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Sexta-feira, 21/11/2008 - 10:00 - Por Luli Radfahrer
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Porque a mídia deve se preocupar, parte II

Por mais que berre, esperneie e faça escândalo a velha mídia e todos os representantes de uma indústria baseada em escassez de informação, é fato consumado que o conteúdo está cada vez mais pulverizado, abundante e distribuído.

Se você ainda tem dificuldade em "comprar" esse argumento, pense na forma com que veio a saber dos fatos mais relevantes das últimas semanas: a crise financeira mundial, a eleição do prefeito de sua cidade, o resultado do futebol, da Fórmula 1 ou até mesmo um crime passional qualquer. Antigamente - há uns dez anos, mais ou menos - dizia-se a respeito de uma notícia que ela tinha sido "lida na Veja" ou "vista na Globo". Hoje em dia ninguém mais diz onde viu algo ou até mesmo se sabe quem disse alguma coisa. Essas informações simplesmente não são mais relevantes. A informação é tanta e tão abundante que o veículo não tem mais importância. A não ser, é claro, nos casos em que for autor da informação.

O aumento da entropia da mídia é inevitável, e isso acontece por uma razão muito simples: ele é resultado de uma maior liberdade de expressão. Os mais apressados poderiam chegar à falsa conclusão que estamos em uma época de informação mais democrática. Mmmm... mais ou menos. Por um lado é inegável que o acesso à informação é muito mais fácil e direto, mas não se pode esquecer que a democracia não é sinônimo absoluto de liberdade. Ela também implica em um confronto de idéias em que um lado sai vencedor e o outro precisará aprender com a derrota.

Al Gore é um excelente exemplo do aprendizado proporcionado pela democracia. Depois de perder uma eleição que teve alguns aspectos dignos de republiqueta bananífera, ele teria todo o direito de ficar de chorumelas. Pois ficou? Nada disso. Reconheceu a queda, não desanimou, levantou, sacudiu a poeira, abraçou a causa do aquecimento global e deu a volta por cima. Mesmo se a causa não fosse nobre ele já estaria de parabéns. Já seu oponente...

O mundo democrático permite que velhas estruturas que já foram donas do poder um dia voltem eventualmente a sê-lo. Quer melhor exemplo disso que um PFL em suas diversas encarnações? Já a migração das estruturas de poder é parte de um processo evolutivo muito mais intenso - e que, em si, não tem nada de novo. Da mesma forma que a crise financeira e o estouro da "bolha" pontocom, ela é só um efeito de demandas sociais muito mais poderosas do que poderia imaginar.

O Punk e seus descendentes não "inventaram" nada, só deram voz a pessoas que se sentiam esmagadas pelas velhas estruturas de mídia ainda mais repressoras do que as que encaramos hoje. Ele é, na minha opinião, é um dos movimentos culturais mais libertários. Ao propor que qualquer pessoa poderia tocar ou cantar como que quisesse, vestir o que quisesse, onde quisesse e editar a revista que quisesse com máquina de escrever, tesoura e xerox, eles abriram caminho para a editoração eletrônica - e subseqüentemente, para a Blogosfera. Claro que a turminha produzida pelo Malcolm McLaren não tinha a menor intenção de promover uma revolução na mídia (nem, naturalmente, poder algum para fazê-lo). Eles apenas pegaram carona em um movimento social poderoso.

A história da popularização das fontes de informação não começou com a Internet (nem vai parar por aqui, para desespero de alguns ex-blogueiros que viram casaca feito os porcos gordos da Revolução dos Bichos). Ela é muito, muito longa. No começo do que podemos chamar de civilização organizada, toda a informação, orientação e código de conduta tinham uma só fonte e origem: o monarca governante, descendente direto da divindade e considerado fonte suprema de sabedoria.

Tirânicos ou pacíficos, esclarecidos ou belicosos, bonzinhos ou malvadões, pelo menos uma coisa todos eles tinham em comum: sua palavra era a lei. Naquela época, a simples idéia de se separar religião de Estado seria considerada uma heresia de causar horror.

E no entanto essa crença inquebrável, como é comum com todas as crenças inquebráveis, acabou sendo confrontada e se quebrou. As forças de fé se separaram das forças políticas, e mesmo com os termos da separação sendo quase promíscuos de tão amigáveis, chegou uma hora em que os interesses das duas partes entraram em conflito.

(Imagino o tamanho do escândalo que essa divisão deveria significar para o povaréu da época. O indivisível tinha se partido em dois, e os dois trocavam acusações com uma virulência de fazer inveja a pais mal-divorciados. Pois eles mal sabiam que essa seria só a primeira de uma série de divisões em cascata, em que cada nova etapa implicaria em uma perda ainda maior de poder.)

Anos mais tarde a Igreja se partiria em várias formas de fé, cada uma com igual dose de razão em sua versão dos mundo e seus motivos. Antes que a Monarquia pudesse dar risada da perda de poder de sua ex-companheira, ela também teve de ceder e passou a dividir residência com os três poderes da República. A fonte de informação, que era uma só (o governante, representante direto da divindade), se multiplicou. O que no princípio causou uma baita confusão, em pouco tempo se mostrou mais esclarecedor: quanto mais portadores a verdade tivesse, mais sincera e poderosa ela seria. A lei do mercado aplicada à teoria da informação, nada mal.

Mas a evolução, por definição, é um processo contínuo, e não poderia parar por ali. No melhor dos espíritos democráticos surge a indústria da comunicação, e por um tempinho todos se sentiram representados. A publicidade quase conseguiu pegar carona nessa onda, mas seus excessos a transformaram em uma forma alternativa de entretenimento. Na segunda metade do século passado as coisas pareciam ter sossegado.

Daí surgiu a Internet, essa intrometida.

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Nos tempos atuais, a abundância de conteúdo faz com que ninguém mais precise dar ouvidos a algum dos (ainda) grandes órgãos de imprensa se não quiser. O Google, a Wikipedia e a Blogosfera tornaram-se recursos (por que não dizer, patrimônios) de uso recorrente tão preciosos que dá trabalho imaginar um mundo sem eles. Quem quiser mensurar seu impacto é só imaginar um mundo sem esses serviços. Pense em todas as dúvidas que você encaminha diariamente para o oráculo da Internet. Para quem você as encaminharia há dez anos?

A resposta não poderia ser mais simples: as perguntas simplesmente não eram feitas e pronto. Todo mundo carregava por aí um belo punhado de incertezas como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Esquisito, naquela época, seria imaginar o contrário, pensar em alguém que pudesse ter ao alcance da mão respostas para praticamente todas as dúvidas da humanidade. Tudo bem, já houve épocas em que se acreditava ser ruim tomar mais do que um banho por mês.

A popularização da informação a banaliza (sem segredos fica difícil preservar privilégios) e indica uma mudança considerável na forma com que se vê o mundo. Pode parecer um exagero, mas não é. Veja a crise econômica que se avizinha, por exemplo. Ela pode não ser nada mais do que a falência decretada de um modelo de se transacionar bens e conteúdos baseado em informações privilegiadas, lobbies e conchavos.

O mercado de ações, futuros e derivativos é um mercado de especulação. Em última instância, é um mercado de informação, expectativa e confiança.

Pensando nisso fica curioso notar que a crise coincide com uma epidemia de empreendedorismo sem precedentes. Mais curioso ainda fica perceber que enquanto um segmento da economia (aquele ligado às grandes corporações e macro estruturas) se desfaz enquanto outro (o das pequenas cooperativas, idéias inovadoras, aproveitamento sensato de recursos e conexões inesperadas) prospera maravilhosamente. Curiosíssimo quando se identifica que a parte que vai bem é exatamente aquela que contraria o mandamento Nizanesco e investe, sem medo nem piedade, no novo.

Será preciso ser irremediavelmente otimista para imaginar que estamos às portas de uma mudança radical na sociedade como a conhecemos? A cada dia faz menos sentido aquelas empresas gigantescas, com mais de cem pessoas só no departamento de RH. Pense bem: como pode dar certo uma estrutura que ostenta mais de 100 profissionais empenhados somente na árdua tarefa de...administrar os outros? Tem algo errado aí.

Se para você as grandes empresas parecem uma máquina de Governo inchada, lerda e ineficiente, você não está paranóico (ou estamos todos). O Império que já foi do Estado, da Igreja, da Monarquia e da República agora é das grandes empresas e de sua máquina de comunicação e publicidade. Na década de 40 era chique trabalhar para o poder público. Na de 80, ser executivo de uma multinacional. Hoje o funcionário público precisa de um enorme esforço para provar que é íntegro - e sabe que o faz apesar do Estado. O tiozinho de terno azul e sapato caramelo (com cinto combinando) pode não saber, mas segue o mesmo caminho.

Vivemos hoje uma época de transição. O poder migra hoje das empresas para as pessoas. Tenho várias considerações sobre essa metamorfose, mas o texto já está longo demais. Continuo num próximo artigo.

Antes que você o leia, recomendo que dê uma olhada na excelente apresentação do meu amigo Cris Dias baseada neste livro do Cory Doctorow. Se quiser, dê também uma olhada neste artigo que a analisa.

* Artigo publicado originalmente e na íntegra em Luli Radfahrer.

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Sobre o autor

Luli Radfahrer é PhD em Comunicação Digital, tendo dirigido a divisão de internet de algumas das maiores agências de publicidade, bem como dos maiores portais do país. Professor-Doutor da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e Diretor Associado do Museu de Arte Contemporrânea do Rio de Janeiro.


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