Terça-feira, 01 de abril de 2008 às 09h00

Censura na internet

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Há algo estranho no ar. Ou fora dele. Diversas e bem-sucedidas ações de censura de conteúdos e sites na web nos fazem refletir sobre o papel da mesma e sobre a subversão do seu sentido original e primário: servir de veículo de manifestações livres e democráticas.

Até que ponto é válido sucumbir a um governo, estado ou corporação em nome da "saúde dos negócios" ou defesa de interesses pagando um preço caríssimo, a longo prazo, que é permitir a influência do poderio financeiro das grandes corporações no "editorial" dos sites, à moda da mídia tradicional?

Considerações gerais sobre liberdade e internet

A internet, em sua ramificação mais conhecida, a web, sempre foi um símbolo, por assim dizer, da plena liberdade de expressão do indivíduo, palco das mais variadas manifestações artísticas, culturais, políticas; de todos os tipos.

Uma web assim foi responsável por uma grande mudança (até mesmo uma revolução) na nossa maneira de agir e interagir com pessoas, culturas e diferentes visões de mundo. A mídia tradicional, também conhecida como o antigo "quarto poder", caiu por terra e sucumbiu frente aos sites e blogs independentes, dinâmicos, opinativos, vibrantes, personalizados; indo além da mera reprodução dos fatos "manjados" e conhecidos, retratados com a frieza típica das antigas corporações da mídia. Talvez a maior revolução cultural que a humanidade assistiu (e participou ativamente) nos últimos tempos.

A visão que pessoalmente tenho da web é a de um grande palanque público, multi-facetado, amplo, acessível. Um palco onde desfilam as mais diversas vertentes do pensamento humano, levando ao conhecimento de todos uma série de informações e dados abrangentes e plurais, por excelência. O conjunto das características essencialmente democráticas é a essência da internet e é, sem dúvidas, a grande mola propulsora de seu grande crescimento econômico, proporcionado essencialmente pelo conceito chamado de "web 2.0", que "convidou" o usúario comum de sites a sair de sua posição passiva ("herança" da mídia tradicional) para participar, ativamente, como criador de conteúdo.

A censura: cano entupido

Toda a democracia e liberdade de expressão apresentada acima pouca importância teria para as grandes corporações privadas e estatais se ficasse restrita a um gueto de geeks (ou nerds, como queiram), de pouco representatividade "demográfica", assim como os guetos anarquistas e socialistas no mundo unidimensional de hoje pouco ou nada incomodam os "neo-liberais" de plantão, que enxergam nesses "guetos" um curioso e inofensivo contraponto ao modo corrente de viver e pensar uma sociedade.

Porém, quando há um crescimento absurdo de usuários acessando a internet e na medida em que este meio torna-se popular e acessível, há, conforme é possível enxergar nos casos recentes de censura, um "medo" generalizado, protagonizado pelo lado "mais forte" ou pelo poder estabelecido da história.

Ora, não é difícil entender: imagine se a internet fosse inserida no Brasil em plena era de ditadura? Fatalmente, o meio seria censurado de todas as formas possíveis e imagináveis, já que seria muito mais poderoso, direto e contundente que belas canções com mensagens subliminares de bossa-nova e mpb.

Blog Censurado em Cuba

Em Cuba, recentemente, o blog de maior audiência naquele país, o 'Generación Y' foi censurado. Sua autora, Yoani Sánchez, declarou: "Os censores anônimos do nosso famélico ciberespaço tentaram me trancar em um quarto, apagar a luz e não deixar meus amigos entrarem". Ao retratar, em seus artigos, o dia-a-dia e as dificuldades encontradas pelo povo cubano em sobreviver, em adquirir produtos de informática e "as vagas promessas" de mudança do novo presidente daquele país, Raúl Castro, irmão de Fidel Castro, acabou "incomodando" o poder estabelecido e foi bloqueado. Em princípio, a autora não poderia nem mesmo atualizar seu blog, mas acabou descobrindo uma outra forma de fazer as atualizações.

Google: serviços censurados na China

Recentemente, usando como justificativa política os protestos na capital do Tibete, Lhasa, contra a ocupação chinesa, o governo chinês decretou a censura do youtube e, por tabela, dentro da tortuosa lógica totalitarista, o google news. Apesar de que, recentemente, o bloqueio foi "afrouxado" (mais precisamente em 26/03/08) em grande parte devido aos protestos da imprensa mundial (até mesmo os jornalistas estão impedidos de trabalhar na região, tendo que se deslocarem para regiões vizinhas) e o acesso aos sites foi desbloqueado, é realmente preocupante o poder das censuras das nações totalitárias pelo mundo.

Curiosamente, mesmo após ter acatado pedidos de censura chineses, o Google divulgou, recentemente, um pedido de punição econômica, por parte dos Estados Unidos, aos países que adotam censura na internet. Segundo Andrew McLaughlin, diretor do Google para políticas públicas e assuntos ligados ao governo, "É justo dizer que a censura é a principal barreira que enfrentamos para as negociações".

Panorama global da censura

Esta questão é tão preocupante que já foram criados sites que tratam diretamente do assunto. No site OpenNet Initiative, há um mapa da censura mundial. Nele, é possível ver que o mapa da censura na internet abrange, especialmente, as regiões da Ásia e do Oriente Médio. Não por coincidência, os países com maior concentração de regimes totalitários do mundo.

Recomendo uma pesquisa por este site, para que você possa tomar conhecimento de outros casos de censura ao redor do mundo.

Conclusões Finais

A questão é relevante, atual e preocupante. Percebe-se que muitos outros intereses, além da própria liberdade de expressão, estão inseridos neste complexo contexto de fatos e opiniões divergentes e poderosas.

Temo que os exemplos citados, em que atitudes de censura foram bem sucedidas, possam servir de exemplo negativo para outras nações com tendências totalitárias. Por um momento, a tal "liberdade total de expressão" e a "impossibilidade e frear a informação livre na internet" está em xeque, questiona-se, portanto, até que ponto nossa liberdade está garantida, ou, mesmo, qual a provável influência negativa que possa decorrer da enorme popularização da web, que hoje atravessa todas as fronteiras.

É necessário haver discernimento e bom senso por parte das grandes empresas que ditam as tendências da internet, no sentido de ter alguns conceitos primordiais claros e bem definidos. É intolerável qualquer tipo de censura, trata-se de um verdadeiro crime de "lesa-majestade" intelectual, social e democrático a censura de qualquer informação na internet, ou em qualquer outro meio e mídia.

A luta pela liberdade (e pelo direito a ela) é diária, constante. Nunca está ganha, nunca é confortável. Sempre haverá ditadores, sejam socialistas ou capitalistas, querendo manipular a mente do povo, esconder a verdade.

Que a luta pela verdade e pela liberdade de propagá-la seja uma constante na vida de todas as pessoas e empresas de alguma forma envolvidas com internet.

13 comentários

 Ian Liu Rodrigues
01/04/2008 16h11

Absurdo

absurdo, porém totalmente previsível. Quando se mexe com os "gigantes", já é de se esperar tal reação. O importante é que, mesmo assim, é muito difícil censurar. A internet dá muitas maneiras de tornar algo público, o que é ótimo ;)

 Fabiano Pereira
01/04/2008 16h54

Resposta do Colunista

Caro Ian,
Sim, sem dúvidas!
Abração!

 Valentim Augusto Custódio Custódio
01/04/2008 19h55

Sem medo da liberdade

parabens fabiano, pelo comentário das sensuras que rondam por ai

 Fabiano Pereira
07/04/2008 18h55

Obrigado, Valentim.

 Fabricio Gimenes
06/04/2008 23h36

Formas mais sutis de influência...

Não acredito que a liberdade de expressão na internet esteja ameaçada. O que foi citado nesse texto são algumas excessões. Todavia são medidas no mínimo preocupantes.

Complementando o artigo, vale citar os casos em que sofremos "influência do poderio financeiro das grandes corporações no "editorial" dos sites". E isso para mim é pior. Muito pior. Nesse contexto não sabemos direito onde está o inimigo... paira no ar uma certa hipocrisia em benefício do interesse comercial. Tal afirmação se aplica, sobretudo no Boom dos blogs, onde muitas vezes o interesse comercial está por trás da "opinião do blogueiro".

No mais, parabéns pelo artigo.

 Fabiano Pereira
07/04/2008 19h00

Fabricio,
Sim, mas todo cuidado é pouco.
A influência nos editoriais é bastante preocupante, é necessário muito cuidado para não ficar refém de receitas publicitárias! Concordo ocontigo!

Obrigado!

 Luciano Silva
07/04/2008 12h06

Há ainda a sensura indireta

Acabei de criar um blog para mim, e um dos primeiros textos fala sobre a sensura indireta na internet. Muito se fala da Web 2.0, sobre a participação dos usuários na criação de conteúdo, mas sites como IG, G1 e outros mais desistiram de abrir demais seu espaço para os usuários. No IG, muitos comentários sobre notícias "somem" sem maiores explicações, mesmo não contendo termos ofensivos, etc. No G1 (da Globo-dona-do-Brasil), só abrem comentários para notícias banais, como cachorros que nascem com marcas em forma de coração, ou as tais "notícias bizarras" que eles gostam de veicular. Se há denúncias contra empresas ou políticos, os comentários ficam bloqueados. A web 2.0 já está sucumbindo, e dentro destas empresas COMERCIAIS, que vivem do dinheiro da propaganda privada e ESTATAL, não há espaço para controvérsias de usuários inflamados ou contrários à políticas de empresas ou Estados. PARABÉNS pelo seu texto. Foi fantástico.

 Fabiano Pereira
07/04/2008 19h03

Luciano,
É necessária a fiscalização constante para evitar casos de censura, bem como para garantir a nossa liberdade de expressão.

Obrigado!

Obrigado!

 Ana Amélia Erthal
07/04/2008 16h44

Muito bom!

Oi, Fabiano
Muito bom seu artigo, talvez as pessoas não estejam percebendo que isso já está acontecendo também no Brasil, não com o pesado selo de "censura", mas de uma forma mais sutil e que favorece as "grandes" corporações. Recentemente tive meu site bloqueado no Google. Quando qualquer pessoa fazia a busca no google e encontrava meu site, ao clicar no link caia numa página dizendo que meu site possuia conteúdo que poderia danificar o computador. O detalhe é que depois de percorrer um longo caminho pra limpar meu nome na web, o Google não indicava qual era o conteúdo nocivo. Um absurdo total e o pior de tudo: vc não tem com quem reclamar! É a censura "maquiada", aleatória e deslocada do Google.

 Fabiano Pereira
07/04/2008 19h12

Oi, Ana
Que bom que gostou!
Sempre leio seus artigos, que também são muito bons!

Sim, é um absurdo megalomaníaco!
Há a tal "gestão por computadores", parece-me que as decisões são baseadas em argumentos tão discutíveis e "ocultos" como aquelas que regem o page rank... Ninguém fala muito sobre isso, pois as pessoas temem punições ou sei lá o que. E ninguém quer questionar "Deus". Seria uma grande heresia...

No mais, obrigado!

 Marcelo Silva
07/04/2008 17h26

Veja por outro lado...

Se existisse censura com "C" na internet, eu não teria que ler comentários deste artigo falando de sensura com "S" e nem "excessões" com dois "s", o que em se tratando de internet, um meio sem censura, acaba sendo normal, infelizmente, mas que dói na vista dói, ó como dói.

 Luciano Silva
07/04/2008 17h42

Marcelo, realmente escrevi errado a palavra CENSURA, e outro colega acima escreveu errado a palavra EXCEÇÕES. Agora, você com o seu português perfeito, pratica o pior dos atos: a INTOLERÂNCIA INJUSTIFICADA. Pois, num texto de 150 palavras, errei apenas uma, e você vem com estas palavras de desdém. É lamentável, pois a internet está cheia de pessoas como você que não trazem nada construtivo à interação, apenas a discórdia. Se ofendi tanto a sua superioridade gramatical, me perdoe. Sou um simples e humilde mortal propenso ao erro.

 Marcelo Silva
08/04/2008 11h48

Ao amigo Luciano.

Caro Luciano, em momento algum disse que me senti ofendido, apenas corrigi um erro de forma bem humorada. E intolerância, é algo que não combina com minha pessoa. Você é que não levou na esportiva, pelo visto, o intolerante foi você. Eu também erro, por isso amanhã, é você quem poderá me corrigir. E veja pelo lado bom. Tenho certeza que você jamais esquecerá como se escreve CENSURA. Take it easy e grande abraço. :-)

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Sobre o Autor
Fabiano Pereira é designer de interfaces; professor de tecnologias Adobe e de desenvolvimento web; colunista do iMasters; articulista do design.com.br e Web Insider; empreendedor; músico e curioso de plantão. Mantém o blog http://www.fabianoweb.net/blog

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