenvolvendo para muitos browsers diferentes. Agora uma proposta: que tal aderirem também à campanha eu sei escrever? Tem ALGUNS(para deixar claro que não são todos), pretensos \\\"Desenvolvedores\\\" que não conseguem nem passar idéias através de um simples texto, a coisa vai degringolando e no fim nada se entende do texto. Pelo amor de Deus, isto denigre a classe de desenvolvedores. Não somos analfabetos e para ser desenvolvedor não basta apenas se dizer que o é, é preciso estudo. se você não sabe escrever sem erros como programa ou desnvolve algo?! E mais, como se comunica com o cliente por e-mail?!?! E geralmente quem escreve mal costuma falar também... E não me venham dizer que uma coisa nada tem a ver com outra...Assumam a campanha eu sei escrever e sejam felizes!! http://euseiescrever.blogspot.com/ pt-BR (02/06/2009 - 01:21) A campanha é válida tirando a parte de tentar impor ff ou qualquer outro browser (o que não é uma prática muito profissional). Quem decide o que usa (sendo burrice ou não), é o dono da máquina e não um desenvolvedor de sites. Por muito tempo continuaremos desenvolvendo para muitos browsers diferentes. Agora uma proposta: que tal aderirem também à campanha eu sei escrever? Tem ALGUNS(para deixar claro que não são todos), pretensos \\\"Desenvolvedores\\\" que não conseguem nem passar idéias através de um simples texto, a coisa vai degringolando e no fim nada se entende do texto. Pelo amor de Deus, isto denigre a classe de desenvolvedores. Não somos analfabetos e para ser desenvolvedor não basta apenas se dizer que o é, é preciso estudo. se você não sabe escrever sem erros como programa ou desnvolve algo?! E mais, como se comunica com o cliente por e-mail?!?! E geralmente quem escreve mal costuma falar também... E não me venham dizer que uma coisa nada tem a ver com outra...Assumam a campanha eu sei escrever e sejam felizes!! http://euseiescrever.blogspot.com/ Diogo Barioni Abdalla (04/06/2009 - 19:17) Estamos na campanha: http://www.alfaiataria.net Rodrigo Dionízio (05/06/2009 - 09:19) estou nessa sem questionar... Pablo Luz | www.pabloluz.com.br (06/06/2009 - 19:08) Mais um apoiador. Parabéns pela iniciativa! luciene silva (07/06/2009 - 18:39) estou esperando respostas de voces gosto muito das roupas. jonas (11/06/2009 - 12:32) poow como assimm agente ñ pode navegar som segurança agora tem que fazer cometátio é poow quero resposta porra Joel Wallis (13/06/2009 - 07:32) E por quê o site da campanha não adere a campanha? Estou acessando pelo IE6, pois estou testando um layout nesse browser ridículo e decidi visitar o site da campanha com ele. Para meu espanto, não me foi sugerido nenhuma atualização. Everton Moraes (22/06/2009 - 14:36) A Fator X - Produções esta entrando na campanha... e todos os nossos clientes estaram se unindo em breve... www.fatorxproducoes.com.br Shows 11 9596-2649 andre (22/06/2009 - 20:25) atualizar o meu navegado Crysttyano (23/06/2009 - 21:37) Ótima iniciativa do imasters ja aderi e ja espalhei a novidade para todos os meus amigos desenvolvedores ^^ valeu gente Ricardo Macedo Martins (24/06/2009 - 08:39) Já aderí a campanha também: http://ricardomartins.com.br Jefferson (25/06/2009 - 12:24) O blog segredodedavi.blogspot.com já está na campanha só não acredito que o proprio site da campanha do imasters não está com o código . Deve se revisto isso... Amarildo (25/06/2009 - 15:01) To dentro e ja coloquei no meu blog. http://www.3a3iinformatica.com.br Vitor Melo (26/06/2009 - 14:41) http://juizos.com.br Ótima campanha, já estou dentro, embora meu site funcione no IE6 eu sou totalmente contra a sua utilização hoje, concordo plenamente com a campanha, alguns já devem ter percebido que o próprio site beta do http://beta.w3.org/ já não é compatível, faltava algumas empresas grandes como a google entrar nessa jogada também. Curiosidade...... a maioria do mundo fala, que não devemos obrigar aos usuários a atualizar nada, agora o plugin do flash é mega obrigatório caso vc queira ver alguns vídeos no youtube e ninguém reclama, nem mesmo o usuário. Não vamos ficar de braços cruzados, vamos lutar pela causa. Edilson Jason (27/06/2009 - 14:03) Olá, incluí o código da campanha em meu SHOPPING, mas acho que essa campanha já está fazendo efeito porque não encontrei nenhum ninguém que tivesse o IE6. Se alguém tive ai o IE6, por favor, entre ai em www.cliqueinformatica.com.br e veja se vai abrir o texto da campanha, se tiver com tempo me avise:edilson@cliqueinformatica.com.br E viva o chromo... Edilson da BIShost (27/06/2009 - 14:29) pauli... IE 5.1 caracas velho... é muito velho mesmo... Existe tanta coisa (navegadores) mais atuais por ai, mas se você está feliz assim!? Tem muita gente por igual a você!..., Gosta de sofrer. Carlos (30/06/2009 - 09:28) Infelizmente o pessoal se esquece que assim como no mundo offline, o usuário (diga-se consumidor) tem sempre a razão. Se ele usa um browser dito desatualizado, mas que funciona e o atende porque impor a ele essa mudança!? Segurança? Talvez ele tenha um bom antivirus e não se preocupe com o Browser. Vamos deixar de lado a mentalidade de programador e pensar em marketing, e não custa muito trabalhar uns minutos a mais e formatar a página para a leitura em outros browsers, inclusive para o IE 6 que está muito presente ainda. Sem ressentimentos! givaldo (30/06/2009 - 18:07) que massa Erick Nunes (01/07/2009 - 14:56) Tem como bloquear as pessoas que utilizam o IE 6 ?? para não acessarem o site utilizando esse navegador ??? pois atualmente apenas é exibida a faixa Inforce Internet Solutions (02/07/2009 - 20:33) Realmente o browser é um ponto crucial para os desenvolvedores web. Já passou da hora de todos os browsers serem compatíves e a Microsoft precisa parar de desenvolver Browsers ignorando os padrões da W3C. Abraços e Boa Sorte a todos, www.inforce.com.br. Walter Vieira (10/07/2009 - 19:05) Estou dentro...começo hoje mesmo. Victor Arcoverde (13/07/2009 - 16:37) Hahahahaaa muito legal isso!!! a partir de agora todos meus trabalhos terão essa barra!!! vamos dar boas vindas a nova tecnologia!!! viva a evolução!!! Marcio Leandro (13/07/2009 - 21:42) http://www.devone.com.br aderindo... Boa iniciativa. Melhor ainda seria eliminar o I.E. ;) Abraço a todos. Wash! (14/07/2009 - 23:49) Já aderi e digo mais, deveriamos mudar para todos os IE\\\'s [ahuehaeuh zuação] quem quizer ver, ai vai o meu ultimo site que entrou: www.ipbbalsas.org.br Ricardo (15/07/2009 - 14:29) Lógico que eu aderi. IECA6 nunca mais... por favor!!! Rafael Vergani (16/07/2009 - 14:00) www.rafaelvergani.com entrando na campanha. ... (17/07/2009 - 10:47) E os pcs que não da pra atualizar o windows nem o navegador va i te que aturar o firefox??? Leow (17/07/2009 - 16:57) http://papodebuteco.net/atualize-seu-navegador-morte-ao-ie6 ;D Eduardo Bertolucci (18/07/2009 - 10:31) Eu apóio essa campanha, porque de fato o IE6 é um problema para os Desenvolvedores, visando problemas com PNG Transparente e posicionamento de objetos. Em alguns trabalhos não compensa perder horas consertando, sim fazendo novamente, só para o IE6. -> Meu Blog - http://www.eduardobertolucci.com/blog Washington Ferraz (18/07/2009 - 19:32) Jáfaço parte desta campanha e estou implantando o código em todos os nossos clientes, é realmente um grande atraso ter de ficar desenvolvendo pra um navegador em desuso só porque poucas pessoas nao atualizam seu pc. A Microsoft deveria ser mais dinamica nesse quesito e de alguma forma forçar a todas estas pessoas a se atualizarem. allana (21/07/2009 - 09:56) é td de bom Anonimous (22/07/2009 - 19:46) Antes dessa campanha, pensem em desenvolver seus sites de acordo com padrões W3C, isso sim é importante e tem resultado. Por outro lado, esse tipo de campanha tem impacto de absolutamente 0 na socidedade em geral, e de qqer forma o IE6 só tem mercado pq é o padrão do XP, e só por isso mesmo (tanto é que o market share é extremamente similar). Com o 7 fazendo Sucesso, e por ser capaz de rodar bem nos PCs que usam XP hoje em dia, em breve o problema do IE6 seré resolvido. Ah! E atualizar o Flash não deixa ele mais pesado. Trocar pro Firefox pode aumentar muito o gasto de processamento e memória em PCs + velhos. Não ponho minha mão no fogo, mas acho que o IE6, em questão de leveza, só perde mesmo pro Chrome =P. Cassius (25/07/2009 - 21:40) Show de Bola a Campanha, parabens a galera q bolou a idéia!!! William (26/07/2009 - 23:23) Bom, procuro desenvolver códigos compatíveis até com IE 5.5 por mais complicado que às vezes seja, mas com certeza esta campanha de incentivo a banir o uso do IE6.0 será bom para todos, especialmente para nós. E já que estamos falando em adequações, notei que a barra de sugestão não alinha todos os navegadores \\\"dentro\\\" dela. Talvez o pessoal tenha feito o teste só no IE8.0 mas o fato é que testei no Opera 9.6, no Firefox 3.0, no Seamonkey e em todos eles a barra aparece com Firefox e Chrome na barra e os outros quatro navegadores abaixo dela. Pra corrigir isto basta alterar a margem direita dentro do código javascript. Valeu. Trambulhao (28/07/2009 - 18:03) Peço, encarecidamente, a mudança do URL que atualiza o Internet Explorer. O link está apontando para a versão 7 (sistema XP) e poderia ser dirigido para a versão 8 (versão essa que passa no teste Acid2). Bom, melhor seria, em vez de apontar para a página de downloads da Microsoft fosse direto para a própria página do Internet Explorer. Assim a recomendação seria sempre para a última versão. http://www.microsoft.com/brasil/windows/internet-explorer/default.aspx Anderson (30/07/2009 - 11:14) Olá primeiro quero parabenizar pela iniciativa, estou deixando este recado para relatar um erro que tive em meu navegador apos colocar o script, quando fecho o navegador aparece esse erro: \\\"ie explorer.exe - erro de aplicativo\\\". Se alguem ja passou ou esta passando por este problema, favor relatar aqui para que junto podemos resolver este problema. marcelo (30/07/2009 - 13:32) é mora Ricardo vinicyus andrade ponte (30/07/2009 - 22:10) Quero mostra esse talento,que e meu filho de 6meses,de olhos azuis super sapeca. Ricardo vinicyus andrade ponte (30/07/2009 - 22:10) Quero mostra esse talento,que e meu filho de 6meses,de olhos azuis super sapeca. hudson (31/07/2009 - 09:53) por favor alguem me fala como se instala firefox? (31/07/2009 - 20:54) preciso falar com a UOL sobre fatura mas não consigo anderson henriqui (03/08/2009 - 09:54) vivo a vida em busca de loucuras Daniela (03/08/2009 - 16:19) Nem o Youtube mais da suprote ao IE6! Com a google comprando a briga, quem sabe os usuarios finalmente se toquem e migrem para browsers decentes! ^^ Idemax (04/08/2009 - 08:25) Já tá lá!!! http://idemaxweb.blogspot.com/ oswaldo (04/08/2009 - 13:07) IE6 nunca mais!!! Eduardo Costta (07/08/2009 - 09:34) entrando na campanha e disponibilizando no twitter. www.twitter.com/eduardocostta m, (07/08/2009 - 10:44) Merda Antispam (merda.minimos.info) apoia a campanha e sugere uma advertência adicional: \\\"Se você não trocar de navegador, será banido da internet, sua casa será incendiada, seu cachorro assassinado e seu carro será pintado com as cores do Corinthians\\\". Também apoiamos a campanha de mandar os desenvolvedores que não sabem escrever de volta para a escola. Paz. makotowatanabe.com (07/08/2009 - 14:47) http://makotowatanabe.com/ aderindo já a campanha! Symbian Na Net (07/08/2009 - 18:31) Tamo participando tambem! http://symbiannanet.blogspot.com Renê (07/08/2009 - 19:13) Serviços do Google como YouTube e Orkut já aderiram a campanha... hahaha... By IEca 6! Anderson (08/08/2009 - 17:52) Meu blog esta participando da campanha! http://andersonpanichi.blogspot.com Eric Ulisses (08/08/2009 - 23:14) Show de bola essa iniciativa, além de muito inteligente. Parabéns a todos. Eder Lima (10/08/2009 - 16:33) Ótima iniciativa. Fizemos pequenas modificações no script para inserirmos em nosso site pois nosso público perde-se muito fácil com links e informações. Colocamos o script hospedado em nosso próprio servidor, mas mantivemos a função para estatísitcas e colocamos um comentário no código fonte falando sobre a campanha e dando crédito ao imasters pela iniciativa da campanha. :) http://www.interativa.uniderp.br andré (13/08/2009 - 10:09) vamos acbar cpom IE pra sempre uhuuuuuuuu Gabriel Lau (13/08/2009 - 15:51) Com essa camapanha lançada não vou mais me preocupar com o IE6. Todo browser que se prese hoje em dia se atualiza constantemente, e evolui de acordo com a necessidade dos usuários. Se o próprio youtube e Orkut já estão entrando nessa onda, não vou mais exitar. Todos os meus sites de agora em diante, irão conter uma mensagem de atualização de browser. Em 2 anos no máximo esse IEca vai desaparecer de vez dos pcs da população mundial :P Dan (13/08/2009 - 18:49) prefiro o ie6 que o 7. fabio cicero lima dasilva (15/08/2009 - 14:00) eu tmbm prefiro oie6 que o 7. André D. Molin (15/08/2009 - 21:07) Ótima iniciativa. Porem tem algumas pessoas dizendo em \\\"eliminação do IE\\\". Eu não concordo, pois o IE é um bom navegador sim. O problema é o windows estar presente na maioria dos PCs do mundo, e o windows XP vir com ele por padrão. Devemos é atualizar o IE para a versão mais recente. Glauber Rajiv (16/08/2009 - 01:13) AE \\\\o/ Não suporto fazer sites r0x em css para qualquer navegador, e quando chega no IE ta tudo desmontado, destruído, transparencia não funcionando. Morte aos noobs que usam IE 6 ÒÒ Wagnon Sousa (19/08/2009 - 16:01) Isso é bom de mais, aliás os usuários deveriam parae de uasr não só o IE6, mas todos os IEs e mudar de vez para outros como firefox, opera ou chrome. Zangui (21/08/2009 - 11:51) Esta campanha e bem vinda. O trabalho de montagem de sites e muitas vezes disvirtuado no que toca a renderizacao do conteudo pelo ie6 e abaixo. Se todos tomarem consiencia disso estaremos a ajudar a desenvolver e a dinamizar a web, que e sem duvida a porta de entrada para o mundo moderno. Site limpos, seguros e rapidos e o que queremos. DIVULGUEM A CAMPANHA... Carlos Fernandes (25/08/2009 - 07:58) É isso ai! Mais uma vez a equipde da iMasters, contribuindo para um internet melhor! Eduardo (27/08/2009 - 10:34) é uma iniciativa muito boa, mais acho assim, uso o explorer 6.0 e com o antivirus panda instalado e nunca tive problemas com worms, spywares, trojans e coisas e tal, vou instalar uma versão maior e com certeza já vai ficar lento por isso q nem tchum, outra coisa é que muitos falam ai pra cima, tirar o explorer e usar esses outros ai, firefox nem pensar, só pq é bonitinho afff para, é o pessoal gosta do mozila pq não usa a web como trabalho, eu uso fazendo sites e qdo vou fazer meus scripts java applet´s fica uma droga pra visualizar nesse firefox o explorer disparado é o melhor browser que tem, suporta tudo sem problema. Eduardo (27/08/2009 - 10:40) é uma iniciativa muito boa, mais acho assim, uso o explorer 6.0 e com o antivirus panda instalado e nunca tive problemas com worms, spywares, trojans e coisas e tal, vou instalar uma versão maior e com certeza já vai ficar lento por isso q nem tchum, outra coisa é que muitos falam ai pra cima, tirar o explorer e usar esses outros ai, firefox nem pensar, só pq é bonitinho afff para, é o pessoal gosta do mozila pq não usa a web como trabalho, eu uso fazendo sites e qdo vou fazer meus scripts java applet´s fica uma droga pra visualizar nesse firefox o explorer disparado é o melhor browser que tem, suporta tudo sem problema. Marcelo (27/08/2009 - 18:04) Não entendi esta euforia toda. Portanto me desculpem; usarei a contragosto o Inetrenet Explorer 8.0, mas não convencerei ninguém a querer usar. Infelizmente este dia chegará. Sim, não se iludam. Não acabarão apenas com a Internet Explorer 6.0 Se morresse apenas a versão da Internet, tudo bem... Ela morrendo, num futuro não muito distante a Internet Explorer 8.0 morrerá e os outros navegadores idem A Internet 8.0 é melhor que a anterior. Não digo o mesmo do Firefox que não abriu as páginas (no comando Control + N) Mas voltando... Futuramente a Internet Explorer 8.0 morrerá, e mais adiante, o Windwos XP também, não se iludam!!!! Viocês sempre terão de tempos em tempos de atualizar não só cada versão da Internet, mas principalmente sistema operacional como o Windows Vista que ainda não implacou. Mas com as versões anteriores morrendo, o Vista vai emplacar e mais adiante o que está ocorrendop hoje com a Internet Explorer 6.0 (e poir tabela com o Windows 98 SE), ocorrerá o mesmo com a Internet Explorer 8.0, e os outros navegadores, morrendo também o XP, e assim sucessivamente; esse será o preço a pagar... Qiem tem a ganhar ? Só empresas como a Microsoft que vai cada vez mais obrigar o usuário a atualizar seu sistema operacional como um todo e a gastar $$$. Se você faz parte de um grupo seleto de uma empresas dessas, meus parabéns, do contrário... belo (29/08/2009 - 00:29) to nessa! Edailton - Faça Web Sites - Sinop/MT (02/09/2009 - 11:01) Ótima iniciativa, eu trabalho em uma empresa de que desenvolve paginas web e só quem trabalha com isso entende como essa atualização é necessária, pena que ainda existam pessoas que não tem o conhecimento ou nao procuram saber sobre as falhas de segurança que existem e falam coisas absurdas, mas vamos lá um dia isso vai mudar. Marcelo (02/09/2009 - 12:51) Concordo com a atualização e brechas de segurança; acho isto necessário sim, óbvio. Se mudasse apenas a versão do navegador, não teria motivos para ser contra. Aliás, vale dizer, sou a favor de todo avanço tecnológico (apesar de por exemplo preferir games 2d, mas não vem ao caso aqui), máquinas mais velozes, mais memória ram, mais hd de espaço físico para o CPU, melhores placas de som, de vídeo, etc, etc. Mas isto deveria ocorrer de modo a forçar o usuário escolher se precisa ou não de um pc mais moderno, etc, se quer games 3d, programs mais sofisticados, etc;mas não por causa da navegação em rede... Claro que ninguém (ou quase nignuém) quer usar um pentium antigo (exceto para outras finalidades), sempre vai querer atualizar sua máquina na medida do possível (condições financeiras incluídas aí; não esqueçamos que estamos no Brasil...). Agora, para quem quer só navegar mesmo, buscar notícias na rede, entrar em diversos fóruns, deveria sim poder escolher seu navegador, sem ter necessariamente de mudar seu sistema operacional. Agora, a pessoa ser obrigado a mudar seu sistema operacional se quiser navegar na rede, acho um tremendo absurdo sim. Respeito sua posição, deve entender bem da área; meus parabéns, sucesso na profissão. Mas, mesmo quem entenda bem outrbalhe no ramo da infomática em construção de blogs, etc, não precisa entender muito do assunto, não precisa de sacar muito do assunto para saber que o Windows XP também estará com seus dias contados, e assim por diante. Por isto não entrei nesta onda, se é que me entende. O Windows XP não vai acabar do dia pra noite, mas na velocidade que está também nãio durará muito tempo, pois a Microsft inclusive já está abandonando (se já não abandonou) o suporte ao Windows XP. Hoje, já temos Linux, Windows Vista, Windows 7... Mas é questão de tempo até para a morte destes sistemas operacionais também, caso você queira tê-las e usá-las não só para o Windows, mas para acessar a Rede - que é o que está em questão aqui. Repito o que disse: se a pessoa é um empresário que viva disto, ou está com $$$ sobrando, ótimo, pois poderá estar sempre atulizando seu sistema operacional como um todo, o que é muito bom: CPU, sistema operacional escolhido,memória ram, etc. Só lamento que isto afete apenas quem quer tão somente navegar em rede; apenas isto. Aperfeiçoem os browsers de navegação, mas não destruam junto os sistemas operacionais; que esta escolha caiba ao usuário que na teoria deveria saber o que precisa ou não para seu pc - isto para navegar em rede. Se não acredita em nada do que disse, basta olhar os requerimentos mínimos de cada versão destes navegadores atuais; confira aí vendo os requerimentos da Internet Explorer 8.0, Mozila Firefox,... Pode procurar na Net, pélo Google ou Yahoo - que diz os requerimentos mínimos: nestes, a pessoa no mínimo deverá ter o Windows XP (que será substituída tão logo morra esta e outras versões de navegadores atuais) pra cima. É isso: que substituamos os navegadores, mas não necessariamente cada sistema operacional. Como sei que isto não acontecerá, sou contra sim. Bom, não espero entrar em choque com ninguém aqui, mas é meu ponto de vista; cada qual que tenha o seu. Eduardo (03/09/2009 - 10:04) É concordo com o parcerinho Marcelo logo acima, pra vcs verem querem tirar o explorer de qualquer jeito do mercado, mais não sei porque muitas empresas que criam sites como essa que vou postar o link abaixo o site deles nem abre no firefox só no explorer, será que eles tem alguma coisa contra a raposa? kkk, e olha que são fenomenais no que produzem em questão de web. obs : para abrir o site clique no boneco fazendo sinal de negativo. Abraço a todos Eduardo (03/09/2009 - 10:05) Opa desculpa pessoal, esqueci de colocar o link : http://www.neostream.com Ana Maria Gomes de França (06/09/2009 - 23:13) To nessa bboy157 (09/09/2009 - 11:53) adorei william pena forte (10/09/2009 - 09:40) Cara d+ Anderson (12/09/2009 - 02:21) Gloria Deus! Nem o Google da mais suporte pro lixo do IE6 Thiago (seja livre...diga nao ao IE) (13/09/2009 - 01:51) ORRAAA...Deus é pai,vamo q vamo acaba com a raça de IE6 Kleber (24/09/2009 - 10:47) E pensar que aqui onde eu trabalho só usamos o Netscape. Isso porque aqui não é empresa pequena não... Vou enviar o link pro chefe! Willhelm (24/09/2009 - 20:03) O Bill Gates deve estar rindo de vocês até não poder mais, né! \\\"Veja só a confusão que causamos! E eles nem sabem que é lógico que isso não tem fim. Um dia vai sair um novo padrão e eles terão fazer outras campanhas que não atingem nem 20% dos usuários só para que os usuários se sintam melhores... Vou voltar para o meu chá que está mais interessante\\\" Willhelm (24/09/2009 - 20:07) Ah sim, esqueci de falar... Quem chama usuário de burro, preguiçoso ou mentiroso só pode ser pior do que estas três coisas. Se um médico de 70 anos não sabe atualizar o IE6 para o IE8, não quer dizer que ele é preguiçoso, burro, tapado, mentiroso, etc etc... Vocês é que não sabem mais como lidar com pessoas (que pagam seus míseros salários)... Desenvolvedores, aprendam a tratar bem os usuários, ou nenhuma troca de browser vai diminuir suas cargas de trabalho. Pensem nisso. Lucas (24/09/2009 - 22:56) Eu já coloquei na minha página! :D Márcio (01/10/2009 - 00:11) No final, os desenvolvedores são os autores do conteúdo dos sites. Aos Billettes, que se danem. Tô nessa. Vinicius Ribeiro (03/10/2009 - 08:12) Eu também coloquei na página inicial e já faz 1 mês. Reparei na estatísticas de acesso ao site que, pela primeira vez, o IE perdeu (54% com firefox e 40% IE), ou seja, a campanha surtiu efeito. Parabéns pela iniciativa! Rafael (05/10/2009 - 10:42) Parabens pela iniciativa, já colouquei em nos sites que tenho e pode ter certeza que vou espalhar! Abraços Marcos (06/10/2009 - 17:34) Simplesmente Perfeito. Chester (06/10/2009 - 21:29) a partir de quando eu devo atualizar meu navegador?, pois já tenho o mozila no pen drive. EDI LOPES (08/10/2009 - 16:27) Tem gente dizendo que uma campanha pro FF. e se fosse? o IE é uma coisa tao ruim que deveria se chamar DEVIL IE. Apoio totalmente a campanha, alias eu nao aconselho ninguem a usar o IE. Se não quizerem o FF usem o Chorme que é muito bom tb. Resumindo MORTE AO DEVIL IE Marcelo Pereira - UNEMAT/Cáceres (13/10/2009 - 16:08) Muito bom.... Ufa!!! pelo menos um aviso.... Navegadores antigos como o IE6 dão dor de cabeça demais. O navegador burro!!! anapaulat.meiralima (13/10/2009 - 23:34) Pow tava mais qe na hora nèh...rs Denis Olivares (15/10/2009 - 12:34) Parabéns! Ótimo! weberton (23/10/2009 - 13:28) gostaria de ter um navegador ativado para resolver os contatos Nivaldo (23/10/2009 - 22:22) Quero atualizar o meu navegador, e certamente resolverei meu problema com as mensagens. Obrigado Junior (24/10/2009 - 00:27) Apoiado! a JM adota tmb essa campanha, xega de ie6! Luciano (24/10/2009 - 16:43) Estas atualizações não passam de obsolescência planejadas. É que as pessoas desaprenderam a ser simples a a fazer sites simples. Dagmar (28/10/2009 - 14:32) Opa, já estou usando em mais um projeto meu. http://www.fuijogar.com.br Catarina Maria (30/10/2009 - 16:08) Obrigada pela orientação. Catarina. paulo (03/11/2009 - 16:38) Desenvolvedores e designer .. começem a usar esta ferramente em seus aplicativos de web... ajudando as pessoas se atualizarem tambem vendo seu próprio material.... gabriel (06/11/2009 - 09:32) Gostaria de saber se tem uma barra para colocar em sites https:// pois colocando essa http:// no site, quebra a segurança do site obrigado Muito boa a iniciativa. Marlon Assunção (14/11/2009 - 12:23) muito boa iniciativa! vai ajudar tanto. kk (18/11/2009 - 01:17) Não gostei, está tudo errado, eu uso o que eu quero e não os que os outros usam. O profissional que não tem competencia entra nesta campanha absurda. Profissional competente é aquele que vai saber resolver isso seja com *.png 32 ou gif transparente, mas resolva isso. Aquele que se deixa levar pela facilidade é uma mala sem alça. Sou profissional na área de design e não tenho nada contra o ie6.0 quando está com suas atualizações em dia. Já não bastou a vergonha do tão falado firefox tranqueira que perdeu feio para o internet explorer sobre falhas de segurança. Se me lembro foi feito este mês o teste: Os resultados foram: firefox 45% de falhas safari 35% de falhas ie 15% de falhas opera 5% de falhas Até mais para os bons (18/11/2009 - 01:21) Site com bug no script Montano (26/11/2009 - 09:15) Parabéns pela campanha. Realmente algo muito, muito útil Marcelo (26/11/2009 - 16:40) Excelente iniciativa! Discordo com o comentario de alguns sobre a eliminação de IE de vez, nada pessoal, e convenhamos que o IE 8 esta bacana. Espero que nao me levem a mal hehe! Helton (01/12/2009 - 15:07) Já tenho em meu site, apoiado 100%! carla da silva schmid (04/12/2009 - 17:10) o mais rapido possivel a jato em tudo mesmo estou precisando que isto seja resolvido mesmo gente o navegador para minha vida hoje e minha salvaçao e de todos Vanderlei Mendes (06/12/2009 - 23:16) Todo navegador tem suas vantagens e desvantages. A milhares de teste que provam isto e o mais importante, os testes também comprovam que todos os navegadores tem de ser atualizados. Mas vamos lá pessoa aderem esta campanha pois ter gente ainda usando o IE6 é demais. Rangel (07/12/2009 - 17:49) podia ser TODAS AS VERSOES do IE. O Internet Explorer 7 por exemplo continua horrivel e nao suporta nada :D GILBERTO SAUGEN (08/12/2009 - 18:05) O Brasil não é um país democrático? Então, por que diabos não posso seguir com meu velho IE6? Outro brouser mais atualizado é mais pesado! Não estou interessado! Por favor, parem de pressionar! Henrique (06/01/2010 - 17:17) Um amigo lá encima falou sobre o simbolo do firefox ser maior, e porque sem sombra de duvidas o melhor amigo dos desenvolvedores e o firefox. por isso a campanha friza o mozilla. muito boa a ideia da campanha já fasso parte!!! Neylor Leandro de Sousa (07/01/2010 - 08:51) Valeu pela iniciativa. Podem contar comigo! Sergio Ronei Hentz (11/01/2010 - 11:26) Na minha empresa estamos utilizando em todos os sites desenvolvidos. Apresentamos o script para a direção e adoraram. Muito útil! Valeu I-masters. Parabéns!!! verislayne Camilo Ferreira Dias (11/01/2010 - 16:32) To dentro adoreeiii .... Parabéns... Larissa (11/01/2010 - 19:51) EUU AMEII TD ISSO!!!!TO DENTRO TAMBÉM....PARABÉNS² Tathyane (11/01/2010 - 23:59) Eu ameii isso!!! To dentroo também.P.A.R.A.B.E.N.S Matheus (12/01/2010 - 15:39) Se extinguissem o IE6 seria uma maravilha para nos webdesigners. Eu apoio!!! Alex (16/01/2010 - 23:04) Otima iniciativa...mas na resolução de tela em 1336x768 (notebook) o Ie na barra de atualização DESAPARECE por favor corrijam. Muito obrigado em advanced!!! kkk Jose Malcher Junior (18/01/2010 - 00:44) Ja coloquei no meu site de ponta a ponta!! muito boa iniciativa! Abraços Filipe Moreira Machado (18/01/2010 - 03:00) Na minha empresa Lordpixel estamos utilizando em todos os sites desenvolvidos. Vamos Apresentar o script para a direção de cada projeto para ser aprovado =) Muito útil! Valeu I-masters. Parabéns!!\\\"¹²³ Rosa (23/01/2010 - 10:16) olha ja tentei baixar outro navegador mas, a IE nao deixa ela traxa.Por favor se poderem me ajudar eu agradeço!!! Thurg (25/01/2010 - 08:05) Amem alguém teve a iniciativa de fazer um bem pra umanidade.. xD Julimar Falconiere (25/01/2010 - 10:15) Ja participo da campanha e indico a meus clientes participação. O IE6 é um problema do ponto de vista da segurança e do design, é complexo compreender quantas exigências e métricas para os programadores e designers, em relação ao desenquilíbrio dos navegadores. Nos programadores e gestores de sistemas que deveriamos criar as métricas para estes sistemas falhos de navegação na internet e exigir um padrão de mercado. Excelente iniciativa da IMasters, parabéns. almir (25/01/2010 - 15:58) sera q dava para por outro char almir (25/01/2010 - 15:58) sera q dava para por outro char almir (25/01/2010 - 15:58) sera q dava para por outro char Renan Spolon (27/01/2010 - 22:49) Que tal botar o Maxthon nessa camapnha? www.maxthon.com Reginaldo Rosa da Silva (28/01/2010 - 08:56) Bom dia, gostaria de saber o e-mail do RH da empresa para poder enviar meu currículo, trabalhei em obras na Espanha. Atentamente Reginaldo val (03/02/2010 - 00:33) ta atualizado legalllll (03/02/2010 - 19:42) Airton Silva Pereira (04/02/2010 - 12:49) Rapidez, e atualização é o que preciso. Ednei Nogueira (06/02/2010 - 20:19) Vamos juntos derrotar a força negra deste planeta. dmb sites (08/02/2010 - 09:07) isso resolve!! ;D var browserName=navigator.appName; if (browserName==\\\"Mozilla Firefox\\\") { //nao faça nada!! } else { if (browserVer >= 6); if ((browserName==\\\"Microsoft Internet Explorer\\\")&&(Version>=6) var Version=navigator.appVersion;) { alert(\\\"TA NA HORA DE ATUALIZAR SEU NAVEGADOR - instale Mozilla Firefox!\\\"); location.href=\\\"http://www.mozilla.com.br\\\"; } } aew galera. Cristiano Vieira (09/02/2010 - 15:51) IE6 = POG Tal Lieven (09/02/2010 - 17:58) Eu amava!! Colocava em todos os meus sites, mas achava melhor quando ele só aparecia para quem estava usando o IE6. Não vejo nenhum problema do ponto de vista do programador, em usar as versões posteriores como o IE7, mas agora a barrinha começou a aparecer em qualquer versão do navegador, que não seja a última. Para quem tem o código em todas as páginas do site, fica muito chato! Se houver algum outro código que só apareça para o IE6, eu gostaria de ser informada! Obrigada! Programador (11/02/2010 - 08:52) Isto é coisa de programador preguiçoso, que não tem paciência para depurar seus programas, que pega tudo pronto da Internet, copia e cola código de fórums ou exemplos, pois mal sabe ler e escrever, quanto mais digitar. Limitar tipos diferentes de tecnologia é assinar a sentença de morte! A Internet é livre e deve continuar livre!! Quem não souber programar, que aprenda ou pague para alguém que saiba. Eduardo (11/02/2010 - 10:55) É pra vcs verem querem tirar o explorer de qualquer jeito do mercado, mais não sei porque muitas empresas que criam sites como essa que vou postar o link abaixo o site deles nem abre no firefox só no explorer, será que eles tem alguma coisa contra a raposa? kkk, e olha que são fenomenais no que produzem em questão de web. obs : para abrir o site clique no boneco fazendo sinal de negativo. Abraço a todos Opa desculpa pessoal, esqueci de colocar o link : http://www.neostream.com (12/02/2010 - 01:24) Júnior (12/02/2010 - 08:10) Tenho certeza que boa parte desses \\\"defensores\\\" são os mesmos que há pouco tempo defendiam avidamente \\\"seu\\\" Internet Explorer e torcia o nariz pro Firefox. São pessoas que se acham que a monopolização da tecnologia e dos meios de comunicação é uma vantagem. Muito pelo contrário. A tecnologia só é vantagem se for baseada em padrões abertos e bem definidos e, principalmente, que os fabricantes, sejam grandes ou pequenos, os sigam!! É coisa de preguiçoso, que quer fazer seu código e nunca mais mexer! Programador (13/02/2010 - 22:57) Isto é coisa de programador preguiçoso, que não tem paciência para depurar seus programas, que pega tudo pronto da Internet, copia e cola código de fórums ou exemplos, pois mal sabe ler e escrever, quanto mais digitar. Limitar tipos diferentes de tecnologia é assinar a sentença de morte! A Internet é livre e deve continuar livre!! Quem não souber programar, que aprenda ou pague para alguém que saiba. Alyson Prado Wolf (16/02/2010 - 15:43) Olha, na verdade eu acho o IE 6, o IE 7 e o IE 8 um lixo. E como eu uso o Opera há anos, não me importo com qual a versão do IE que está lá instalado no meu PC. Eu só tenho usado o IE em dois casos: para usar o Windows Update e para abrir algum link que não consegui abrir no Opera. Logo, as falhas de segurança do IE6 me foram irrelevantes, pois o que me importava é somente naqueles dois minutos que eu precisava abrir um link no IE 6, queria que ele funcionasse. Como o meu navegador principal era o Opera, para que eu instalaria uma versão mais nova e pesada (apesar de mais segura) do IE, se eu praticamente não o usava? Infelizmente, apesar de muito tempo seguindo esse pensamento, hoje estou instalando o IE 8. A única utilidade que o IE 6 possuía, que era abrir alguns links para mim, se acabou, pois agora o IE 6 nem pra isso serve, está incompatível com vários sites. Portanto, dou o meu braço a torcer e dou adeus ao IE 6. Só cheguei até aqui com ele porque ele nunca foi o meu navegador principal. Betinho Silva (17/02/2010 - 20:05) Boaaaaa (19/02/2010 - 08:21) adriano (25/02/2010 - 15:49) Timão está em todos os coraçoes,Voando alto como os gaviões. Jonny (26/02/2010 - 12:41) Porra de timão o assunto aqui é ie ou raposa, gavião tá fora do assunto... seu zé ruela. Alexsandro Rosa de Mello (27/02/2010 - 21:58) Apesar de meu site estar corrigido para todos os navegadores, também aderi ao movimento \\\"Abaixo o IE6\\\" rsrsrs. Valeu e colocarei em meus próximos sites. Abraço e acessem, www.eupagoseulance.com.br Não atualize seu navegador se não quiser (01/03/2010 - 11:00) Sou contra. Não atualize seu navegador se não quiser http://doceangel.wordpress.com/2010/03/01/nao-atualize-seu-navegador-se-nao-quiser/ Lennon (01/03/2010 - 14:53) IE6Funeral.com luiz (04/03/2010 - 15:23) quero atualiza o navegado por favor. hugo (11/03/2010 - 19:07) nao costei do saite (11/03/2010 - 19:15) Maria Luiza (11/03/2010 - 22:06) O nazismo começou assim... Liberdade para usar o navegador que queremos! altair campelo (14/03/2010 - 10:34) é uma otima iniciativa, com as melhorias e o avanço tecnologico temos sempre que nos atualizar. Wellington Freitas (17/03/2010 - 09:23) NÃO TROCO MEU I.E. POR NENHUM OUTRO NAVEGADOR, NÃO VEJO MOTIVOS PARA ISSO, PORTANTO, SE QUEREM UM SISTEMA EFICAZ E COM SEGURANÇA USE SISTEMA OPERACIONAL ORIGINAL, TIVE FAZENDO UMA PESQUISA E 45% DAS PESSOAS QUE UTILIZAM BROWSER QUE NAO SEJA I.E., É WINDOWS PIRATA, PORTANTO ALEM DE USAR O WINDOWS PIRATA, AINDA SENTEM O DIREITO DE RECLAMAR DOS PRODUTOS. WELLINGTON MCP / MSDBA / MSCE everaldo jose da silva (17/03/2010 - 11:16) PREVISÃO DO PAGAMENTO.POIS A NOTA JÁ FOI ENVIADA A MAIS DE UM MÊS. Meu Fusca e eu (23/03/2010 - 14:29) Quer dizer que vocês querem que eu não ande mais de Fusca por aí!? Marcelo Idiarte (25/03/2010 - 03:50) Wellington Freitas, meu caro, não vou nem perguntar como você fez a sua \\\"pesquisa\\\", porque certamente ela não se enquadraria no que se entende por pesquisa a partir de metodologias científicas. Não há a menor relação entre falhas de segurança e sistemas operacionais pirateados, tanto que a provedora do Ruindows lança as infinitas correções das suas infinitas brechas é para os sistemas originalíssimos mesmo. O Ruindows XP tem 3 Service Packs editados e mais uma centena de correções individuais pós-SP3. Ruindows Vista idem: já tem 3 SPs, sendo que este lixo operacional tem apenas 3 anos de vida. O Ruindows 7 mal foi lançado e nas primeiras semanas já se descobriu falhas gravíssimas. O Internet Explorer, na esteira desses sistemas, é um queijo suiço de tantos buracos e de tanta inconformidade técnica com as normas e padrões atuais da web. Acho que você não entendeu direito o objetivo desta campanha... Talvez porque nunca tenha tentado desenvolver uma linha de programação voltada a multiusuários. Falando no IE, cabe dizer que ele já foi ultrapassado na Europa, onde evidentemente as pessoas têm uma maior percepção de funcionalidade e segurança. É possível que isso se deva em parte aos governos da França, Alemanha e Holanda - que foram os primeiros a incentivar os cidadãos destes países a migrarem para o Firefox, em função expressa da preocupação com segurança. Mas este movimento, diga-se, ini
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