O nome vem do grego - quer dizer, não muito. É uma espécie de Josicleusa, já que mistura o Type inglês com o graphos (escrita, escrever) do Latim. Literalmente, "escrita com tipos". Por mais que designers sejam apaixonados por ela, a ponto de provocar reações entusiasmadas (e exageradas) ela não é uma ciência. Mesmo que o fosse, provavelmente teria que escolher outro nome, já que tipologia é o estudo de um tipo de alguma coisa, confesso que não sei muito bem o que é.

Topologia, por sua vez, é o estudo de estados de continuidade matemática, uma ciência de compreensão facílima, como pode-se facilmente compreender por sua página na Wikipédia. Por último, topografia é o que engenheiros fazem com aquele treco que fica em cima de um tripé mas que não é uma câmera. Tem a ver com mapas, essas coisas. Confesso que morro de curiosidade em saber o que eles tanto olham ali.
Futura Saddam
Claros os termos, não há muita confusão a se fazer. Ou quase. Em 1992, vocês não eram nascidos, a Associação dos Diretores de Arte de Nova York publicou uma série de anúncios polêmicos, que abriam com a página acima e seguiam com algo como "ele seria arrogante (trocadilho com Bold), ele seria irritante, ele estaria em todos os lugares. NYADC contra Futura Condensed Extra Bold". Tenha dó. E você achava que só os programadores Linux eram nerds, hem? Pois veja Helvetica e mude completamente de opinião. Eu vi. No cinema. E só morri de rir porque estava sozinho, senão morreria é de vergonha. É por coisas como essas que não uso Arial de jeito nenhum.
Objeto de fetiche tiponerd.Não dou, não vendo, não troco.
Tipografia, em resumo, não é só para designers. É para todos. Ela é muito importante porque, apesar de significarem palavras e traduzirem idéias, letras são desenhos. Desenhos universalmente reconhecidos que são aceitos subliminarmente e dão a personalidade do ambiente gráfico visitado. É exatamente porque não reparamos nela que ela é tão poderosa. Um texto em Times New Roman é percebido como mais tradicional que o mesmo texto composto em Verdana.

Um termo lembrado pelo Gustavo Lassala no post anterior foi Glifo. Tem gente que acha que esse é o nome daquela "bolinha" que fica atrás das listas de tópicos no PowerPoint. Não estão errados, mas é mais do que isso. Glifo, como caractere, é qualquer forma que compõe um alfabeto.
* <- Isto não é um Glifo (obrigado, Magritte). Ou é. Na verdade, qualquer caractere é um Glifo.
Glifo é uma palavra bem parecida com Grifo, e esse é outro termo que causa confusão. Para alguns, grifo é o mesmo que sublinhado. Outros acham que é sinônimo de itálico. Ambos estão certos. Como também está certo quem acha que Grifo é um animal mitológico que bota ovos de ouro.
Se não me engano, o personagem do meio é mestiço de Grifo com cavalo.
A origem toda vem de Francesco Griffo, um dos primeiros tipógrafos. Foi ele quem criou, junto com Aldo Manunzio, os primeiros caracteres itálicos. A idéia que eles tiveram foi avançada demais para a época: eles queriam fazer uma letra manuscrita que imitasse a caligrafia Chancelaresca do Papa. Ela se chamaria Itálico e deveria ser usada em documentos oficiais. O problema é que a letra de Sua Santidade era pequena demais, e tanto a tinta, quanto o papel e o metal usado para fazer tipos eram todos meio toscos, e por pouco os dois tipógrafos não viraram piada.
Com o tempo, a letra de Manunzio e Griffo acabou por se tornar um estilo. Seu uso eu comentei neste post antigo, resposta nº 10. O termo "itálico" virou coisa de tipógrafo, já que os italianos o chamavam, naturalmente, de Griffo. Ao traduzi-lo para outras línguas, virou "grifo". Séculos mais tarde, as máquinas de datilografia não eram capazes de reproduzi-lo, por isso passaram a sublinhar os textos que demandassem ênfase. Agora você pode animar festinhas com essas curiosidades históricas.

O que é importante destacar é que itálico não é sinônimo de inclinado. Ou pelo menos não deveria ser. A inclinação deve-se ao fato de, quando manuscrita, a letra é naturalmente inclinada. Algumas famílias tipográficas, como a Times e a Georgia, têm itálico "verdadeiro". Quando escrito neste estilo, a letra assume um formato completamente diferente. Outras não o têm, e só inclinam a letra que estaria neste estilo. Nesse caso, costumam ser chamada de oblique, para não dar confusão.

Como você pode reparar nas letras "g", "i" e "a", os caracteres são completamente redesenhados em Georgia itálico e simplesmente inclinados em Helvetica oblique. Antes que você pergunte: não, não existe "Georgia Oblique" nem "Helvetica Italic".
No próximo post falo sobre xis e emes.
Pô cara! Gostei muito desse post. E do jeito divertido que você fez o artigo. abraços!
Responder comentárioTambém a título de curiosidade...rs
Luli, o que os caras ficam olhando naquele 'instrumento' é uma 'vereta' que um outro cara fica segurando lá na casa do chapéu e que tem marcas de alturas. Como o 'breguete' que o cara fica olhando tem marcas de ângulos é possível, usando calculos trigonometricos, calcular a distância "do breguete até a vareta". Mais fácil que usar uma fita métrica enorme...rs
Desconsidere os 'termos técnicos' que usei :-), mas o aparelho é chamado teodolito.
A propósito, parabéns pelos artigos.
Valew.
Luli, sou desenvolvedor e não designer, mas sou fascinado por história e seus artigos são simplesmente ótimos (à vista de um leigo). Parabéns.
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Luli Radfahrer é PhD em Comunicação Digital, tendo dirigido a divisão de internet de algumas das maiores agências de publicidade, bem como dos maiores portais do país. Professor-Doutor da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e Diretor Associado do Museu de Arte Contemporrânea do Rio de Janeiro.
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